A Viagem (4)

(...)

II

Antes de sair da pensão, o major José das Neves já estava muito enervado. O atraso de dez minutos no fiacre que tinha combinado na véspera quase lhe provocou uma fúria, mas teve de se conter, para que Dona Efigénia não percebesse a sua inquietação. A irritação crescia-lhe no íntimo, mas manteve-se quase impávido (não podia ver-se ao espelho, mas corara profundamente). Iam atrasar para o comboio e, depois, haveria uma sequência catastrófica de eventos que comprometeriam os planos. A história da sua vida, afinal, um constante chegar atrasado.
Fizera 50 anos e sentia pesar-lhe no corpo pelo menos uma tonelada. E agora, que chegara atrasado ao amor, não aparecia o maldito fiacre e cairia no ridículo. Ela iria rir-se, perderia aquela doce expressão que o cativara numa rede de encantos, e diria, em tom cruel, que nem para preparar umas férias ele servia.
Levara para baixo duas malas, ajoujado como um sipaio. A sua e uma de Dona Efigénia. Que diabo, cansara-se, e o senhor Antunes, empregado da pensão, só levara a segunda mala da senhora. Sendo velho, compreendia-se, mas era inadmissível aquele serviço, o cliente a fazer de machimbeiro. Esticou o colete, viu as horas, resmungou qualquer coisa e amaldiçoou os cocheiros de Lisboa e o maldito calor que lhe comprimia as têmporas. Os pensamentos divagavam e sentiu que Dona Efigénia se preparava para fazer a pergunta fatal, onde estava o transporte, quando este apareceu ao fundo da rua, em alta velocidade. Doze minutos de atraso, contou o major, uma piolheira de país incapaz de cumprir um horário.
Ainda pensou em malhar no cocheiro, mas pensou melhor e conteve-se. Dona Efigénia ia perceber o atraso e seria um ponto a seu desfavor. E ordenou que se fustigassem os cavalos na direcção da estação do Rossio, simulou uma boa disposição que não tinha, calculando por baixo a gorjeta, ou antes, decidindo que não a daria. Mas chegaram num instante, por portas e travessas, e ele reconciliara-se com o mundo, tal era a felicidade da amiga, sentada a seu lado e inebriada com o vento, com a cidade, com a luz esplendorosa da manhã. Que magnífica ideia ela tivera, pensou. Uma casa em Sintra durante duas semanas, e apenas por 1500 réis. Nem hesitara, pagara de imediato. Vamos de férias, dissera, como se anunciasse uma vitória. E ela bateu as palmas, mais parecendo uma criança a receber chocolates.
Efigénia trouxera um vestido de verão, muito leve. Observou-a. Tão singela, tão pura. Com um dedo estava a enrolar o cabelo cor de azeitona negra e era um gesto imaculado, que acompanhava o sorriso de quem tinha todo o tempo à sua disposição. Mas ele olhou para o relógio e faltavam apenas 15 minutos para o comboio sair. Entraram na estação em grande azáfama, os bagageiros oferecendo os préstimos. Deu ao cocheiro uma gorjeta apreciável e, numa onda de pânico, olhou em volta, à procura de Ângela Maria, que Efigénia insistira em trazer para as férias.
   − É a sua enfermeira, meu caro amigo. Não deve prescindir dela. Será uma excelente companhia.
Impossível insistir em que Ângela não viesse, ou iria parecer muito ousado da sua parte. Efigénia era viúva, ele nunca casara, haveria maledicência, enfim, não parecia apropriado passarem ambos sozinhos quinze dias na mesma casa, embora fosse o que acontecia na pensão; muito complicado de explicar; na pensão havia testemunhas de que não acontecera nada entre eles; enfim, acontecera aquele beijo larapiado, ao final da tarde, e que esfolara a sua alma, no dia em que tinham decidido passar férias em Sintra; mas ninguém os vira, por isso não contava (rejeitava a ideia, começara a falar sozinho); não contava, não senhor, fora tudo inocente.
E decidiram que Ângela iria também de férias. E onde estava agora a enfermeira? Havia apitos na estação, vozearia, fumos e o espalhafato das máquinas (nas fornalhas resfolegava um regimento de cavalaria). Na bilheteira, pediu os bilhetes e o empregado fez uma pergunta impertinente, para que horário queria, qualquer coisa assim, e foi ríspido na resposta, sem reparar chamou besta à criatura, voltou a pedir três bilhetes de primeira para Sintra e o funcionário amainou e até lhe apontou o comboio, aquele ali, no cais número um.
E com alívio viu Ângela Maria, esplêndida, que corria no átrio (nunca tinha reparado no seu peito tão farto), e lá foram os três para o cais número um, para a carruagem de primeira, seguidos por três melancólicos bagageiros em uniformes cinzentos, um pequeno e submisso exército de cafres.
Sentaram-se confortavelmente, mesmo a tempo, na carruagem vazia. Faltava um minuto, depois 30 segundos. Ouviu-se o apito estridente da locomotiva, grande como um zambuco, e o major antecipou com prazer os espasmos do arranque. Mas não houve movimento. Reparou então que o comboio do cais número três começara a avançar vagarosamente e entrara no túnel, num tropel alucinado, largando grandes bolas de fumo que escureciam tudo à volta.

 

(continua)

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publicado por Luís Naves às 17:36 | link do post | comentar