A poderosa selecção espanhola

Não imagino como seria há 50 anos. Os leitores portugueses conheciam certamente alguns autores espanhóis do seu tempo, mas estes não teriam a importância que os romancistas espanhóis vivos têm hoje.

Portugal entretanto ligou-se à Espanha: viajar é fácil, vemos os seus jogos do campeonato, o mercado é ibérico, os produtos de supermercado, a energia, a banca; e cada vez mais lemos os seus livros. As editoras espanholas dominam, trata-se de uma possível explicação para o fenómeno, mas não chega: em Espanha, surgiu nas últimas décadas um grupo de romancistas de alta qualidade e Portugal rendeu-se a esta literatura. A selecção espanhola é provavelmente a mais forte da Europa, hoje em dia. Alguns dos escritores são quase familiares em Portugal e a sua obra é um verdadeiro milagre.
É o caso do catalão Enrique Vila-Matas (na imagem). A leitura de Ar de Dylan, que levo a meio, confirma os pontos que julgo serem mais fortes neste autor: a imaginação frenética, os jogos mentais, a definição das personagens, as incursões filosóficas, a profundidade das ideias, a simplicidade do estilo associada a uma construção complexa, também as pequenas histórias dentro da história, que julgo ser uma das marcas dos grandes prosadores. Vila-Matas usa constantemente referências cinéfilas e literárias, pega em pequenas frases, em paisagens urbanas, truques dos policiais, e cria expectativa, levando o leitor a um universo original com a forma de labirinto.
É interessante perceber como se encontram elementos comuns em alguns dos grandes escritores espanhóis vivos. A obsessão pelo encantamento do cinema, por exemplo, que também encontramos em Juan Marsé ou Javier Marias; a ferida aberta da guerra civil, que todos abordam, mas estou a lembrar-me em particular do extraordinário livro de Javier Cercas, Soldados de Salamina, ou do mais recente de Antonio Munoz Molina, A Noite dos Tempos. Os autores exploram muito bem a inocência da infância e a memória, veja-se O Mundo, de Juan José Millás, que é um contista notável; ou a ideia do fracasso, sendo que este último tema percorre a obra de todos os mencionados. Há outra coincidência: à excepção de Marsé, escrevem regularmente no El Pais, no suplemento Babelia, na revista de domingo ou no próprio jornal. Os prosadores espanhóis são cosmopolitas, globais, ligados à tradição, cronistas com opiniões políticas.

A selecção espanhola de romancistas inclui vários nobelizáveis e não me admirava se Javier Marias ganhasse o prémio Nobel, após a publicação recente do ambicioso Tu Rostro Manaña. É também engraçado que este autor considerado difícil escreva regularmente sobre futebol. Uma última palavra para Molina, que tem prosa melancólica, menos fantasista do que a de Vila-Matas, mas com boas histórias e personagens bem construídas.

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publicado por Luís Naves às 13:42 | link do post | comentar