O degelo de Abril

Fiquei desiludido por não encontrar Ermei Lismanki, como acontecia todos os três meses. Ele é um finlandês de cabelo branco e nariz proeminente, a rondar 60 anos: imagino como seria Cyrano de Bergerac idoso: em vez do falador insaciável, com gestos amplos para sublinhar argumentos e a espada fácil a trespassar quatro ou cinco patetas, em vez disso tudo, uma espécie de sábia lentidão, sendo que a única discrepância com o que imagino é a roupa moderna. Lismanki veste-se de forma negligente, mas é daquelas figuras que enchem qualquer sala, sem parecerem fazer esforço para encantar estranhos ou para criarem uma imagem que não corresponda a eles mesmos. Há naquele tipo de indivíduo uma autenticidade que hoje começa a faltar nas pessoas normais, preocupadas que estão em fazerem uma espécie de teatro da vida, onde vestem as roupas dos outros, representam a atitude dos outros e dizem as palavras dos outros.
   Antes de lhes falar do meu amigo, devo explicar que sou jornalista e que todos os três meses faço, para o meu jornal, a cobertura de cimeiras europeias, em Bruxelas. A sala de imprensa distribui-se por três pisos, naquilo que mais parece um bunker confuso, de corredores estreitos e labirínticas escadarias mal iluminadas. Centenas de jornalistas de muitos países empurram-se e acotovelam-se naquele lugar fechado e, durante dois dias, tentam perceber as decisões dos governantes, entre momentos de excitação colectiva, mas também de tédio, com esperas intermináveis que se consomem a olhar para o avanço do relógio (a boa distância, o jornal tem de fechar as páginas). Enfim, tudo isto estará longe do que se espera das organizações políticas influentes, mas asseguro-lhes que é inteiramente assim.

   Conheci Ermei Lismanki há um ano, numa destas cimeiras. Ele sentara-se na mesa ao lado da minha: instalou o portátil, sorriu para mim, fez um gesto polido com a cabeça, depois mergulhou numa escrita frenética, em língua que, pelo canto do olho, reconheci como sendo a finlandesa. No segundo dia, repetidos os gestos, ao vê-lo tão embrenhado, não resisti à mudez que se instalara entre nós (quando duas pessoas estão caladas, é sempre a mais fraca de ânimo quem fala primeiro). Sinal de fraqueza, talvez, não resisti à guerra fria do silêncio e travei o caudal da sua escrita. Estávamos ombro a ombro, apresentei-me, falando em inglês. Para minha surpresa, ele respondeu com enorme simpatia, interrompeu o que fazia, reclinou-se na cadeira e, depois de me olhar profundamente explicou-me a tarefa a que se entregara. (Tenho dificuldade em explicar o que é um olhar profundo, mas penso que cada um de nós o reconhece, ao sofrer a sua cirúrgica acção).
   - Enquanto espero, vou escrevendo por aqui umas histórias minhas -, disse Ermei Lismanski.
   - Ah! É escritor?-, perguntei, porventura reflectindo no tom de voz e na expressão desdenhosa o habitual desprezo que todos nós, jornalistas, sentimos pelos colegas de profissão que se armam em escritores.

Ermei riu-se, mas não negou; explicou-me que nunca publicara, que se divertia a escrever, aproveitava para descontrair e matar o tempo que tínhamos em excesso:
   - Estes meus exercícios de escrita são mais baratos do que o psiquiatra e menos perigosos do que o suicídio -, acrescentou, com uma gargalhada sincera.
   A seguir, mudou de conversa, interessou-se por mim, fez-me perguntas; Portugal seduzia-o, não apenas como país europeu, mas como ideia de país. Disse que os finlandeses tinham uma obsessão por Portugal: É um nosso oposto, explicou, o mar aberto obriga à contemplação do exterior. Nunca lá fui, mas tenho nostalgia. Usou mesmo esta curiosa expressão.
   Em resposta, eu disse qualquer coisa de circunstância. A partir dali, conversámos como se fôssemos velhos conhecidos. Depois, almoçámos na cantina, mas era apenas eu quem falava; e de tal maneira prossegui o monólogo sobre a minha personalidade, que me esqueci das horas. Era tarde quando cada um foi fazer o seu trabalho. E só nessa noite voltámos a conversar, já Lismanki tinha enviado o seu serviço para Helsínquia. Em vez de ir para o hotel, esperou por mim, ainda bebemos um copo num bar das redondezas. Ele fazia perguntas finas, mas sempre com a subtileza de quem coloca assuntos de conversação, e eu contava-lhe a história da minha vida. Separámo-nos às quatro da manhã, com fortes abraços de amizade, acho que já bastante tocados, sobretudo eu, que aguento mal o álcool e fico demasiado sentimental.


