Jeremias explica o que pretende

Desejo falar por aqueles cuja existência foi uma acumulação de pequenas crueldades sofridas, dos que sentem a grande circulação das traições e dos acontecimentos insignificantes que preenchem a nossa curta passagem pela vida. Falo para guardar a tralha desnecessária do que recordo. Guardar o que puder, mesmo que pareça armazenar inutilidades que vão acumulando poeira lunar. No fundo, interessa-me que as lembranças sejam uma espécie de lixo. E chegam criaturas imaginárias do pensamento à procura, nos caixotes, de alguma coisa que se possa aproveitar. E o estranho é quando encontram uso para o que alguém atirou fora. Estes fantasmas têm o seu próprio lixo, de que não precisam mais e que podem largar, como lastro num balão. E assim sucessivamente, alguém procura a utilidade do lixo do lixo, em sequência que separa e degrada, que transforma e reduz. Até que da memória límpida não reste senão uma centelha.
O que busca o pintor na natureza morta? Talvez a forma, a fuga da luz, uma cor bizarra, ou algo de universal que não pode estar ali, pois que é a disposição aleatória de objectos inanimados. Eu procuro a natureza morta das almas, o que é fugaz e sincero, uniforme e brusco, tudo o que é enigmático e transitório nos seres humanos.


Embora julguem que sou doido, digo que cada um é único. Que não há diferença entre o valor grande e o valor pequeno, pois que o infinito torna toda a glória insignificante, e respondem que isso é absurdo, que o importante é triunfar e ganhar dinheiro e persegui-lo até que seja ele a ditar o que fazemos, que é ganhar ainda mais dinheiro e deixar que ele dite ainda mais a nossa existência. Areias movediças: cada movimento prende-nos mais ao solo, aperta-nos o corpo e empurra-nos para baixo. E assim é o mundo. Todos os que te devoram serão devorados. Os poderosos e os hipócritas, os ricos e os vaidosos, os roídos pela inveja e os que ambicionam tudo o que não possuem, desprezando tudo o que têm. No espelho a imagem do outro, todos os seus defeitos no outro.
Procuro os homens infelizes, desnecessários, o lixo do lixo. A fila dos desempregados, os que procuram sexo pago, os jogadores da bolsa, a venda de braços, o cansaço à boca do metro, um frio que entra pelos casacos, a buzina do carro apressado, os semáforos avariados e todos avançam, os que saem do cinema ainda a esfregar os olhos incrédulos da fantasia barata, a mulher bonita que passa sem olhar, o vendedor que espera a clientela, um cauteleiro desdentado, o pombo morto junto ao passeio, a luz que se acende na suite do hotel, o conhecido banqueiro com motorista a bordo do jaguar, a mulher gorda que olha para trás, para me ver a mim, com ar de repugnância. O vento assobia, fim de tarde, começa o frio, existe uma fadiga à solta a esta hora do dia.


A maioria ignora-me, nem repara. Para os que olham sou um alucinado, que agita os braços, que fala de forma insensata, que faz avisos tolos. E perguntam: que é isto?
A fachada das nossas almas é triste, quando nos passeamos nestas ruas frias de Fevereiro. Este é o rio lento da minha cidade, um rio que não chega ao mar.

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publicado por Luís Naves às 20:40 | link do post | comentar