A viagem (2)

(...)

Era uma mulher alta, dos seus trinta anos, muito nobre de perfil, com um cabelo estranho, negro mas extraordinariamente liso. Tinha um ar melancólico e estava sentada à mesa, tentando enrolar com o dedo o cabelo que nunca assumia a forma de caracóis. Um gesto de nervosismo ou o gesto de quem simulava inquietação?
Trocaram algumas palavras e Luciano percebeu de súbito que estava perante uma mulher espantosamente bela, sobretudo inocente e cheia de bondade, vítima de um equívoco. Sentiu-se corar com aquele pensamento, que não foi provocado por alguma frase em particular ou pelo tom de voz ou pela postura de Dona Efigénia, que continuava sentada com tranquilidade, apesar do grande frémito que se lhe adivinhava em cada molécula do corpo. Quis defendê-la, sim, foi essa ideia que o invadiu. Sentia-se um defensor da justiça, indignou-se com a ausência de um advogado que a pudesse tirar daquela situação degradante.
Em cinco ou seis frases que trocaram, percebia-se o seguinte: o major Neves falecera, vítima de apoplexia, e as duas amigas tinham velado o corpo, esquecendo-se na aflição de convocar a presença de um médico que confirmasse o óbito. Uma questão processual, enfim, um morto é um morto, deve ser tratado com respeito. E tinham sido presas por tão pouco, uma ridicularia, suspeitas de crime por envenenamento, àquele nosso bom amigo? Luciano quis saber mais sobre o major e sobre as circunstâncias da doença súbita. E as explicações surgiram a pouco e pouco, um farrapo aqui, um pequeno choro silencioso, outro farrapo ali, mais lágrimas subtis, um suspiro gentil, um gesto a pedir perdão seguido de silêncio triste, outra frase esclarecedora, uma pausa de reflexão pesarosa. Dona Efigénia foi pungente no seu relato e Luciano ia ficando mais revoltado com aquela óbvia injustiça. Prenderem uma mulher tão virtuosa!
A certo ponto, abandonara a entrevista e falava com ela como amigo. Arrebatado, comprometeu-se a ir procurar um advogado, que a tiraria depressa daquela vicissitude.
   − E a amiga, não se esqueça da minha amiga, − disse ela.
Sim, havia a cúmplice, enfim, a outra prisioneira.
   − Também a libertamos, − prometeu o paladino.
E saiu para cumprir a missão. Teve sorte e não gastou muito tempo. Conhecera o bacharel Márcio Andrade nos bancos de escola e apenas recentemente se tinham separado os seus caminhos, ele nas aventuras da imprensa, o amigo a defender causas justas, ambos no mesmo lado da barricada. Por vezes encontravam-se, à noite, vagueavam pelos cafés do Chiado e no passeio público, antes de irem ao teatro. Geralmente falavam sobre literatura, em longas conversas. Márcio era o que mais próximo tinha de um amigo e provou-o mais uma vez, ao aceitar libertar as duas damas em perigo, mesmo com as deficiências da explicação balbuciada por Luciano, numa história cujas falhas seriam em breve esclarecidas.
O procedimento foi rápido. A acusação de terem ignorado as autoridades foi explicada pela extrema comoção e choque de verem assim falecido alguém de importância nas suas vidas. Era perfeitamente plausível que tivessem ignorado os procedimentos adequados, de chamar um médico, comunicar à polícia. Nervosismo feminino, um mal-entendido simples, agora desfeito e esclarecido.
Os papéis da liberdade ficaram devidamente assinados, Márcio a recusar qualquer paga pela sua intervenção, um prazer ser útil a vossas excelências, disse ele, erguendo ligeiramente o chapéu, recebendo em troca um encantador sorriso de Dona Efigénia, agora ainda mais deslumbrante. E descia as escadas, nesse momento, uma mulher loura, uma estampa, que Luciano identificou imediatamente como a outra suspeita. Apresentaram-se:
   − Luciano de Morais, jornalista.
   − Márcio de Andrade, advogado.
   − Ângela Maria, enfermeira.
Enfermeira? Os dois amigos olharam-se, surpreendidos. Márcio despediu-se, tinha assuntos urgentes a tratar (e tinha mesmo, ainda pensou em acompanhar as senhoras mais um pouco, mas lembrou-se do prejuízo potencial no outro negócio; hesitou, amaldiçoou a sorte, hesitou mais um pouco e decidiu-se pelo dever).
Assim, foi Luciano quem acompanhou as duas senhoras até à pensão onde morava Dona Efigénia, com oportunidade dourada para ouvir o resto da história.

 

(Continua)

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publicado por Luís Naves às 11:50 | link do post | comentar