Mutações

Faltavam vinte números e já não sabia o que fazer. Tentei concentrar-me na leitura do artigo, mas o barulho das pessoas distraía-me. O texto era sobre um cientista que desenvolvera em laboratório mutações de um perigoso vírus da gripe. Até aí, este não se espalhava com velocidade, mas com as mutações tornou-se mortal, capaz de destruir uma percentagem elevada de todas as pessoas vivas. Artigo interessante, mas denso. A vida é como um jogo de casino e os cientistas subiram a parada: foi preciso fabricar um mutante que passasse de humano em humano com um simples aperto de mão, e era preciso fabricá-lo antes que a natureza o fizesse.


As pessoas passavam, olhavam os pequenos ecrãs, metade deles avariados, e levando nas mãos as pequenas senhas brancas, conferiam longamente os números, que lhes pareciam sempre longínquos. Ao meu lado, estava uma pretinha linda, entretida a pintar as unhas de cor-de-rosa, tonalidade que lhe ficava mal, num contraste agreste com a pele fortemente castanha. Conversava com a mãe, mas sempre a olhar para as mãos e meio distraída da conversa. Uma senhora gorda estacionara em frente, tirando-me parte da vista; dois paquistaneses palravam em urdu; sentada nas fileiras do outro lado, estava uma mulher triste, com ar aflito e a suspirar profundamente em cada cinco minutos; no átrio, como quem passeia entre vinhedos, fazia umas piscinas um homem com ar de camponês, ainda de boina na cabeça.

Crianças e velhos, negros e brancos, uns mais raros de fato e gravata, toda a humanidade concentrada, todo o cheiro da humanidade também; e passou um velhote a tossir e tossiu para cima de mim e pensei naquele vírus que estava guardado a sete chaves no cofre de um laboratório de alta segurança e que os políticos queriam destruir e os cientistas com dúvidas, a insistirem que a natureza era melhor do que a ciência a produzir vírus perfeitamente mortais, tão mortais que poucos de nós escapariam para contar a história se o bichano andasse por ali a cumprimentar as pessoas.
Talvez escapasse a jovem que a meu lado disse de súbito para o namorado:
   - De que me serve saber o que a tua mãe faz? Em que é que isso contribui para a minha felicidade?
E riu-se. Ele lá balbuciou qualquer resposta e a lógica morreu no burburinho dos que subiam e desciam as escadas e dos que ficavam plasmados em frente ao ecrã, para conferirem bovinamente o número da senha. Era assim, aquele mundo.
Faltavam 15 números e o relógio avançara um ano-luz.
Havia tempo à nossa frente, mas melhor seria a namoradinha espreitar desde já as manias da futura sogra, aprender a fazer os mimos certos ao rapaz que, como todos os rapazes da sua idade, era carente. Dessa forma, ela poderia contribuir, e muito, para a sua felicidade futura. No fundo, tudo se resumia a misturar bem uns genes e rezar em relação às mutações que viessem na lotaria: que nada fosse pior do que unhas encravadas, pestanas a crescerem para dentro do olho, dentes encavalitados, caspa, acne.
 
E aqui está a humanidade resiliente à minha frente, uns mais brancos, os outros mais pretos; uns mais bonitos, outros mais feios; uns melhores, os outros piores; mas todos parecidos na sua humanidade. Todos eles com defeitos, volúveis, inconstantes; alguns, tão raros como os que usam gravata, talvez capazes de resistir ao vírus no cofre do cientista. O artigo é denso, já passei de meio. Eu ficarei talvez morto, também a beldade das unhas cor-de-rosa, e o bebé de colo; e a velhinha da bengala a quem ninguém dá o lugar; e o cinquentão armado em fanfarrão, risco de cabelo alinhado como a auto-estrada norte-sul; e o brasileiro e o paquistanês, os dois disciplinados, à espera de vez.
Faltam três números e eu aqui a perder as poucas horas que me restam, isto se o mutante sair do cofre ainda hoje ou se uma estrela das vizinhanças explodir em supernova, para não falar dos asteróides, terramotos e tsunamis que espreitam a sua oportunidade. Certo dia, li um jornal do tempo da pneumónica: tinha poucas páginas; durante semanas, morriam diariamente centenas de pessoas, incluindo os redactores. O banal nunca é notícia, mesmo que seja desgraça.
De súbito, assusto-me. Desce as escadas, elegante, uma mulher parecida com Maria Callas. Todos a olham, como se entrasse em palco, o nariz perfeitamente imperfeito, o penteado fora de moda, um corpo magro e frágil. Parece atarantada por não ter aplausos unânimes, bravos e pedidos de casamento. Eu próprio casaria com ela, mas chamam o meu número. Corro. Sento-me. Entrego a minha senha amarrotada. Todo eu sou mesuras para a funcionária:
   - Queria um cartão de cidadão, por favor.
   - Trouxe algum documento de identificação?
   - Para dizer a verdade, não trouxe.
   - Sem documento de identificação, não lhe posso passar o cartão de cidadão.
   - Mas o cartão de cidadão é um documento de identificação…
Ela, muitos anos a virar frangos, já ouviu a deixa mais de cem vezes:
   - É o sistema...
Sim, nada a fazer contra isso. O sistema ordena e regula, sem o sistema não há disciplina. O sistema é cruel: a senha seguinte é da rapariga das unhas cor-de-rosa. Toda ela mel com a funcionária. Afasto-me, em derrota, passo pela sósia de Maria Callas, que ainda espera os aplausos, meio irritada com aquele público ingrato. E lá longe, submerso num laboratório, um vírus mutante sonha com a liberdade.

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publicado por Luís Naves às 18:37 | link do post | comentar