Escolhas e História de arte

No início da década de 90, liguei o televisor de um quarto de hotel em Espanha. Não me lembro do ano exacto, mas os socialistas ainda estavam no poder e o PP preparava-se para ganhar eleições pela primeira vez. O desemprego andava nos 20%.
Nessa noite, vi um documentário sobre um pintor espanhol que na altura teria os seus 30 anos. Fiquei impressionado com a qualidade da obra. O pintor chamava-se Miquel Barceló e hoje é um dos grandes artistas mundiais.
A certo ponto, discutindo as influências, os entrevistadores perguntavam a Barceló as razões do seu interesse pelo neo-expressionismo alemão. E a resposta foi brilhante: "Cada pintor faz a sua própria História da Arte", disse Barceló. Interpreto a frase como o gosto desproporcionado por certos movimentos, em vez de outros, porventura mais importantes para os historiadores de arte.

 

Lembrei-me disto ao ver a lista do Expresso dos 50 livros de um cânone literário, que pode ser consultada no blogue de José Mário Silva, Bibliotecário de Babel, e deste texto de Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias, baseado parcialmente no primeiro. Li apenas 30 livros da lista do Expresso, menos de metade da segunda lista.
Além de Camões, é interessante verificar a ausência de A Peregrinação nas escolhas do Expresso. Escrito alguns anos antes de D. Quixote, este livro sempre foi subestimado, por o considerarem crónica de viagens e biografia. Mas como é possível que um viajante não consiga acertar em nomes geográficos? E, para biografia, falta-lhe a verosimilhança. Biografia escondida, talvez, mas nenhuma vida tem uma estrutura tão limpinha: pecado, expiação, redenção. E se fosse uma espécie de romance baseado em experiências vividas? Alguém deixaria fora da sua lista este livro?

 

O exemplo mostra a dificuldade em enumerar preferências. Li Debaixo do Vulcão num momento importante da minha vida, mas isso aconteceu com outros livros que não estão nesta lista e que, para mim, foram tão importantes como aquele, constituindo a meu ver omissões. Depois, há a necessidade de preencher quotas, incluir um único livro por autor, foi preciso não esquecer determinada época, mesmo omitindo testemunhos históricos. Não há nenhum livro sobre a Primeira Guerra, nenhum sobre a Segunda (ocorrem-me dois candidatos), só um livro sobre o Holocausto, nenhum sobre o Gulag. O critério de partida determina o resultado.
Os cânones de autores portugueses estão centrados nas literaturas de língua castelhana, francesa e inglesa. Os russos estão sub-representados e é pena a quase ausência da Europa Central.
Esta crónica não pretende evidentemente criticar escolhas alheias, muito menos de pessoas que sabem muito mais de literatura, mas julgo que a observação de Barceló é útil quando lemos listas de preferências. Cada um de nós é um somatório de gostos pessoais. As experiências estéticas são todas boas e todas insuficientes, pois uma vida inteira não chegará para nos apercebermos sequer de uma fracção do tesouro da criatividade humana acumulado durante séculos.
Isto é também muito evidente nas listas de filmes. Sigam o link e vejam as escolhas dos críticos e as dos realizadores. Vão talvez discordar e rebater.

Enfim, nenhuma destas listas seria a minha, pois cada espectador faz a sua própria história do cinema, que é uma arte recente. Podemos discordar e, por isso, estes exercícios têm tanta graça, ao mesmo tempo que mostram as nossas intermináveis lacunas culturais.

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publicado por Luís Naves às 17:17 | link do post | comentar