O Patriota (capítulo I, segunda parte)

Continuamos a publicar a novela O Patriota, do escritor francês de ficção científica Raoul Sevan.

O texto foi condensado a um terço do original, segundo o método Reader's Digest.

 

(...)

Que mais querem? Severn pensou na palavra liberdade, mas conseguiu dominar a sua irritação. Ficou silencioso, mas sentiu um arrepio de pânico, como se Gavain percebesse tudo aquilo que ele pensava.
   Os mestres tinham chegado à Terra com palavras de paz e logo aboliram as democracias, embora permitissem a formação de pequenas entidades políticas que se reclamavam de grande legitimidade, como era o caso da República de Atlantic City. E sufocaram todas as tentativas de resistência militar dos humanos. No momento crucial, quando o confronto parecia iminente, as armas não dispararam, as frotas revelaram-se inúteis, paradas na água, e os aviões caíram do céu. Quem tentou lutar ficou sem energia, sem máquinas e sem saída, senão a rendição.
   “Dependemos dos mestres para quase tudo. Como é que disse? Como se fôssemos crianças grandes. E, no entanto, faria mais sentido, pelo menos sentido económico, se nos deixassem crescer um pouco e ter alguma iniciativa”.
   “A seu tempo, senador, cada coisa a seu tempo”.
   A frase ambígua não era de concordância ou negação; servia para acabar a conversa. A república podia ter a sua semi-independência, desde que não houvesse eleições; podia até traficar na droga a que chamavam ‘VOGA’, que dava enormes lucros a toda a gente; mas teria de viver sem ambições e obedecer aos poucos pedidos que o conselho fizesse. Essas instruções tinham sempre de ser ratificadas: as vacinações regulares e a educação das crianças, sobretudo, exigiam o total apoio do governo da república e de todos os governos (seis, no total) que se mantinham em territórios dos outrora Estados Unidos. Numa ocasião, Oklahoma recusara uma ordem do conselho, sobre um assunto menor, e o resultado fora imediato: ocupação e extinção das instituições, fim de conversa. Foram fuzilados o presidente, oito membros do governo e 32 senadores, dois terços do senado local.

 

Talvez para amenizar as palavras agrestes que não tinham sido proferidas, Gavain ordenou ao empregado que chamasse miss Ruby Rose à sua mesa. E, de facto, quando ela se juntou aos dois, já não era possível falar de teoria política. Vista de perto, Ruby era ainda mais divina.
   “Gostei especialmente da sua última canção, miss Rose”, disse Gavain.
   “Não sabia que apreciavam a nossa música”, respondeu Ruby, sem malícia, com genuíno encanto, mas mencionando obliquamente a lenda que atribuía aos mestres alta insensibilidade em relação à cultura humana.
   “Os terrestres desconhecem muitas das nossas características. Que podemos gostar da vossa música, por exemplo, como aliás apreciamos tudo aquilo que é complexo. Não somos bárbaros, sabe?”
   Ela sorriu, acenou com a cabeça, como se concordasse. Depois, falaram de outras banalidades, sobre canções sentimentais e recordações da infância, e Gavain quis saber o que cada um dos dois terrestres se lembrava dos tempos das grandes perturbações, a guerra civil mundial anterior aos mestres. A cantora disse que tinha apenas quatro anos quando o conflito começara e não se lembrava bem desses anos terríveis. Por instantes, Severn tinha pesadas memórias dos anos amargos, mas falou pouco sobre isso. A conversa de salão prolongou-se por dez minutos; depois, com aprumo, o mestre levantou-se e despediu-se, saindo do cabaré, acompanhado pela escolta.


   Severn e Ruby ficaram sozinhos na mesa. Ela podia ter inventado uma desculpa, podia ter regressado ao palco, mas ficou ali sentada. De propósito.
   Ele queria dizer-lhe que era a mulher mais bela que já vira na sua vida, que ocorrera um milagre, o facto de Ruby ter aparecido ali, só para o encontrar, mas foi incapaz de formular os rodeios habituais. Só conseguiu ser brutal e, por uma vez na vida, absolutamente honesto:
   “Esta noite, quero ficar consigo”.
   Ruby Rose limitou-se a olhar para o senador Severn com uma expressão enigmática. A resposta silenciosa não foi sim nem foi não.

 

Fim do primeiro capítulo

(continua)

publicado por Luís Naves às 12:37 | link do post | comentar