A viagem (3)

(...)

Efigénia explicou que ali, naquele mesmo lugar, tivera longas conversas com o major, enquanto a luz do fim da tarde deslizava sobre os telhados de Lisboa.
   − O major adorava esta luz, − disse ela, abarcando com um gesto largo a paisagem que se avistava das traseiras daquele terceiro andar da rua da Escola Politécnica, a colina toda espraiada até ao azul intenso do rio.
   − E como era o major? − Perguntou Luciano.
Ela fez uma longa pausa, pareceu ganhar alento para acabar num gemido cansado e cheio de saudade.
   − Nunca lhe agradecerei o suficiente pelo que fez por mim, Luciano, enfim, por nós. − E só então o jornalista pensou em Ângela, a misteriosa enfermeira, que desaparecera mal tinham chegado à pensão. Fora algo estranho, subir aquelas escadarias onde, na véspera, ocorrera a tragédia. Luciano esperara encontrar gente comovida, agitada, ouvir comentários azedos, mas nada disso. Efigénia reentrou na casa como se fosse uma condessa a voltar ao seu castelo, cumprimentada com deferência por uma velha que parecia a proprietária do estabelecimento.
Nas conversas curtas que se seguiram deduziu que a pensão tinha dois andares: o mais espaçoso, onde se encontravam agora, para hóspedes burgueses, e o andar de cima para clientela mais ocasional, de trabalhadores do comércio e profissões modestas. Alguém lhe apontara o quarto do major, agora vago, e que era um dos mais amplos e limpos. Efigénia despediu-se dele e pediu-lhe que regressasse ao fim da tarde, pois queria primeiro descansar, refrescar-se, mas pretendia continuar a conversar, pois tinha-lhe já muita estima. E o jornalista esperou na rua, deambulou penosamente pelo bairro, comeu qualquer coisa rápida, mas sem sentir apetite, passou pela redacção, explicou que não havia novidades, e à hora que ela sugerira regressou à pensão.
Efigénia parecia uma princesa. Embora vivesse num quarto alugado, e isso era temporário, ela movia-se como se estivesse na sua casa. E, como que por magia, depois de terem colocado chá numa mesa, a criada e a proprietária desapareceram de repente, e ficaram os dois sozinhos, numa pequena sala confortável, que tinha uma espécie de marquise virada para o casario da cidade e cujas janelas abertas permitiam que soprasse uma brisa fresca.
   − Estivemos a arrumar as coisas do major e encontrei isto − mostrou-lhe uma medalha dourada e vermelha, mas Luciano nada percebia de medalhas militares, fez um gesto a anunciar a sua ignorância.
   − Era um herói, − acrescentou Efigénia. − Agora sei isso.
Devia apetecer-lhe desabafar com um ombro amigo. E foi o que fez: contou-lhe como conhecera ali o major, naquela pensão onde ambos viviam, numa etapa de percursos sinuosos. Efigénia, nesse ponto, explicou que era viúva. Nenhum dos dois tinha família e, a pouco e pouco, desenvolvera-se uma amizade sólida. O major tinha problemas de saúde, resultado das campanhas coloniais em que participara, e por isso surgira Ângela, que era uma enfermeira diplomada na Suíça. Efigénia reparou na expressão de Luciano e criticou-o suavemente, com o dedo espetado.
   − Não deve pensar mal, meu amigo. É uma profissão respeitadíssima na Europa. Só em Portugal é que as pessoas reagem dessa maneira. Este é um país incivilizado e os hospitais são pocilgas.
Enfim, tendo em conta os problemas de saúde do major, tinham decidido ir os três de férias, por duas semanas, para Sintra:
   − Uma casinha linda. Foi o nosso sonho durante aquelas semanas em que preparámos a expedição.
Luciano deve ter feito mais uma expressão de espanto. Num turbilhão de pensamentos, por um instante que não conseguiu disfarçar, pareceu-lhe demasiado picante uma senhora tão distinta passar duas semanas com um cavalheiro na mesma casa, enfim, não parecia próprio. Foi questão de fracções de segundos e logo lhe ocorreu uma explicação plausível, certamente iam para uma casa de família (dela, era forçoso) e havia outras pessoas envolvidas.
Efigénia riu-se, mesmo sem ouvir a objecção. Era como se tivesse entendido cada pensamento. E a sorrir era linda: uns dentes de porcelana, lábios perfeitos, doces, o olhar arguto, que faiscava:
   − O major estava doente. Tinha a sua enfermeira. Era tudo inocente, bem vê, perfeitamente inocente, pois não é assim que vivemos?
Aquela frase foi um alívio, mas ele ia insistir, perguntar a quem pertencia a casa, quem mais estaria nessas férias na serra, planeou uma forma de não parecer demasiado curioso e ainda pensava numa abordagem quando ela mudou habilmente de assunto, e só regressou à história um pouco mais à frente, quando a cidade já ganhava tons de azul e cinzento e a luz desaparecia no lado do mar. Foi então que Dona Efigénia começou a narrar o que acontecera naquela terrível viagem para Sintra e com os horríveis carbonários.

 

(continua)

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publicado por Luís Naves às 19:44 | link do post | comentar