O Príncipe Falso

O Príncipe Falso era um pequeno bácoro rosadinho e histérico, de orelhas arrebitadas e pele muito lisa. Tinha aspecto apetitoso. Lembro-me que lhe fazíamos sevícias constantes e ele (porque os porcos são espertos) fugia de nós sempre que nos via, incapaz contudo de evitar a captura, distraído com qualquer coisa, esquecido dos diabretes. Nas sessões de tortura protestava a sua inocência, mas a nossa persistência era mais forte. Tal como os bons polícias, desconfiávamos de confissões apressadas, rendições incondicionais. Todos se dizem inocentes e assim era também com o Príncipe Falso.
Uma vez fizemos um buraco no chão, uma cova ainda funda e tapámos a armadilha com folhas de fetos gigantes. Depois, tentámos que o porco avançasse sobre as folhas para cair no fundo da cova, que teria uns palmos de profundidade, mas palmos de menino. O porco olhou para aquilo com a desconfiança inata acumulada em milhões de anos de evolução e recusou-se a pisar o que provavelmente lhe parecia um buraco tapado por fetos gigantes. Seguiu-se um conflito de vontades entre as duas espécies, nós a insistirmos que o porco pisasse a armadilha e ele recusando-se a aventurar-se em solo instável. Então, fizemos batota, empurrámos o príncipe falso e ele bateu com o focinho no fundo, muito indignado, aos gritos, talvez a dizer-nos que não se deixara enganar e que a invenção, assim, era bastante injusta.
A vida de porco, naturalmente, não era brincadeira. Esperava-se que deixasse de ser bácoro e ficasse um grande animal de ancas fartas e dorso robusto. Era alimentado com restos de comida e vivia numa pocilga especial, onde devorava quantidades de batata e couves e feijão e tudo o mais que lhe aparecesse à frente do focinho. Comer era a sua vocação e assim cresceu o nosso porco, o único que a minha avó teve, que eu me recorde.
Não tenho bem presente o resto da cronologia do Príncipe Falso, mas no ano seguinte já era um ser enorme e pesado, que se arrastava dificilmente, estupidificado pelo pecado da gula. Ou talvez tenha passado mais de um ano. Só sei que a avó o vendeu por 250 escudos e o Príncipe Falso foi embarcado com dificuldade numa camioneta que o levou para um destino que ele sabia ser horrível. Protestou a sua inocência ao subir a rampa, olhou para nós, com aqueles seus olhinhos minúsculos e assustados, tentando talvez convencer-nos de que fora nosso companheiro de brincadeiras e que o fizera sempre sem maldade e se, um dia, resistira a cair no buraco tinha sido para dar mais sabor às diversões, para que a galhofa fosse mais interessante. E nós, garotos, ficámos a olhá-lo a subir a rampa do cadafalso, um belo fim para um príncipe.

publicado por Luís Naves às 13:18 | link do post | comentar