A fertilidade dos solos

Sempre gostei da elegância simples da ideia. O factor limitante é por definição a causa a impedir um qualquer crescimento. Aplica-se sobretudo à biologia, a populações, ecossistemas, etc. O conceito é intuitivo: se não houver água suficiente para abastecer mais de um milhão de pessoas, uma cidade terá aqui o factor limitante e não passará de um milhão de pessoas.
Estudei a ideia aplicada à fertilidade dos solos, onde é crucial a relativa abundância de fósforo, potássio e azoto, sem os quais as plantas não podem constituir a respectiva massa. A questão é um pouco mais complicada, há minerais secundários, como enxofre, cálcio, ferro ou magnésio, sendo necessária matéria orgânica, muita água, dióxido de carbono e sobretudo luz. Mas sem aqueles nutrientes em quantidades generosas, havendo ausência de apenas um deles, a colheita está ameaçada. A fertilização dos solos concentra-se, assim, na reposição dos minerais e, acima de tudo, na preocupação em identificar e eliminar o factor limitante de determinado solo.
Julgo que a ideia se aplica a muitas situações da nossa vida. Podemos ter tudo, saúde, amor, e faltar-nos o dinheiro. Penso que também serve de metáfora para o que somos, alguns de nós trabalhadores e honestos, mas sem ambição; outros, cultos e capazes, mas cheios de vaidade. Enfim, os nossos maiores defeitos são sempre o factor limitante do que poderíamos ser. E isto parece ser verdade no mundo que nos rodeia: uma economia capaz de crescer sempre, embora com pequenos soluços, foi transformada numa sociedade em crise, pelos efeitos perversos da ganância selvagem.

 

Gosto de aplicar esta ideia aos livros, tentando perceber as razões da fertilidade criativa. William Faulkner dizia que há três elementos principais na escrita: o poder de observação, a nitidez da memória e a força da imaginação. Nos grandes livros, há equilíbrio ou relativa abundância dos três elementos. O autor pode ser mais forte na sua capacidade de observar, ou na fantasia que coloca no texto, mas não se sente a ausência de nenhum dos três factores. Nas obras falhadas, falta sempre um dos três elementos, por o autor se basear em excesso na memória e não efabular, ou por ser demasiado descritivo ou, pelo contrário, por não reflectir sobre aquilo que observou.
Claro que, como no caso da agricultura, as questões artísticas são mais complicadas. Não bastam estes nutrientes. A fertilidade depende de outras coisas, como tempo e cultura, um estilo próprio e original, a coragem de experimentar, mas também da capacidade de criar unidade e fluxo, partindo de uma ideia forte.

O assunto parece quase trivial, mas da fertilidade dos solos dependeram todas as civilizações. E a nossa não é excepção. Aliás, houve colapsos devido a processos de erosão. Quando os solos perdem a camada superficial, extremamente fina, onde se encontram os nutrientes, a sua capacidade produtiva perde-se também. A redução da fertilidade implica fome, doença e conflito.
A fertilidade artística, hoje em nítida crise, também nos diz muito sobre as patologias da sociedade. Como explicar o que parece ser a degradação geral da arte nas duas últimas décadas? Julgo que o maior factor limitante está hoje na degradação da memória, que se tornou cada vez mais curta. Mas não é a única causa, pois a dispersão em que vivemos não nos deixa pensar. Esta crise tem sobretudo a ver com a voracidade do tempo, a urgência que sentimos em gastá-lo o mais depressa possível, como se o amanhã estivesse mais perto. A contracção temporal obriga-nos a pensar mais depressa e, de certa forma, degrada os nossos poderes de observação e infantiliza o que imaginamos. Sobretudo, faz-nos esquecer. 

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publicado por Luís Naves às 13:54 | link do post | comentar