Do outro lado da linha

Aquele número de telefone agora era meu, mas pertencera a outra pessoa. Descobri isso quando alguém me telefonou a querer falar com uma tal dona Otília, que eu não conhecia de lado algum. Quando expliquei que era engano, a pessoa do outro lado reagiu com espanto. Ao segundo telefonema, percebi que a culpa era da empresa operadora. O número fora reciclado.
   Devia ter tratado logo do assunto, mas confesso que achei graça e depois já passara a oportunidade para obter um número diferente. Às tantas, não era prático mudar, tinha ainda a chatice de perder umas horas a explicar que recebia chamadas para a anterior proprietária e, portanto, queria um número original, que não tivesse cliente anterior. A meu ver, pagava como novo algo em segunda mão. Tratava-se de um mero número de telefone, mas podia ser um par de sapatos: sempre que o utilizava, pairava aquela sensação amarga de que já alguém o calçara antes. Mesmo assim, nada fiz.
   Não sendo inteiramente racional, a ideia perturbava, mas o tempo foi passando e diluiu-se o choque inicial de saber que o número do meu telefone novo já pertencera a outra pessoa. Depois, descobri que tinha um prazer especial em receber as chamadas dirigidas à dona Otília, mas acima de tudo dava gozo ler as mensagens de texto que ela devia receber, algumas indecifráveis, outras crípticas, todas vagamente incompletas, omissas de informação e que me faziam pensar seriamente nas conjecturas sobre o aspecto daquela pessoa desconhecida. A situação não deixava, apesar de tudo, de ser um pouco irritante. Por vezes, atendia a chamada e alguém berrava do outro lado:
   “Queria falar com a dona Otília”.
   “É engano. Este número já não pertence à dona Otília”.
   Do outro lado da linha, havia sempre resistência a uma ideia tão evidente:
   “Está a brincar comigo”.
   “Não estou a brincar com ninguém. É engano”.
   “Mas a dona Otília deu-me este número”.

  

