A viagem (5)

O comboio ficara parado na estação do Rossio e o major Neves, que sentira uma pequena pontada de dor no peito, sorriu com tristeza para as duas amigas, que continuavam a tagarelar alegremente, alheias à catástrofe que os rodeava. Muito pálido, estranhando a ausência de passageiros, levantou-se discretamente, pediu licença, e saiu à procura de um ferroviário que pudesse esclarecer o enigma. Encontrou um homem com ar de responsável pelas operações, que deambulava pelo cais, em uniforme; saiu da carruagem (por um momento, ocorreu-lhe que o comboio poderia começar a andar naquele exacto instante e não se afastou). Nem se apercebeu do tom impertinente e autoritário que usou com o responsável:
   − Ò faxavor, a composição está atrasada. No horário dizia 10 e 30. É inadmissível, este serviço africano. Paguei bilhete e não foi barato.
   − Este é o comboio das 10 e 40. Faça favor de embarcar. E se pagou bilhete, já o veremos.
O outro respondera com ar de quem lhe dava pouca relevância e o major sentiu-se vexado com a insinuação de desonestidade. Estava tão pálido, que ao corar de forma abrupta quase se sentiu mal. Mas lá subiu, com dificuldade, e sentou-se junto às duas amigas, ainda alheias ao drama, e que conversavam, belamente iluminadas pela luminosidade sombria da magnífica estação.
O major não descansou enquanto o maldito comboio não saiu, também ele vagaroso, na direcção do túnel. Começara entretanto a aperceber-se melhor dos detalhes que o rodeavam, o veludo elegante dos assentos na carruagem, num vermelho cor de vinho que fazia contraste perfeito com o cabelo louro da enfermeira Ângela Maria. E pensou, numa espécie de susto, que nunca a vira assim vestida: ela trouxera, naquela manhã, um decote mais aberto que deixava adivinhar o esplendoroso peito, muito branco e largo. Ângela usara sempre vestidos cobertos até ao pescoço, muito pudicos, e era espantosa aquela metamorfose, afinal uma alteração tão insignificante que mudara completamente a percepção da pessoa. De súbito, o major foi atacado por uma onda horrível de calor, cuja única solução seria abrir a gravata e o colarinho da camisa, libertar-se do colete e despir o casaco, que era tudo o que não podia fazer. Sentiu-se oprimido pela própria roupa, que lhe picava a pele e fazia ferver o sangue.
Neste ponto surgiu o ferroviário, que era afinal o cobrador do comboio e que pediu os bilhetes às senhoras, muito amável, com um sorriso amplo, descobrindo a cabeça, erguendo o chapéu redondo com um gesto distinto. E o major reparou que o funcionário lhe pedira também a ele o bilhete, mas em maus modos.
O major tirou do bolso os três bilhetes, entregou-os, e o biltre ficou longo tempo a observá-los, como se houvesse uma irregularidade. Depois, num tom de voz policial, disse:
   − Então, compras três bilhetes de segunda classe e ocupas a carruagem de primeira?

 

(continua)

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publicado por Luís Naves às 11:28 | link do post | comentar