A casa e o pinhal

Passávamos o verão com a avó, mas antes dessa época ela vivia numa aldeia. A casa tinha dois andares, o primeiro de cave servia para os animais, e só ocupava metade do comprimento. Como era professora primária da aldeia, a minha avó não tinha muitos animais, só uns coelhos e algumas galinhas e julgo que um porco, mas nem sempre tinha um porco. No andar de cima viviam as pessoas e a porta de entrada principal aproveitava uma zona mais elevada do terreno e que tinha acesso do lado da estrada. Tento explicar melhor: a casa era isolada e ficava junto a um pinhal, que se prolongava pela colina suave. Na entrada, estava a escadaria curta e, lá dentro, um longo corredor com quartos de cada lado; ao fundo, a cozinha, que tinha vista sobre um campo de cultivo, que pertencia a alguém, mas onde nunca vi gente a trabalhar; e, ao lado da casa, via-se a pedreira que tinha servido para a construção, um buraco no terreno, cheio de silvas e espinhos.
O que mais me interessa neste exercício de memória é o pinhal. Era enorme e estava cheio de fetos do tempo dos dinossauros. As árvores cheiravam a resina e cada uma delas tinha uma ferida no tronco e corria um sangue transparente para pequenos potes de barro. Metia-se lá os dedos e aquilo era pegajoso. Nós vínhamos da cidade numa camioneta da carreira, com a minha mãe e os meus irmãos, a viagem durava sete horas e eu adormecia quase logo no início. Só acordava ao chegar, mas tinha a noção de quanto mediam as zonas habitadas do mundo, de que como eram grandes as cidades e como havia tanta gente. Já tinha visto o mar, tudo isso era demasiado natural para mim e nunca pensara na distância.
Mas um dia, era mesmo muito pequeno, talvez com quatro anos, perdi-me no pinhal ao lado da casa (sem me perder da casa) e ouvi o barulho de gente além da floresta, uma voz, sem que se percebesse o que dizia. Era uma ameaça desconhecida, grunhido, lamento, um vago suspiro, grito a resmungar ou a marcar um ritmo ou apenas uma alma em conversa. E aquilo vinha de tal forma para lá do fundo, depois das árvores, que acreditei na existência de seres fabulosos nos confins daquela floresta, que me parecia do tamanho de uma catedral, com os seus pilares elevados a sustentarem o céu. Esse foi um dos dois dias em que aprendi que o mundo era interminável e que havia nele demasiados mistérios para descobrir.

publicado por Luís Naves às 18:08 | link do post | comentar