O caso Tintim

O caso surgiu em 2007, mas só agora houve um veredicto do tribunal. Afinal, Tintim não está fora da lei, embora o advogado do queixoso pretenda apelar da sentença.

O envelhecimento de uma obra de arte como Tintim no Congo não devia ser crime, mas um dia os cigarros serão tirados da boca dos detectives matadores dos anos 30, a linguagem extirpada de todas as palavras como "nigger", será proibido ver um homem a mandar um piropo a uma mulher e a nudez ficará tapada, para não ofender minorias religiosas. É como os beijos tirados dos filmes em Cinema Paraíso

A cultura politicamente correcta que invadiu o quotidiano é um dos evidentes sinais de declínio da civilização ocidental. No seu livro A Study of History, Arnold Toynbee fala do colapso como a perda do poder criativo das "minorias criativas" que têm a capacidade de influenciar "as massas sem criatividade". (Desculpem as repetições, mas é assim que ele explica a questão).

Há outras teorias sobre a natureza cíclica da história e recomendo a leitura de um livro sobre este tópico: Civilização, o Ocidente e o Resto, de Niall Ferguson. O autor cita várias ideias sobre "sistemas complexos", admitindo, por exemplo, que é impossível fazer previsões com base em dados sobre o passado. Muito interessante a informação de que algumas civilizações desapareceram em pouco tempo, escassas décadas.

 

Se Toynbee tinha razão, então a misteriosa crise de criatividade dos nossos dias ganha outro peso. Não há explicação para os livros, a música e a pintura incompreensíveis. A ponto do compreensível ser desprezado pela crítica, gerando uma auto-censura nos artistas, que tentam fazer o "mais literário", o "mais contemporâneo", o "mais conceptual" (na pintura, "pictórico" é negativo; na literatura, "uma história" é a morte do artista; na música, ter "melodia" é anátema). Compare-se a própria música pop actual com a que era feita há vinte anos e vemos o fenómeno no seu esplendor. O declínio é evidente. Olhe-se para os filmes de Hollywood: contam-se pelos dedos os minimamente decentes feitos nos últimos vinte anos. Compare-se por exemplo a frescura do primeiro Guerra das Estrelas com a patetice do quarto episódio. Tintim escapou a ser fora da lei, mas não se livrou de uma adaptação hollywoodesca.

Estou apenas a dar exemplos, mas parece haver uma crise de ideias criativas ou estas parecem estar ao serviço exclusivo da sociedade de consumo.

Ao mesmo tempo que se esgota o poder criativo, a sociedade questiona-se sobre a validade dos seus clássicos, inclusivamente com a sua rejeição (o caso Tintim). O teatro faz reinterpretações e pastiche dos grandes textos, as orquestras sinfónicas são dispensáveis em tempos de crise (para quê ouvir Brahms?) e o estudo da língua, pelo menos para as massas, inclui textos de televisão. A arte tende para fogo de artifício, o estilo é tudo. Até na política a criatividade é defeito. Uma universidade americana fez a análise linguística do discurso do estado da nação de Barack Obama e concluiu que tinha sido um dos mais fracos de sempre, com nível de apenas sexto ano. O grande orador usou linguagem mais do que básica, pois o mínimo denominador comum dá votos e aponta o futuro.

 

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publicado por Luís Naves às 18:18 | link do post | comentar