O explorador polar

O explorador polar Robert Falcon Scott morreu durante uma tempestade, em Março de 1912, junto a dois dos seus companheiros, quando se encontrava a escassos 20 quilómetros de um depósito de comida e combustível. Os ingleses estavam desidratados, esfomeados e com graves queimaduras, morreram do frio e fadiga, nada garante que se pudessem salvar, mesmo chegando ao depósito de uma tonelada. Os corpos foram descobertos por incrível sorte, em Novembro, e com eles o diário de Scott, publicado no ano seguinte em Inglaterra. Ainda hoje a Última Expedição se lê com admiração e espanto. O oficial da marinha britânica tornou-se herói nacional, roubando na morte a glória da conquista do pólo sul ao norueguês Roald Amundsen, que o batera na corrida por algumas semanas.
A história não costuma ser benévola para o segundo melhor, mas durante décadas, o capitão Robert Scott foi a excepção. Afinal, pagara com a vida e o texto que deixou provava a sua coragem. Isto foi assim durante duas gerações mas, nos anos 70, em tempos mais cínicos, surgiu uma história alternativa: Scott falhara miseravelmente, por estupidez, arrogância e mau planeamento. Amundsen era o verdadeiro herói da Antárctida, o primeiro a chegar ao pólo sul, devido à sua boa preparação, flexibilidade e sobretudo à simplicidade com que abordara o problema. De um lado, o marinheiro colonialista sem competência para chefiar um couraçado, do outro o homem moderno e pragmático.


Entretanto, veio a revisão dos revisionistas. Scott cometera erros, mas estes não explicavam o desastre. Também fora forçado a uma corrida ao pólo devido a uma atitude menos cavalheiresca do norueguês, mas o rival surgia no diário com referências do maior respeito. O feito do oficial britânico era extraordinário sob qualquer ponto de vista, sobretudo no plano científico. Esta argumentação é hoje convincente, lendo as últimas entradas do diário de Scott. Os três homens que se podiam ter salvo foram atrasados por um dos companheiros, que estava ferido na perna; na realidade, sacrificaram a sua vida ao não abandonarem o ferido. As temperaturas que enfrentaram (por duas vezes, no caminho de ida e na volta) foram invulgarmente baixas para a época e para a região. Scott teve um azar incrível e, em condições normais, teriam sobrevivido pelo menos três dos cinco homens, talvez quatro.
Os membros da expedição deixaram os corpos no local onde os exploradores faleceram. Já estavam sob dois metros de neve e hoje calcula-se que estejam a uma profundidade de mais de 30 metros. O glaciar desliza lentamente para o oceano e, num prazo de 300 anos, os três britânicos estarão no interior de um bloco de gelo que irá separar-se do continente. O gigantesco iceberg flutuará então no mar e o capitão Scott terá finalmente o seu couraçado.

 

A imagem foi tirada a 17 ou 18 de Janeiro de 1912, quando os cinco britânicos descobriram que os noruegueses tinham chegado um mês antes ao pólo sul. Scott está de pé, no meio. Só depois de escrever este post reparei que faz agora cem anos. Por esta altura, há exactamente cem anos, quatro sobreviventes estavam a começar a sua agonizante derradeira marcha, tentando chegar ao grande depósito seguinte. Atingiram os objectivos secundários, mas nunca chegaram ao último. O tempo, com temperaturas vinte graus inferiores às da época, impediu a continuação. Depois, não havia mais nada a fazer, excepto esperar o fim. Scott ia escrevendo. A sua última entrada é de 29 de Março, uma frase comovente: "por amor de Deus, tomem conta dos nossos". 

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publicado por Luís Naves às 19:18 | link do post | comentar