Metafísica de algibeira

Na história universal da filha-de-putice há mais episódios do que personagens, mas as personagens são todas originais e bem imaginadas.
Já o amor é igual em todo o lado e bastante monótono.
Há quem pense que a humanidade tem um problema de construção ou talvez de concepção e desenvolvimento, enfim, no mínimo uma avaria séria. Terá sido da qualidade do material utilizado no fabrico? Havia defeitos? Andaram a poupar, a queimar etapas? Foi falta de financiamento e os pormenores finais não foram bem tratados? Excesso de pressa nas entregas devido à impaciência do expedidor? Devia ter escrito Expedidor com caixa alta?
Se havia todo o tempo do mundo, para quê o desleixo?
Também já li a teoria de que os seres humanos possuem cérebros demasiado grandes, sendo o cérebro um órgão desnecessário, à semelhança da cauda do pavão, embora se possa dizer que há mais pavões entre os homens do que homens capazes de usar os cérebros. Será que os deuses ponderaram outrora colocar uma cauda de pavão nos homens e cérebros desenvolvidos no pavão, tendo havido uma lamentável troca de última hora, fruto de excesso de pressa em povoar o jardim do éden? E foi por isso que ficámos parcialmente inteligentes, enquanto os pavões ganharam aquelas caudas ridículas?
Desculpem lá estas inquietações metafísicas, mas também já li a teoria de que a humanidade está a ficar mais bondosa, conclusão a que se chega facilmente se pensarmos um pouco nela, pois o amor tem vantagens evolutivas evidentes, enquanto ninguém deseja interagir sexualmente com um autêntico filho-da-puta. Já sei que estão a pensar em mil excepções e também a mim me ocorrem algumas…
Tentemos reformular a teoria. Ora, a filha-de-putice está em vias de extinção porque sabemos que os filhos-da-puta não têm sentido de humor e as nossas parceiras dão importância a quem saiba contar anedotas, pelo que eles tendem a não se reproduzir.
O pior é se isto não é genético, mas está antes ligado a um órgão defeituoso, o fígado, por exemplo, até se diz de uma pessoa má que tem maus fígados. Ou a próstata, que dizem não servir para nada, o que é suspeito.
Ou talvez aquela ideia mais complexa a que chamamos amor seja uma incómoda cauda de pavão. Isso pode explicar os problemas colocados nesta pequena análise do microcosmos que é o ser humano. Assim, o autêntico defeito deve estar no inútil comportamento do altruísmo. Não há outra explicação para a estúpida serenidade do homem civilizado a tentar inutilmente fugir da barbárie.

 

Nota: e só temos duas pernas para fugir, o que nos torna lentos, ao alcance fácil de qualquer mediano chupador de cérebros.

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publicado por Luís Naves às 00:12 | link do post | comentar