Um livrinho de previsões

Numa feira de velharias comprei por um euro um pequeno livro dos Cadernos do Século com o sugestivo título “Como Viveremos em 1980”. O volume foi publicado em 1970 e inclui ensaios escritos por diferentes autores, abordando vários temas do futuro próximo. Um dos textos é do escritor e ensaísta Arthur Koestler, uma das figuras mais interessantes do século XX, um homem cheio de contrastes e defeitos, que escreveu um dos romances mais poderosos que conheço sobre o totalitarismo, O Zero e o Infinito.


O livrinho de previsões que refiro no início do post está virado para o futuro mais distante (sobretudo o ano 2000), mas Koestler reconhece a aceleração da História e escreve para 1980, prevendo que nos espera “trabalho, família, mediocracia”. As pessoas continuarão a ser monogâmicas, conservadoras, bastante medíocres, considera o autor, com a monarquia a velar pelo país (o Reino Unido, onde ele vivia desde a Segunda Guerra Mundial). Ou seja, o futuro teria tudo mais ou menos na mesma quantidade e forma: “É a minha vózinha que me murmura que, em 1980, depois do jantar, estarei calmamente ocupado a fazer as minhas palavras cruzadas, como de costume”, escreve Koestler.
Esta última frase deixou-me boquiaberto. Em 1976, Koestler foi diagnosticado com Parkinson e, em 1980, com leucemia. A sua saúde degradou-se nos anos seguintes, a ponto do autor ter decidido suicidar-se em 1983, acompanhado pela mulher, que era relativamente jovem na altura. Até na morte o escritor anglo-húngaro foi uma figura controversa e ninguém compreendeu o pacto suicida, sobretudo como foi possível Koestler não convencer a sua mulher a desistir da morte prematura. Alguns dizem que o escritor era uma pessoa brutal. Tinha poucos amigos e, devido ao que escreveu, era odiado pela esquerda pró-comunista e pelos sionistas.


A ideia de que a vida dos indivíduos não muda assim tanto é interessante e julgo que se trata de uma observação verdadeira na maior parte do tempo. Mas não parece válido para as grandes acelerações da História. Em 2012, não me atrevo a dizer que daqui a dez anos estarei tranquilamente a fazer as palavras cruzadas. E, no entanto, o autor de O Zero e o Infinito sabia como a vida pode ser incerta: no romance, um alto dirigente comunista, Rubachov, vai sendo interrogado durante as purgas de Estaline e tudo o que fez torna-se inexplicável. As suas certezas são destruídas, uma a uma. Koestler esteve no corredor da morte, em Espanha, e escapou por pouco. Isso deve ter marcado a sua vida. Tinha 78 anos quando se suicidou: este homem de suprema inteligência não viveu o suficiente para assistir ao fim do sistema comunista, que aconteceu apenas seis anos depois da sua morte. Acho que nem sequer lhe passou pela cabeça que isso fosse possível.

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publicado por Luís Naves às 11:49 | link do post | comentar