Alexander Borodin. Quarteto de cordas nº 2 (III), andante (Nocturne)

Atrasara-se no regresso. Olhou a rua longa, que uma fileira de candeeiros iluminava, e que era quase um campo de trevas, pontuado pelas sucessivas clareiras da frágil luz. Do céu, pairava um luar metálico e as nuvens baixas cobriam por vezes essa impudica luminosidade.
Respirou o ar de Novembro e caminhou, fascinado com o som dos próprios passos a cortarem o silêncio. Em sentido inverso, vinha um homem atrasado e os dois, quando se cruzaram, saudaram-se numa dança de solitários onde houve um breve arrepio de incerteza. Sentiu o mundo vagamente deslassado; nas lâmpadas trementes, nas paredes alteradas, nas janelas distorcidas, nos mínimos sinais que restavam daquilo que antes conhecera à luz do dia.
De uma taberna vinha um ruído quente, canção imperceptível, e a noite tornou-se mais apertada. Teve um pouco de frio e apressou-se, fechando ainda o casaco. Ao andar, criara uma melodia que não era melancólica, mas que lhe fez lembrar o sono tépido dos que adormeciam nas suas casas.

 

Aqui.

publicado por Luís Naves às 18:29 | link do post | comentar