Quando acabou a pasmaceira

As aulas de história eram as minhas favoritas porque no ano em que acabou a pasmaceira, tive um professor que não era daquele filme. O velho trazia tudo escrito à mão numas folhas soltas e devia saber toneladas sobre a época medieval, pois fiquei com a pancada de ler sobre esses tempos remotos e ainda hoje me lembro como lhe bebia as palavras. Infelizmente, tínhamos poucas aulas, pois havia reuniões gerais de alunos dia-sim, dia-sim. Os professores tinham medo, devo dizer. A Amadora era uma zona revolucionária e o liceu estava dominado por grupos de extrema-esquerda; não recordo os nomes, sempre confundi aquelas siglas todas iguais, de partidos revolucionários que se dividiam em pentelhos ideológicos, julgo que a facção albanesa era a dominante.
Lembro um episódio: numa discussão que se tinha desviado para a política, a professora de português chamou-me mentiroso. Eu afirmara que os soviéticos e os nazis tinham feito um pacto antes da segunda guerra mundial e os meninos viraram-se contra mim, chamaram-me provocador e apelaram ao desempate da professora. Ela tinha duas opções: ou confirmava a informação e arriscava-se a arranjar um sarilho com a polícia ideológica que controlava a escola, ou negava e mudava de tema. Escolheu a segunda e ainda hoje penso nisso. O que é melhor, a verdade ou a mentira piedosa? Em 75, os professores tinham medo dos alunos e dos grupelhos políticos que vigiavam o que era ensinado, tinham medo das patrulhas dos professores revolucionários. No fundo, era um fascismo ao contrário. Numa reunião de alunos que se descontrolasse, podiam ser saneados. Era assim, embora isso não possa ainda ser escrito. A verdade é coisa complicada.

 

Pois, tocou a campainha quando ouvia o velho professor de história, que era um dos poucos que dizia o que pensava. Tomavam-no por tolo e não lhe faziam muito mal, só se riam dele.
Havia um código dos toques e três significava perigo iminente, como nas sirenes dos bombeiros. Ao chinfrim da campainha, os putos saltaram como pipocas e correram aos postos de combate. Eu preferia continuar a aula e fiquei sentado; o professor, cuja cabeça estava um pouco caída, ficou a olhar para mim com ar severo, como se fosse eu o culpado, e olhava para as carteiras abandonadas, algumas delas tombadas no chão. E também acabei por seguir os outros, mas antes de sair endireitei algumas das cadeiras e o professor agradeceu-me, numa voz que, segundo recordo, tremia um pouco.
O liceu era recente, com pátios e recreios entre os pavilhões, muito espaço e um pavilhão central onde os revolucionários fizeram uma reunião rápida, para organizar a defesa. Nessa tarde não houve mais aulas. Corriam rumores contraditórios, mas a história era de que os fascistas do liceu de Queluz iam atacar o nosso liceu, numa expedição punitiva que pretendia acabar com as nossas liberdades. Aquilo, para mim, não fazia sentido e ainda pensei em ir para casa, mas fiquei ali a ver o que acontecia, acompanhado pelo meu amigo Mário, que hoje pode servir de testemunha sobre o que aqui escrevo. Rapidamente, foram definidas as tarefas defensivas e a revolução avançou com patrulhas na vedação, armadas de paus, e que vigiavam eventuais infiltrações, além de patrulhas empoleiradas nos portões azuis, que meticulosamente anotavam as matrículas dos carros que passassem por ali. No pavilhão central, estava instalado o estado-maior, onde os agitadores profissionais juntaram as meninas, obviamente para protecção. O liceu fora transformado numa espécie de castelo e assim o imaginei: a ponte levadiça, as populações assustadas, aquém das muralhas, os cavaleiros armados, prontos para rápidas incursões no exterior, capazes de defender a honra revolucionária. Mas não era assim grande castelo, faltavam as seteiras, as torres, as ameias, a pedra dura e a água mole, bem como o azeite a ferver.
E, durante algumas horas, vivemos aquele impasse de nada acontecer, de não se confirmar o cobarde ataque do liceu fascista. Os professores tinham desaparecido e fizeram bem, pois quem sabe o que acontece num ambiente de histeria descontrolada? Eu limitei-me a passear por ali e não participei: aquilo parecia-me uma espécie de sonho, um acontecimento artificial que não me dizia respeito, que me era alheio. Ao longo da vida, isso aconteceu-me muitas vezes: estar a ver algo que se passava em frente aos meus olhos, sem me importar, sem a mínima vontade de interferir, como se fosse possível ser apenas espectador dessa vivência; mas a palavra está talvez mal utilizada; não era vivência, mas um facto que podia ou não ser testemunhado; era indiferente, nada mudava em mim, por isso não era vivido, estava apenas ali.

 

Quando se puxa um elástico, a certo ponto ele parte-se. O momento em que isso acontece é inesperado, mesmo para quem está a puxá-lo sabendo o que vai acontecer. É impossível prever o momento exacto do estrondo ou o instante da dor, quando devido à tensão acumulada o pedaço partido choca com a pele da mão que segurava a ponta.
Assim sucedeu na guerra do liceu. Tudo se precipitou de repente. Na rua limítrofe apareceram duas motorizadas e ouviu-se um forte grito e saiu pelo portão uma turba de infantaria armada de varapaus a pedras (a minha imaginação acrescentou uma bandeira vermelha à frente). Correram dezenas de miúdos para lá e ainda vi as duas motos a voarem pelo ar e dois rapazes que fugiam, num pânico incrível, e alguém regressou, explicando que a guarda avançada deles, a patrulha de reconhecimento, tinha sido interceptada pelos nossos e estava a ser perseguida na Reboleira, que como sabem tem uns prédios bastante altos. Junto aos portões, os putos gritavam: “NATO fora de Portugal, Portugal fora da NATO”. E dentro do liceu, havia uma indescritível excitação, com grupos a correrem, falsos alarmes, toques de campainha em pânico.
Chegava entretanto o grosso do exército com dois prisioneiros e correram histórias de que tinham sido capturados na torre mais alta da Reboleira, com 25 andares. Era uma força bêbeda de vitórias, confiante e altiva, que fizera a sua devastação; levantava densa poeira, ao atravessar o descampado, erguendo os paus como se fossem espadas, os elmos às cabeças brilhando, pois o sol já se inclinava, o que pareciam armaduras ferozes e todos marchando em alta grita. E, lá no meio, os assustados prisioneiros, chorando os seus rocinantes mecânicos, que agora jaziam no caminho.
Esclareceu-se mais tarde que aqueles fascistas eram dois namorados que vinham buscar as suas amadas, mas isso não alterou o essencial. Foram levados para dentro e, mais tarde, muito a medo, apareceram alguns polícias para levar os invasores ao seu destino de calabouço. E, junto aos polícias, vinha um jipe com quatro comandos; quando começaram os insultos de fascistas e outros mimos (erro táctico) os soldados saíram do jipe e espancaram uns putos que não fugiram a tempo. Enfim, não foi bem fuga, foi mais uma retirada estratégica, pois a revolução às vezes tem de dar um passo para trás para mais tarde poder dar dois para a frente.

E este foi mais ou menos o momento em que tudo acabou. Para mim, era a hora de regressar a casa. E assim fiz, ainda desconhecendo o meu futuro insucesso escolar. Mas posso dizer que foi um dos dias mais divertidos da minha vida.  

publicado por Luís Naves às 20:16 | link do post | comentar