Dia cruel

Procurava, patética, que alguém lhe desse atenção. A voz ligeiramente esganiçada, Peito alçado, a dar com o nariz empinado, e começava cada frase com a palavra Eu. Mas acumulara muitos anticorpos e sabem como funcionam estes ambientes de empresa. Não é bem crueldade, mas uma espécie de justiça popular que não se compadece da solidão alheia. E ela prosseguia nos monólogos, a beleza já um pouco envelhecida, o cabelo sem o brilho de antigamente, a pele a enrugar na cara e no pescoço, um certo peso dos anos a acentuar a vibração da voz, hesitação de incerteza, um toque de agudo. As pausas eram sempre um alívio. Sentia-se de tal forma bonita, que usava Eu em cada frase e não conseguia perceber a indiferença fria dos outros, na qual detectava um pedacinho de desprezo. Iam saindo de cena e despediam-se entre si, com abraços e beijos. Todos a ignoraram e ela ficou ali a tarde inteira a pedir que lhe dessem atenção e, depois, desistindo, foi passar o Natal sozinha.

publicado por Luís Naves às 19:24 | link do post | comentar