   Na cimeira seguinte, reencontrei Lismanki. Estava sentado junto de outros jornalistas finlandeses, mas eu disse-lhe que havia um lugar na mesa ao lado da minha e ele levantou-se e trocou de posto, agradecendo ter alguém com quem falar. Quando lhe perguntei o que se tinha passado no intervalo de três meses, Ermei ficou sério:
   - Escrevi sobre uma tragédia que presenciei e que podia ter sido evitada.
Dissera aquilo com uma tristeza que me impressionou. E, claro, não resisti a pedir-lhe que me narrasse o que acontecera. Lismanski contou-me que se cruzara com aquele casal por simples acaso e que os observara durante algum tempo. Disse que não conseguia explicar porque razão se interessara por eles; talvez notasse primeiro a rapariga, Leena, que era mais difícil de ignorar, de tal forma se tornava sensual, ao subir ao palco para cantar, com voz densa, aquelas canções doces, que faziam lembrar ao meu amigo as paisagens da infância.
   A pouco e pouco, o jornalista envolveu-me na sua história: Leena cantava num bar de Helsínquia e era uma rapariga melancólica (como imaginamos os verdadeiros finlandeses) e de poucas falas; Jarmo, o seu amante, tocava saxofone no grupo de acompanhantes; a música, para dançar, era uma mistura de jazz e balada.
   - Fui uma vez a esse cabaret com uma namorada que trabalha no meu jornal -, contou Ermei. - A minha namorada chamava-se Anna Puusaari; uma trintona serena e calada, muito insegura, demasiado nova para mim; ela agia como se eu fosse a sua derradeira oportunidade de encontrar alguém que a pudesse acompanhar no resto da sua existência nervosa. Enfim, só a acompanhei nessa noite, dancei com ela, mas observando por vezes a cantora, a tal Leena, mal adivinhando o que de horrível havia no seu futuro. A minha ligação não se manteve e passei a frequentar aquele cabaret sem saber bem porquê, talvez fascinado pelo ambiente decadente ou pela música que o grupo tocava todas as noites, sem dúvida pela cantora de pele morena e elegância suave, com o seu vestido de prata e longo decote. Uma noite, na pausa de descanso, ao vê-la com ar indiferente sentada no banco do bar, sentei-me a seu lado e puxei conversa. Não foi uma longa conversa, mas aconteceu algo de surpreendente, éramos como almas gémeas, em sintonia perfeita, mas não num plano sexual, nada disso, ela sentiu que podia falar com total sinceridade comigo, como vocês, os católicos, fazem com os padres, em confissão... É isso, nunca pensara assim, uma espécie de confissão. Combinámos um encontro no parque, ao fim da tarde do dia seguinte. Era Abril e começava o degelo...

 

Alguém interrompeu a história, houve gritos na sala de Imprensa. que fervilhava com novidades. E eu visualizava o passeio de Abril, aquele velho Cyrano, nariz vermelho e proeminente, acompanhando uma cantora de cabaret, casacos grossos, o cachecol, patinadores em linha, a água correndo, (pedaços de gelo, nas zonas menos expostas ao sol, ainda a derreterem) bandos de jovens, alguns patos no lago a grasnarem novidades. Decidimos ignorar a agitação na sala e ele continuou a sua narrativa:
   - Leena contou-me toda a sua vida -, prosseguiu Ermei, - os ciúmes de Jarmo, o saxofonista; que a atormentava, que lhe batia, que a dominava da forma mais infame; sim, lembrava-me do saxofonista, mas ele estava em palco a tocar músicas envolventes, nunca me passara pela cabeça que uma pessoa que toca música sensual pudesse manter paixões odiosas. Jarmo era fraco, despojado de sentimentos, indisposto com a vida, um falhanço de humanidade. Leena e eu encontrámo-nos várias vezes, sobretudo aos domingos, depois de sair do jornal, ao fim da tarde; era uma simples amizade; por vezes, só passeávamos pelo parque, meia hora, uma hora, sem dizermos nada um ao outro; quase sempre conversávamos; ou antes, eu permitia-lhe que falasse, o que a deixava num estado de alívio e de extrema alegria. Não queiras saber como era bela quando estava feliz! Voltei mais algumas vezes ao cabaret, para a ouvir cantar, mas depois fui perdendo a coragem, porque não conseguia ver aquele monstro ao lado dela, a mentir com a sua música. Um dia, Leena não apareceu a um dos nossos encontros; No dia seguinte, vi as notícias: Jarmo assassinou-a durante uma discussão. Foi à mesma hora em que eu a esperei no parque. Penso que ela lhe disse pela primeira vez que queria sair de casa e o saxofonista enlouqueceu. A polícia encontrou o corpo no dia seguinte. Reconheci o nome dela nos despachos das agências. Insisti em ser eu a escrever sobre aquele caso...
   - Mas, estavas envolvido...
   - Nunca ninguém soube.
Ermei sorriu para mim, como se tudo aquilo fosse óbvio. Achei que tivera uma atitude estranha, até irresponsável. Ao escrever sobre o crime e esconder a sua ligação à vítima, ultrapassara uma fronteira delicada.
   - O que aconteceu a Jarmo?”
   - Foi condenado a 20 anos, mas conseguiu enforcar-se na prisão!