Geralmente, desligava com brutalidade. Não sem que do outro lado insistissem; julgavam tratar-se de uma piada de mau gosto.
   Houve diversas variações do mesmo tema. ‘Este não é o telefone da dona Otília’, seguindo-se a insistência, ‘claro que é’ ou ‘mas ela deu-me este número’, a incredulidade a manter-se alguns segundos, no final a desistência irritada, como se fosse culpa minha que a companhia de telefones reciclasse o números de cliente, quase apostava, sobretudo dos caloteiros. Pois, que pagassem as suas contas, para não terem dissabores.
   Os telefonemas errados foram rareando, substituídos por mensagens que não tinham resposta possível. Os textos mais frequentes eram do género, ‘estou a chegar, dona Otília’, e logo me parecia que, ao ler estas frases sem contexto, me tornava cúmplice na criação de algum mal-entendido. Por vezes, recebia uma informação solta, que não me permitia identificar logo o remetente, sempre com alguma banalidade inscrita. Em outras ocasiões, apenas farrapos de uma história que era impossível deslindar. Que idade teria dona Otília? No fundo, nada sabia dela e limitava-me a imaginar uma matrona idosa e pacata, com filhos e família extensa, com o nulo interesse de qualquer anónimo.
   Cheguei a pensar na possibilidade de responder às mensagens. E fiz isso algumas vezes. Duas ou três vezes, juro que não foi mais do que isso. Recebi uma pergunta, ‘para onde vai, dona Otília?’ e tive um ataque de maldade e respondi que ‘ia para o céu’, o que produziu um profundo silêncio do outro lado. Em certa ocasião, ao ler um lacónico ‘onde estás?’, respondi de imediato, meio zangado com aquilo: ‘Que te importa?’
   Julgo que foi só isso, mas depois arrependia-me: eram palavras lançadas a uma lagoa tranquila ou talvez a um rio furioso. Não havia maneira de saber.
   Um dia, chegou uma mensagem diferente. A princípio, julguei que me era dirigida, mas logo percebi que o número de origem já aparecera antes num texto que identificava dona Otília. Deduzi que a mensagem fora enviada por alguém que não se identificava e que presumi ser um homem. No fundo, tratava-se de um aviso carregado de insinuações e numa espécie de código: “Ele sabe, tenha cuidado”. Era apenas isto. Quem sabia o quê não me era permitido avaliar. E que espécie de cuidado deveria ter a destinatária da mensagem? Aquilo envolvia negócios, porventura, um caso amoroso. Ou talvez uma reacção às minhas respostas anteriores. Aquelas palavras sugeriam que dona Otília seria muito mais do que uma simples dona-de-casa sem história. E quem era o ‘ele’, não o sujeito que escrevera as palavras, mas essa outra personagem enigmática que ameaçava a antiga proprietária do meu número de telefone? Seria o marido, o amante, o sócio enganado em alguma falcatrua?
   Durante semanas, aquelas palavras soaram na minha cabeça. O tom de ameaça alarmara-me. E, pior, sabia que dona Otília não recebera aquele aviso e que o conteúdo podia ser crucial para ela. Pensei loucamente que devia ser possível avisar aquela mulher, de quem sabia apenas o primeiro nome, ou seja, quase nada. Antes de apagar a mensagem, anotei o número e, um dia, sem reflectir, sem pensar nas possíveis consequências do que fazia, entrei numa cabina telefónica e disquei a mesma sequência de algarismos:
   Do outro lado da linha, ouvi uma voz de mulher.
   “Quem fala?”
   Não estava à espera de ouvir aquela voz, fiquei meio assustado e perguntei:
   “A D. Otília está?”
   Não preparara um plano, foi o meu erro, por isso só me lembrei de dizer aquele disparate. Se dali fora enviada uma mensagem de aviso, então dona Otília não poderia atender, era mesmo a última pessoa a poder receber ali o meu telefonema anónimo. Fizera uma pergunta estúpida, era tudo.
   Houve um silêncio do outro lado, a pausa prolongou-se, como se a interlocutora, antes de desligar, estivesse a ponderar que tipo de armadilha enfrentava. A princípio, só ouvi a respiração dela. Então, de súbito, rebentou o uivo triste da interrupção da chamada. Parecia o lamento de um navio a entrar no nevoeiro. O som estridente prolongou-se por alguns segundos, insensato e vazio. Depois, também eu pousei o auscultador.
   Avisar dona Otília não iria ser fácil. Pensei em recorrer à polícia, mas era absurdo. O que iam dizer? Tratava-se de um mero assunto doméstico, sem indício de crime. Não tinham nada a ver com a questão. Aliás, poderiam acrescentar que eu próprio não tinha nada que me meter num assunto doméstico. Esse dizia respeito a uma pessoa que nem conhecia. Era magra ou gorda? Era nova ou velha? Que sabia eu dela? Qual era o apelido? Sim, começava por aí, há muitas Otílias.
   E, no entanto, aquelas palavras martelavam-me a cabeça, ‘Ele sabe, tenha cuidado’. Sabe o quê? Quem sabe? Até que ponto devia ter cuidado? Seria ameaça de morte ou uma frase feita?
