Temas de grande literatura

Recomendo a leitura deste artigo de Michael Cunningham na revista New Yorker (em inglês), a propósito da polémica em torno do prémio Pulitzer para ficção deste ano, que não teve vencedor. O escritor explica os mecanismos da escolha, provavelmente numa tentativa de se justificar, mas sobretudo ficamos a perceber como pesam os gostos pessoais, a busca do mínimo denominador comuns e até os receios dos membros do júri de selecção, que leram a extraordinária quantidade de 300 livros para escolherem apenas três obras.
Parece inteligente a estrutura do prémio em duas fases, a primeira a seleccionar três obras e um júri final de 18 membros a analisar apenas esse lote de romances e colecções de contos. O processo parece transparente e ficamos a saber algo sobre a sua complexidade. Houve uma preferência pela temática americana, tendência confessada por grandes romances com visões amplas da sociedade. Esta última é uma questão apenas aflorada, mas o autor admite a certo ponto que a preferência pelo romance de género épico implica porventura perder-se o sentido da pequena observação significativa (surge o exemplo da pintura impressionista versus pintura clássica).


O artigo inclui uma lista de livros que não venceram o Pulitzer, mais ou menos parecida com a lista dos clássicos americanos do século XX. Os vencedores são estes. A leitura do artigo mostra como é falível um processo equilibrado de escolha de prémios literários. Na primeira fase, foram sacrificados livros que os membros do júri achavam óptimos; mesmo assim, foi concebida uma lista  de três obras de elevado mérito, pelo menos do ponto de vista do autor, para o segundo júri as recusar todas.
Julgo que Cunningham sublinha a dificuldade sentida por todos nós na compreensão da arte contemporânea. Na literatura, o que hoje os leitores percebem como genial foi no seu tempo quase inaceitável ou, pior ainda, totalmente ignorado. Por vezes, os livros que os críticos desvalorizaram ou atacaram reaparecem anos depois, reinterpretados por uma nova geração. Esses milagres são apesar de tudo raros, pois as grandes obras de arte são demasiado raras.
O processo de selecção tornou-se mais difícil, devido à forma como as artes evoluíram. A literatura contemporânea reflecte uma sociedade complexa e diversificada, também mais liberal, portanto aberta a discussões, paradoxalmente acelerada, logo sem tempo disponível para reflectir sobre os temas de maior fôlego. Daí que os romances contemporâneos (e não falo do número de páginas) sejam hoje curtos, pouco profundos, contrários à preocupação de Cunningham de descrever toda a sociedade em pinceladas fortes.
Os autores preocupam-se com pormenores que no passado teriam sido frívolos, como aliás fizeram os pintores na grande ruptura impressionista, ao tentarem captar a beleza do jogo de luz num jardim ao fim da tarde, a névoa invernal na estação ferroviária, reflexos num lago de nenúfares ou o campo de girassóis a sufocar ao sol violento do verão.

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publicado por Luís Naves às 15:16 | link do post | comentar