Da estupidez

Num livrinho chamado Da Estupidez, o escritor austríaco Robert Musil tentou explicar que há uma “estupidez inteligente”,  que corresponde a uma doença mental e que é especialmente perigosa, pois “ameaça a própria vida”. A certo ponto, o autor citou uma frase do seu livro O Homem sem Qualidades que resumia bem a ideia: “Não existe um único pensamento importante que a estupidez não saiba imediatamente utilizar”.
Segundo Musil, a estupidez pode ser uma abdicação da inteligência, algo que o autor conhecia bem, pois escreveu este texto para uma conferência em Viena, em 1937, um dos anos mais produtivos de sempre para a colheita da imbecilidade humana. O autor também refere que todos somos por vezes estúpidos e que essa estupidez desinformada possui utilidade, já que se triunfasse a regra de ninguém julgar ou decidir antes de ter toda a informação sobre um tema, então o mundo ficaria paralisado.


“Como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros”, escreveu Musil, antes de concluir que esse defeito deve ser limitado ao mínimo possível.
Veterano da guerra de 14, o famoso escritor vira a sua dose de dor. Não era propriamente um homem de esquerda, mas na altura em que escreveu este texto, assistia impotente à devastação que o nazismo provocara na inteligência dos seus compatriotas. Aquele era o fim de uma época, o colapso da civilização humanista, o triunfo de uma concepção absurda de poder, que caminhava para a destruição global.
A Áustria foi anexada em 1938 e a obra de Musil proibida. Acompanhado da mulher, o escritor refugiou-se na Suíça, onde morreu em 1942, faz este Abril 70 anos. Tentara em vão emigrar para os Estados Unidos, onde teria mais hipóteses de sobrevivência financeira, mas restavam-lhe poucos amigos e era um homem esquecido. Imagino a amargura que deve ter sentido, ao morrer sabendo que a estupidez triunfara.

 

A pintura Metropolis é de George Grosz e julgo que o expressionismo capta a essência da época.

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publicado por Luís Naves às 20:41 | link do post | comentar