A Era do Explícito

Os críticos literários ficam surpreendidos quando vêem textos de autores estrangeiros que usam um estilo “pão, pão, queijo, queijo”. Perante estes autores, os especialistas falam em “depuração”, “contenção”, “eficácia”.
Esta escrita sem subterfúgios faz sentido nos dias que correm, marcados pela exposição dos leitores a toda a espécie de vivências impossíveis. Estamos na Era do Explícito e não parece fazer sentido esconder a realidade atrás de uma linguagem floreada e politicamente correcta. Mas ir ao ponto sem digressões não é fácil em Portugal, por não estar na moda. Para muitos não é suficientemente “literário”; por outro lado, a moda é sentimental e parece bem usar um certo tom delicodoce, com lirismo vagamente poético que não traduz o mundo cão e feroz em que vivemos.
A realidade à nossa volta é muitas vezes brutal. Podemos ver na televisão e na internet situações escabrosas. Por vezes, poupam-nos a excessos, mas agora há os telemóveis. Tornou-se uma banalidade assistir à tortura e morte em directo. E a realidade pode ser um lucrativo espectáculo, com vidas à mostra (neuroses, nudez, sofrimento, sexo, banalidades).
Aliás, como escrever sobre sexo quando somos inundados por imagens pornográficas? Com paninhos quentes e metáforas? A falar de borboletas? Pois se são “mamas” porquê escrever “seios”? Podemos optar por não escrever, mas isso ainda é mais absurdo. Estaríamos nos velhos tempos da literatura com tabus, mas rodeados por uma sociedade sem inibições. Que literatura seria esta? Uma imitação da pintura vitoriana em cima, que pretende representar uma orgia no tempo de Roma.

 

No início do século passado, os escritores tinham uma dificuldade: como escrever no tempo do cinema? E surgiu uma literatura mais visual, também subjectiva e fragmentada. Os temas tornaram-se mais duros. Hoje, a dificuldade é diferente. Onde está a verdade nas imagens que vemos? Os espectáculos da realidade são como física quântica, pois a câmara altera o objecto filmado. O escritor americano Philip K. Dick compreendeu bem o princípio da incerteza aplicado às sociedades humanas.
Ocorre-me uma imagem recente: quatro rebeldes sírios disparam contra veículos que avançam numa estrada a 150 metros de distância. Vemos tudo do ponto de vista deles (do mesmo ângulo) e sabemos que estão a atingir a coluna. Uma voz explica-nos que os rebeldes estão a disparar contra tropas governamentais, mas os veículos não parecem militares e são todos brancos. Os rebeldes sírios querem liberdade e o lado governamental terá praticado as maiores barbaridades, mas quem nos garante que aquilo que vimos era o que foi descrito? Um dos veículos podia levar crianças de escola e nunca o saberíamos. A voz disse que eram quatro rebeldes e eu acreditei. Dou outro exemplo: um cirurgião plástico retalhava uma mulher americana; a certo momento mostrava um pedaço retirado dela e parecia um pedaço de um porco.
Temos assim que o explícito acompanha o incerto. Tudo é manipulável. E o politicamente correcto impõe certos eufemismos, havendo palavras que nem podemos usar (Mark Twain foi depurado da palavra nigger). Existe pois liberdade e falta dela. Leitores que viram tudo no conforto dos seus sofás, mas que não gostam de o reconhecer. A realidade torna-se aceitável em romance, mas só se estiver devidamente embelezada, melhorada com frases de belo efeito e que pareçam mais literárias. Assim, em papel de embrulho, tolera-se melhor.

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publicado por Luís Naves às 20:42 | link do post | comentar