   Dei por mim, nesses dias, a ler as páginas de crimes nos jornais. Em cada edição, havia duas ou três tragédias de sangue e procurava os nomes. Só descansava quando nenhuma das vítimas se chamava Otília. Passei assim as semanas seguintes, numa aflição tépida.
   Um dia, em página inteira do Correio da Manhã, deparei com a notícia de um crime num subúrbio da capital, em que a vítima, cruelmente assassinada pelo marido, se chamava Otília Silva. O meu coração deu um salto e quase perdi a respiração. Levei tempo a recuperar. Os pormenores eram macabros e li a história com um peso na alma, cada vez mais indisposto. Reli várias vezes, para entender cada palavra. O jornal trazia a fotografia da morta, que era casada e tinha 43 anos, numa imagem mal focada mas capaz de transmitir o essencial das suas feições. Dona Otília era bonita, adivinhava-se um espírito independente e a personalidade forte. Não havia muitas dúvidas sobre o que acontecera: o marido julgara estar a ser enganado e matara com requintes de malvadez. O jornal tinha o cuidado de o tratar por suspeito, mas eu sabia que ele matara brutalmente a minha amiga.
   Nessa noite, não preguei olho. Podia ter evitado a tragédia e a culpa assentou como uma pedra num rio. Por vezes, lembrava-me das respostas que dera às mensagens que não eram para mim. E se tivesse atiçado a fogueira do ciúme? Não me perdoava pela estupidez de interferir. Visualizava cada momento do crime: o marido planeara cuidadosamente, torturara a sua vítima, que no passado submetera a sevícias regulares, à frente dos próprios filhos. Sim, Otília deixava dois filhos adolescentes, agora órfãos, mas que durante anos tinham testemunhado a violência.    
   Agora, tinha uma cara que correspondia à dona Otília que usara o meu número de telefone. A fotografia tinha muito grão e não me transmitia o tom da sua voz, a intensidade dos gestos, a cor dos olhos. Mas quase a sentia fisicamente e tudo me pareceu demasiado triste, o desperdício, os erros do destino, a minha colaboração no crime.
Fui preenchendo as lacunas. Otília tinha certamente um amante e este enviara-lhe o aviso que a poderia ter salvo. Esse aliado procedera por erro, enviando o texto para o número antigo dela, mas que entretanto se tornara o meu.    Sem o equívoco, não existiria tragédia. A ideia suavizou a minha consciência. O amante era muito mais culpado. Eu limitara-me a fazer de Pôncio Pilatos, lavando as mãos, encolhendo os ombros. Se querem matar este bom ser humano, quem sou eu para vos impedir? Assim pensaras, sem coragem para enfrentar a realidade. Se tivesse denunciado uma mensagem que nem sequer me era dirigida, iria ser ignorado, mas teria sido bem melhor do que permanecer quieto.
   Cheguei a ponderar um plano para ajudar a família de Otília Silva, a mulher assassinada que antes tivera o meu número de telefone e que, de alguma forma, eu deixara morrer. Deveria procurar os órfãos, talvez entregues a familiares. Mas a ideia dissipou-se lentamente. Enfim, o tempo foi passando. Mas tive a minha dose de insónias.
   Até que recebi uma chamada:
   “Quem fala?”
   Odeio que quem me telefone se imponha desta forma.
   “Eu é que pergunto. Quem fala?”
   “A dona Otília está?”
   Fiquei petrificado. Era a voz de um homem. O amante, porventura. Gelei da cabeça aos pés, ao pensar na hipótese absurda de ser o marido, procurando o cúmplice do crime.
   “A dona Otília morreu no mês passado”, respondi.
   Do outro lado, houve um sussurro que transmitia surpresa:
   “Isso não é possível, ainda ontem estive com ela. Quem fala? Que brincadeira é esta?”
   “Está viva?”
   “Claro que está viva! Quem fala?”
   Vieram-me à cabeça ideias tontas. Nestas ocasiões, quando não tinha explicação, um tio meu dizia: 'o existe nunca é impossível'. Fiquei estupefacto, de repente libertado da culpa. Senti um turbilhão, mistura de alívio e alegria, mas também de vaga vergonha. Se dona Otília estava viva, então a morta do jornal era outra, não era a mesma mulher que de novo enchia a minha solidão. Pensei tudo isto em segundos, a conter a ansiedade. Do outro lado, estalavam protestos:
   “Quem fala? Onde está a dona Otília? Que brincadeira é esta?”
   Tive de inventar uma desculpa, não sei se o homem acreditou, mas disse que pegara no telefone sem querer, que alguém o perdera, mas ia entregar à polícia, não era coisa de alarme.
   “Este não é o meu telefone, meu caro senhor. Isto é um mal-entendido”, balbuciei, pouco convincente.
   Antes de desligar, o outro limitou-se a insultar-me, mas eu recebera a melhor notícia possível. Não existia ameaça, nem morta; não havia órfãos, nem ciúmes; as minhas mensagens não tinham reforçado as labaredas do crime.
Dormi sem remorsos durante as duas semanas seguintes, satisfeito por ter deslindado o equívoco. Estava enfim livre de uma responsabilidade involuntária.
   Vivi com certa tranquilidade até receber uma nova mensagem, há três dias. Dizia simplesmente: ‘Muito cuidado, dona Otília, ele sabe’.
 

 


 
 

publicado por Luís Naves às 18:05 | link do post | comentar