O guarda-redes de negro

Foi Gyula Grosics quem inventou o estilo dos guarda-redes vestidos de negro. Era um homem baixo, mas parecia um gato a saltar; e o equipamento, o cabelo escuro, intimidavam. Foi o primeiro guarda-redes a jogar com os pés, saía da baliza como se fosse defesa e ia por ali fora, a fintar avançados.
O resto é conhecido: pertenceu à equipa dourada. Esteve no jogo do século, na batalha de Berna e na final de 54. Ali, contra os alemães, sofreu um golo a seis minutos do fim, por ter escorregado na relva húmida. Culparam-no pela derrota, mas em 1956, quando os outros jogadores fugiram da equipa, ele regressou; não que fosse comunista, pelo contrário, apesar de ser filho de mineiros.
Humilharam-no, mas isso era normal na época. Foi guarda-redes em Tatabanya, essa cidade de fumos e caixotes de betão, quando queria jogar no Ferencváros, o clube que as autoridades odiavam.
Passaram décadas e um dia fizeram-lhe uma homenagem, vinha nos jornais. Inscreveram-no como jogador aos 85 anos e ele apareceu vestido de negro, cabelo de neve, e assim cumpriu o sonho de jogar oficialmente pelo Ferencváros, que reservou para o seu nome a camisola número um do clube, onde afinal ele nunca jogara. Grosics tocou na bola, saiu em ovação, cumprindo o velho sonho. E, ao acenar para a bancada, viu-se na mística névoa a lenda em filme cor de cinza, e parecia fintar avançados, vestido de preto, rigorosamente, como se vestisse de casaca.

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publicado por Luís Naves às 19:27 | link do post | comentar