Os homens na Lua

Depois, veio o tempo mágico da conquista espacial. Líamos nos jornais e víamos na televisão as fantásticas proezas da exploração cósmica, mas muitas pessoas não acreditavam que fosse possível. Abanavam a cabeça, num gesto de descrença, e diziam que lhes parecia uma coisa do outro mundo.
O meu primo Miguel era o mais velho de nós e o mais desembaraçado. Um dia, decidiu fazer um foguetão igual aos de Von Braun. Roubámos os cartuchos de caça do avô e extraímos a pólvora, que fomos acumulando, numa quantia assinalável. Não sei onde ele arranjou o tubo e não me lembro dos pormenores da construção. Sei que havia uma cápsula em cima, com uma caixa de fósforos onde colocámos duas baratas.
O foguetão de combustível sólido foi lançado numa tarde de muito calor e sol, de uma rampa que improvisámos num terreno em frente à casa dos avós. Escondemo-nos atrás de umas pedras, acendemos o rastilho e ouvimos um estampido violento, embora breve, e o tubo ergueu-se no ar como se fosse o saturno 5 e julgo que terá explodido de imediato, apesar de não ter qualquer memória disso, pois provavelmente assustei-me e desviei o olhar, ou só olhei para o topo de engenho; o que lembro distintamente foi o voo balístico da cápsula. Não quero romancear, mas vi a cápsula três vezes acima da casa, ou antes, cinco vezes ou ainda mais, a cem metros na atmosfera. É assim que lembro. À volta, ardiam moitas, mas apagámos o fogo e recuperámos a caixa de fósforos, que estava partida e queimada. Lá dentro, as duas baratas incineradas, que sepultámos com honras, numa terra fofa que tinha acabado de ser semeada. Na campa pusemos uma bandeirinha de cinco centímetros, colada a cuspo a um palito, que ainda ali esvoaçou alguns dias.
Dormi na noite em que chegaram à lua, mas lembro-me que nesse tempo não se falava de outra coisa. Recordo, como se fosse num sonho, o passeio nocturno à lua cheia, com a avó e os meus primos. Íamos ver na televisão os homens da Apollo e ao olhar aquela bola pálida que se erguia majestosamente no céu, parecendo sorrir, pensei com nitidez que havia ali pessoas de cabeça para baixo e quando elas olhavam na nossa direcção, estávamos nós de cabeça para baixo. Percebi nesse instante que a realidade era um ponto de vista, que não havia nem baixo nem cimo, que estávamos presos à terra e que, por muito breve que fosse o voo, a ela voltaríamos, como acontecera às duas baratas incineradas, as duas primeiras astronautas da aldeia dos meus avós.

publicado por Luís Naves às 16:08 | link do post | comentar