Lanterna vermelha

 

Sempre gostei de histórias antigas de ciclismo e este conto de jornalistas é inspirado na leitura das prosas de jornais sobre competições épicas. Trata-se aqui de um tempo em que não havia televisão e ao longo da estrada juntavam-se multidões que andavam quilómetros para poderem ver passar o pelotão durante alguns minutos. Os ciclistas eram heróis populares e os repórteres dos jornais narravam as vitórias comparando-as a grandes feitos, em prosas dramáticas, abundantes de adjectivos, onde brilhava o sacrifício, mas também o sangue e a dor.

 

  

   “Naquele tempo, as estradas eram infernais, cheias de buracos e havia perigos escondidos em cada curva. Andar na Volta a Portugal em Bicicleta era coisa de doidos, para homens como já não se fabricam, de outra têmpera. Você, que é jovem, pergunta-me qual o momento mais fantástico a que assisti, mas não consigo escolher, de tantos episódios que me ocorrem. A memória é estranha, menino, as coisas misturam-se, baralham-se, mas o que mais tento lembrar são aqueles homens já esquecidos, os lanternas vermelhas que se arrastavam atrás do pelotão, derrotados e, no entanto, persistindo sem fôlego montanha acima, sem os aplausos do público, quantas vezes com o escárnio dos que nas margens das estradas só viam o heroísmo sem verem a parte do sofrimento. Para mim, esses foram sempre os melhores, os que nunca desistiam, seguindo sozinhos, ou melhor, sempre acompanhados apenas pelas suas dores”.
   “O momento mais fantástico a que assisti? Não posso esquecer a primeira etapa da primeira volta que acompanhei. Recordo tudo como se fosse hoje. A primeira de 25 competições de ciclismo que cobri como repórter. Foi à sexta etapa da décima sétima volta a Portugal em bicicleta, no ano de 1952. Faz agora 36 anos, veja lá! A tirada compreendia 167 quilómetros e foi uma doideira pegada.”
   “Cheguei à corrida apenas na sexta etapa porque um camarada adoecera e mandaram-me para Coimbra para o substituir. Eu não sabia nada da modalidade, nem sabia quem eram os campeões habituais, o Fernando Moreira de Sá ou o Luciano de Sá, dois irmãos do Futebol Clube do Porto. O Moreira de Sá viria a ganhar essa volta. Na altura, eu tinha 21 anos, mais ou menos a idade que você tem, mas era mais estouvado. Enfim, lá fui para Coimbra e juntei-me à comitiva: os jornalistas iam num velho carrinho (nesse tempo tudo era velho) e anotavam todas as peripécias, em prosas muito visuais, porque não havia televisão e funcionávamos como os olhos do povo”.
   “Aquele foi um dia esplêndido de final de Agosto. Terça-feira. Recordo isso como se fosse hoje e ainda me lembro de umas frases tolas que escrevi: ‘Coimbra veio à ponte de Santa Clara despedir-se dos corredores. E foram centenas de pessoas que ali compareceram, apesar da hora matutina. Havia nuvens no céu e soprava um vento fresco. Lá em baixo, corriam fiozinhos de água, que são agora nesta época o Mondego das tradições’. Já viu as parvoíces que a gente escrevia? Mas deixei-me embalar pela verdura do Mondego. Ficaria mais tarde a saber que o vale tinha aspectos enganadores, pois para se passarem as montanhas é preciso esfolar o corpo até ele sangrar como um Cristo, suar até sentir que se morre de sede e chorar muito, mas mesmo muito, pela estrada fora”.
   “Lembro-me daquela etapa alucinante, por uma estrada tão má que houve mais de cem furos no pelotão. Havia 48 ciclistas à partida, faça as contas. As estradas eram um pavor e eles tinham de passar por descidas que metiam medo. A poeira era de tal ordem que nas curvas os ciclistas não viam nada, atiravam-se e rezavam para que não estivesse ali um obstáculo: podia ter ocorrido muita tragédia, mas isso seria numa etapa mais à frente, com três feridos em Vendas Novas. Eu não vinha preparado para descrever uma competição tão dura, e apesar de não estar em cima de uma bicicleta a torrar ao sol, só pensava em desistir da empreitada. Mas eles continuavam a pedalar. A cem quilómetros da meta, um homem fugiu do pelotão e prosseguiu sozinho até ao fim. Tinham-lhe dado uma bicicleta nova, porque a anterior andava empenada. Dizia-me ele no final, ‘podia ter sorte, podia não ter’ e encolhia os ombros, como se aquela fosse a banalidade mais simples do mundo”.
   “E pergunta-me você quem era este jovem tão corajoso, mas se eu lhe responder à pergunta, o nome não lhe vai dizer nada. Insiste? Quer saber? O corredor era do Sangalhos, chamava-se Joaquim Carrete e venceu a sexta etapa, mas não conseguiu chegar ao fim da volta. Aquele foi o seu maior feito no ciclismo e é assim com muita gente. Há um dia em que certa pessoa faz algo de extraordinário e depois passa anos a tentar repetir o que fez, mas parece que existe uma lei a impedi-lo. Nunca mais o consegue, por muito que se esforce, por muito que não desista. E assim aconteceu naquele caso. O homem venceu uma etapa na vida porque lhe tinham dado uma bicicleta nova”.
   “Sabe? Acho que toda a gente persegue um sonho e sem isso não haveria lanternas vermelhas, aqueles pobres desgraçados que se arrastam atrás do pelotão, por terem azar e demasiados furos ou por terem as bicicletas empenadas que se dão aos piores de cada equipa. Sem os medíocres não se percebe a excelência, mas nós, os repórteres, não gostamos de entrevistar o lanterna vermelha, dizemos que o público não se interessa por eles, que ninguém quer saber, que a história é escrita por vencedores”.
   “A última etapa da Volta de 1952 foi em Viana. Já lhe disse que venceu Fernando Moreira de Sá, um campeão. Eu era jovem e decidi contrariar essa nossa regra de não ligar ao último. Deu-me pena aquele esforço final e as gargalhadas que se ouviam no público, e o gesto que ele fez ao atravessar a meta, como se cumprisse um sonho. O homem chamava-se Simões Neto e disse uma frase que ainda hoje me faz pensar: ‘Assim como só há um vencedor, alguém tem de ser o último’. É preciso ter fibra especial para dizer coisas destas. Uma lição para a vida, que só agora, na velhice, compreendo totalmente: é como quem afirma que não faz mal, amigo, cheguei ao fim e não desisti, e se isso não lhe importa, pelo contrário, para mim é o mais importante”.
 

publicado por Luís Naves às 19:48 | link do post | comentar