 

Dessa vez, não tivemos tempo para elaborar mais a conversa. Na cimeira seguinte, passados três meses, estranhei que Lismanski não estivesse presente. Procurei-o, mas não perguntei por ele. Passaram mais três meses e, chegámos a esta última cimeira. Como disse no início, fiquei desiludido, ao não encontrar o meu amigo Ermei Lismanski.
Procurei os jornalistas finlandeses e perguntei o que lhe acontecera. Um deles encolheu os ombros e apontou para uma rapariga magrinha e de aspecto frágil. Aproximei-me, perguntei-lhe pelo Ermei. Só depois de a questionar reparei no nome dela, que tinha bem visível no cartão de Imprensa: Anna Puusaari.
   - O Ermei está internado -, disse-me ela, após longa hesitação. - Você deve ser o amigo português dele, o barão!
   - Não sou barão! -, exclamei, surpreendido.
   - Ele disse que você era uma espécie de aristocrata, mas agora compreendo que não passava de mais uma das suas fantasias.
   - O que aconteceu?
   Anna parecia insegura. Mexeu nervosamente nos óculos, como se ajustasse as lentes, depois decidiu-se a explicar-me alguma coisa:
   - Houve um terrível crime!
   - Eu sei desse crime passional, uma cantora de cabaret morta pelo amante, o saxofonista de jazz.
   - Ermei inventou a parte passional do crime. Na realidade, a rapariga foi assaltada e nem sequer era cantora, trabalhava como secretária no Ministério de Segurança Social. A polícia capturou um suspeito, um pobre diabo que a roubou para comprar droga. Ficou provado que tinha sido este o criminoso. A vítima era uma vizinha que ele via todos os dias e o facto de Ermei a conhecer tão bem desencadeou um processo mental devastador. Começou a imaginar um crime passional e que as notícias escritas sobre o tema faziam parte de uma conspiração. Ao fim de meses, entrou em total colapso e foi necessário interná-lo numa instituição psiquiátrica.
   - Mas ele contou-me que o namorado da rapariga, o saxofonista, a tinha morto por ciúmes.
   - Fantasia. Essa é uma outra história, que se mistura com esta, e que aconteceu nos anos 50. A mãe do Ermei era uma cantora de cabaret e foi assassinada pelo marido, que era o pai próprio do Ermei, um saxofonista. Esse crime passional aconteceu em 1955, tinha ele apenas seis anos. Acontece que a vizinha que morreu era parecida com a memória imaginada que Ermei tinha da sua mãe.
   - O pai dele matou a mãe... E o que aconteceu?
   - A criança foi educada pelos avós maternos...
   - O que aconteceu ao criminoso?
   - Foi condenado a 20 anos e enforcou-se na prisão.
Fiquei a pensar naquilo, sem saber se devia fazer mais perguntas. Depois, senti que devia saber o que acontecera ao meu amigo.
   - Ele vai ficar muito tempo nessa instituição psiquiátrica? -, perguntei.
   - É difícil saber, mas talvez uns seis meses...”
   - E está a ser bem tratado?
   - Claro! Sou a mulher dele, nunca o irei abandonar.

   Ao responder daquela forma, Anna Puusari pareceu ofendida e virou-me as costas.

 

Este conto velhinho merece uma versão totalmente nova, num contexto diferente, até com personagens diferentes. É claramente inspirado nos policiais nórdicos.

publicado por Luís Naves às 17:20 | link do post | comentar