Joszef Varga saiu de casa às 8 e 15

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Os vizinhos disseram que Joszef Varga saíra de casa por volta das oito da manhã, mas em notícia publicada no jornal Liberdade do Povo, uma testemunha precisava a hora e o minuto, 8 e 15, assinalando que há velhos hábitos de vigilância que custam a passar no nosso país. Aquele fora um amanhecer de final de inverno, com o vento ainda frio e teimoso que preserva a neve da véspera, tornando os pavimentos escorregadios. Nas horas iniciais do dia, de azulado uniforme, uma bruma húmida aconchegara a cidade, mas dissipou-se devagar, até a atmosfera ficar translúcida. E, a pouco e pouco, o sol instalou-se, aquecendo o dia manso. As águas do Danúbio corriam para longe, numa inquietação.
Varga vivia sozinho. Era uma figura magra, curvada e austera, de ar distinto, com pobreza escondida. Naquela manhã, vestia um sobretudo escuro e tinha na cabeça um antiquado chapéu de abas e ao pescoço um cachecol de padrão escocês, aos quadrados azuis e verdes, quase tão vivido como quem o vestia. Tinha pouco mais de 70 anos, mas parecia mais novo, talvez por causa do nariz grande, deformado, e do cabelo cortado curto. Sorria pouco. No conjunto, o seu aspecto era capaz de assustar crianças e intimidar quem lhe faltasse ao respeito. Naquele dia, não dirigiu a palavra a nenhum conterrâneo, mas esse era o seu hábito. Nem cumprimentou as duas idosas que saíam para as compras, o que elas não estranharam, conforme mais tarde confessaram a um dos repórteres que andou por ali a farejar o caso, porque era assim o comportamento habitual dele, do vizinho mal-encarado que lhes calhara em sorte; hoje em dia, como explicaram, há cada grosseirão nas casas de painel de rendas camarárias; famílias disfuncionais, pré-reformados inúteis a viverem de biscates e expedientes; perdeu-se todo o respeito, salientou uma das idosas, e o jornalista encolhia os ombros, a pedir algum detalhe mais picante e que não fosse do conhecimento geral dos leitores. E o seu vizinho recebia visitas, enfim, percebe o que quero dizer, visitas femininas? As velhotas reagiram escandalizadas: isto é um bairro decente, por quem nos toma?
O bairro é uma amálgama de edifícios desse estilo socialista, afinal sem estilo nenhum. Os prédios são todos iguais, cinzentos como um céu de chumbo, e as janelas, parecendo grandes, acabam por lhes conferir um aspecto geral de cubos invernais sobrepostos, cada um com o seu drama particular lá dentro. Estacionados em frente, ainda se avistam alguns dos carros socialistas, Trabants ou Zastavas que não se fabricam mais e cujas silhuetas evocam uma espécie de arrepio, quando por um instante nos fazem regressar ao passado. 
Na manhã de que falo, nos acessos entre os prédios, havia uma lama congelada que se misturava com rastos de neve suja. Para se encontrar alguém que tivesse trocado algumas palavras com Joszef Varga era necessário ir até à estação de Kispést, com a sua confusão de gente apressada e de impaciência mal dormida. É ali que se pode apanhar o metropolitano da linha número dois, que aparece a azul nos mapas da cidade e que corresponde ao percurso mais suburbano. As carruagens antigas, de fabrico soviético, estão num estado lastimável, cobertas de grafitos, pintadas de alto a baixo com estranhas mensagens em linguagens futuristas. Circulam cheias de sujidade, quase desconjuntadas. E o cais da estação está tão imundo como o resto do país e assim está também a paragem de autocarros e o passadiço erguido sobre a estrada, edifício de arquitectura absurda, dos anos 70, de modernismo comunitário, feio como a noite, e que pintaram num vermelho berrante; ali há alguns pequenos cafés em cubículos infectos, a banca de jornais e revistas, umas mercearias para celibatários, com os seus empregados sempre desconfiados de quem entra nelas.

 

Iniciamos a publicação parcial de uma novela de Lajos Kormanyos, traduzida do húngaro por Luís Naves.

publicado por Luís Naves às 23:09 | link do post | comentar