Rumo incerto

Naquele momento, observou através da janela a transformação das nuvens que deslizavam sobre o rio cor de cinza. Viu a sombra das pessoas que passavam, os rostos anónimos, as caras crispadas, os corpos prolongados no fim de tarde, sonâmbulos.
   A cidade cansada, de tantas vidas que ali se cruzavam, dos muitos sonhos e das existências dispersas. Cansada de tudo o que cada um desperdiçara das suas ambições. Cansada do conformismo e das ilusões que serviam de máscara. O cansaço de ver em demasia, à distância, através da vidraça suja pelo vento.
   O rio de gente não terminava. Havia destroços à deriva, poeira. A corrente era feita de fadiga apressada. As sombras, afugentadas pelo lusco-fusco tardio, espalhando-se em gestos dóceis. E, a certo ponto, irrompeu a luz na praça, a em vão se contrariava a noite, mas apenas com o efeito de aumentar os reflexos melancólicos no vidro.
   O senhor doutor quer outra dose?
   Aceitou em silêncio, com um único gesto da cabeça, olhando na direcção do empregado, como se o visse pela primeira vez. O empregado encheu de novo o copo que ele já esvaziara, foi generoso na porção, e colocou dentro ainda duas pedras de gelo, dizendo com falsa alegria que ele queria sempre duas pedras de gelo na bebida. Achou curioso que até os empregados de mesa se agarrassem a padrões inexistentes. Que estaria o empregado a ver? Um homem sentado a uma mesa a olhar para o tampo, ou a olhar para o copo ou para os transeuntes além da vidraça. E lá fora, no exterior, deambulavam sombras em busca de qualquer coisa indefinível, formando padrões que davam desordem ao mundo, circunstâncias banais, desejos, gestos, entoações, frases favoritas.
   Que veria aquele empregado, para além de um homem na sua solidão, embrulhado em problemas íntimos? O reflexo de alguém passado, as amargas desilusões secas na garganta. Seria apenas isso que ele via ou ainda menos? Como se cada homem fosse uma soma de incógnitas e de momentos falhados.
   E, agora, para onde iria? Ao pensar no vazio da sua casa teve um arrepio. A escuridão, o frio. Nenhum sorriso o esperava (os gatos não sorriem). Sim, o Gordo estaria à sua espera, feliz de o rever, mas era um gato meio maluco.
   O que pensam os animais irracionais?
   Quer mais alguma coisa, doutor?
   Não quero mais nada, João, apenas a conta…
   Que recebeu num pequeno prato. Pagou, com gorjeta generosa. Até compramos sorrisos!
   O empregado sorriu, desejou-lhe boa noite. Saiu do café triste e na rua juntou-se à multidão que deslizava. Decidiu não descer para o metropolitano e por isso caminhou até às ruas laterais, onde havia menos transeuntes. Estava uma noite fria e a cidade escondia-se nas suas torres de pedra, cada qual com o seu xadrez de luzes. E foi ao ficar mesmo sozinho que se sentiu pequeno e frágil, uma vida de rumo incerto.

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publicado por Luís Naves às 19:30 | link do post | comentar