Teoria da neutralidade

Instalou-se na blogosfera um peculiar mito, segundo o qual há dois tipos de jornalismo, o bom, que se caracteriza por uma pureza lava mais branco, e o mau, da pérfida manipulação conspirativa. Neste post de Nuno Lobo explodem algumas ilusões e preconceitos sobre o meio jornalístico que estão ligados a este mito.
Não me vou alongar, nem serei exaustivo na minha crítica ao post. Há de imediato um problema: o que é o "jornalismo interpretativo", em oposição a outra coisa qualquer? Por definição, o jornalismo é uma interpretação do real, envolve sempre um ponto de vista. Não há notícias neutras, nem reportagens, nem crónicas, nem entrevistas. Qualquer jornalista que afirme o inverso já perdeu a neutralidade. Esta parece-me uma negação da inteligência, pois trata-se de entender o que nos rodeia.
Também são estranhas as frases do autor "a política não incumbe ao jornalista" ou os "relatos meramente objectivos". Tudo isto me parece ser uma ilusão. Na realidade, o jornalismo sempre esteve ligado à política activa. Jornalismo e política são gémeos siameses, em democracia ou ditadura.
Não vale a pena adiantar muitos exemplos, mas basta a leitura dos jornais antigos. O jornalismo tentava retratar a pulsação da sociedade e quando hoje lemos o que foi escrito há cem anos deparamos constantemente com o ponto de vista do autor da prosa. Pode ser um tom irónico, uma visão elitista, o apoio subtil ou até declarado, mas o acontecimento histórico está sempre contaminado pela visão pessoal do jornalista. Isto é uma constante, não tem excepções. O próprio ritmo da prosa pode traduzir a emoção do repórter.
No caso da democracia, ninguém elege os jornalistas, mas estes estão (tal como os políticos) num  ramo que depende da credibilidade, o que explica a circunstância de tantas carreiras serem efémeras. Ao contrário do que afirma Nuno Lobo, o escrutínio faz-se em cada momento.
Levada ao extremo, a tese do jornalismo bacteriologicamente puro pode levar à limitação dos direitos cívicos e ao empobrecimento extremo da matéria jornalística, pois isto não comporta mais do que frases com sujeito, predicado e complemento directo.
O autor do post até podia ter levantado um problema bem mais interessante: a política activa disfarçada de comentário político. Portugal é um caso único no mundo, onde os políticos se apropriaram do comentário sobre a política e acham isso normal. Mas raramente sabemos se aquilo que estamos a ouvir é uma opinião sincera ou se visa obter um determinado efeito.


O repórter deve tentar distanciar-se dos factos, mas a neutralidade, essa, só existe nos cemitérios. Quando ouço argumentos sobre a separação entre jornalismo e política, a necessidade de criar severos mecanismos de escrutínio e regulação, sorrio sempre. Convém ao poder, a qualquer poder, dispor de uma imprensa dócil. A suposta 'neutralidade' significa apenas domesticar o ponto de vista e a interpretação dos factos, não é mais do que excluir todas as hipóteses de interpretação, menos uma, aquela que nos interessa.
A relatividade e a física quântica apontam para a incerteza naquilo que consideramos realidade. E, de facto, não há duas pessoas que olhem para um acontecimento da mesma forma. Tal como acontece com as partículas muito pequenas, a simples acção de observar condiciona a experiência. Traduzido para gente, basta colocar uma câmara de televisão na cena para o comportamento das pessoas mudar.

Ou seja, tentando simplificar, não é possível retirar a emoção de uma actividade humana que consiste em descrever os acontecimentos humanos.

 

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publicado por Luís Naves às 19:55 | link do post | comentar