Cais das colunas

Li a seguinte frase no livro de um grande escritor: “O Sol avançava para ocidente”. Tal e qual, como se pudesse ser de outra forma. Mas a frase não era banalidade, só vinha incompleta, pois havia todo um universo naquele movimento, a soma das tragédias humanas contidas num único dia. Esmagado pela tarefa de narrar algo de tão enorme, o autor limitara-se a colocar uma pequena etiqueta. Também sou assim e isto é o máximo que consigo dizer a toda a gente: “Vejam, o sol avança para Ocidente”.
Inclino-me no parapeito e olho o rio. O Tejo preguiça em frente a Lisboa, espalha-se em homenagem azul pela grande planície. A sua água está sempre suja, mas certas marés trazem plásticos e restos que se acumulam junto à parede, formando galáxias de detritos unidos por óleos escuros. Vejo um peixe morto a boiar. Que outra coisa pode um peixe morto fazer na água, senão boiar? A luz dilui-se na cinza e sopra um vento um pouco mais frio. O cais é antigo e está cheio de gente à hora do pôr-do-sol. Daqui podemos ver os apressados que vão apanhar o barco para o lado oposto. A esta hora, as gaivotas esvoaçam e falam umas com as outras, numa algazarra, mas as pessoas ficam pensativas. Invade-nos a melancolia.


Vejam este homem baixo e gordo, que tenta fechar o casaco demasiado estreito: pensa numa dívida que não pode pagar, faz contas e contas, recria cenários, mas não pode pagar e suspira; àquele outro ocorrem pensamentos confusos sobre o mal que fez a um vizinho; foi há mais de dois anos e o vizinho nunca soube, mas o assunto persiste como chuva miudinha e pegajosa. Tanta incerteza, sobre as vidas que tivemos, as promessas por cumprir, as palavras que desperdiçámos. Estão a ver aquele homem ali, o mulato? Pensa que foi cobarde por não enfrentar quem o atormentou; anda nesta amargura há três dias; aconteceu numa discussão no café do bairro, no domingo passado, por motivo trivial de clubes de futebol; e nem imagina que fez bem em não responder, pois quem o insultava, homem de maus fígados, tinha uma faca escondida, que teria usado contra aquela vítima, como certamente usará mais tarde cravando-a no corpo de outro inocente, talvez naquele mesmo café. O facínora irá para a prisão sem remorsos, mas dá para meditar: na vida, não há senão acasos, alguém que se salvou condenou outro.
Estes sussurros misturam-se como num sonho; aquele homem, que está ao lado do turista, pensa seriamente na anedota que lhe contaram nessa mesma manhã e que o fez rir às gargalhadas; ora, como era a sequência exacta? Havia um burro e um barco e tudo convergia numa frase que era de determinada forma que não recorda e que tenta desesperadamente reconstruir. De súbito, abre-se a ferida, e o homem sangra num único instante; o burro era ele, havia uma subtil alusão; no fundo, pensam que é estúpido, riem-se nas suas costas. E que dizer desta mulher que está a pensar no filho que a despreza? Vejam a sua tristeza, mas mesmo que chore, o que é mais uma lágrima? O de fato e gravata está mais ou menos feliz, mas não sabe bem se mais ou se menos; tomou uma decisão lá no escritório, mas só saberá daqui a um mês se foi a certa; entretanto acende um cigarro, vê-se que está inquieto; assim ficará durante um mês, com aquela nuvem a pesar na consciência. E os dois namoradinhos? Caso curioso, que parece paixão; ele imagina que encontrou a mulher ideal; ela pensa num outro rapaz, mas este que agora a abraça ainda não sabe, saberá mais tarde, o que o tornará menos ingénuo. Neste cais há rumores, pequenas ondulações, movimentos da água. O sol ocultou-se a ocidente. Ali está mais uma mulher triste, pois pensa na tia solteira e velha que deixou a apodrecer num lar barato para idosos; a recordação deixa-a cheia de vergonha. E há motivo para isso? Não tem culpa de ser a única sobrinha que se preocupou, mas a tia chora imenso, quando ela a vai visitar, de quinze em quinze dias. E ambas estão muito sozinhas. Não estamos todos?

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publicado por Luís Naves às 11:44 | link do post | comentar