Primeira memória

A memória mais antiga é a de uma casa, de um corredor; há luz lateral, das janelas à minha esquerda e o aparador, daqueles móveis velhos cheios de objectos expostos, mas imprecisos na forma. Esta memória não tem nada de especial. Ao fundo do corredor há um quarto e neste quarto de mansarda existe a janela, das que estão no tecto e se abrem para fora, ou seja, para cima, e dá para passar para o telhado.
Lembro-me de estar no telhado e lá em baixo era longe. Um sol esplendoroso. O meu irmão está em pé, sobre as telhas, mesmo à beira do abismo. Não me recordo se estou muito perto ou muito longe do fim do telhado, mas devo ter passado para o exterior da janela, certamente com sensação de perigo, ou não teria qualquer recordação do acontecimento.
A memória deve ser falsa, pois os meus irmãos mais velhos garantem-me que nunca saí para o telhado. Que eles, sim, o fizeram, até à minha avó os descobrir e, com uma incrível calma, sem entrar em pânico, os chamar para a segurança. A mansarda ficava num quarto andar, mas eu não cheguei a ir para o telhado, embora me lembre de passear ali, de pé, caminhando sobre as telhas, pois já devia caminhar nesta altura. Em que ano aconteceu? Digamos que foi talvez 1965, mas nunca andei sobre as telhas, nunca estive naquele telhado da mansarda de quarto andar, nem vi nada de especial, excepto o sol brilhante e quente. Lembro-me de ouvir falar, pois o episódio aconteceu mesmo, os meus irmãos mais velhos estiveram naquele telhado e podiam ter caído do quarto andar e, ao assistir a tudo (mas dentro do quarto) fiquei com memória do incidente como se também eu lá estivesse.
Foi o que me ficou do ano de 1965, ou talvez de 1964, algo que nunca aconteceu, andar sobre o telhado, de resto não me recordo de como as pessoas vestiam, de como eram, o que diziam, o que faziam. Como eram os carros e os gelados, o regime e as televisões, os jornais e os cafés. E as crianças ou as cidades.
Na minha primeira memória, falsa como ela é, recordo o dia em que invejei os pássaros, porque podiam voar para além da plataforma do telhado e ver o mundo lá do alto, sem esforço algum. De certa forma, na minha primeira memória, falsa como ela é, fui um pássaro e as pessoas lá em baixo eram minúsculas, em vez de serem grandes.

publicado por Luís Naves às 23:01 | link do post | comentar