História do Futuro (Volume VI), 2080-2120

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Para muitos autores, o período que se seguiu ao recuo generalizado foi semelhante à Idade Média europeia no que respeita à violência geral e à fragmentação das unidades políticas. Julgo que o termo idade média, usado no século passado por um eminente historiador, é conveniente para a explicação destes quarenta anos marcados pela turbulência e a instabilidade. Não se pense, no entanto, que havia um padrão de feudalismo. As classes dirigentes não tinham laços de família e a rivalidade política era uma constante. Não havia lealdades extra-fronteiras. Pelo contrário, apenas conflito.
O leitor tem de se esforçar um pouco, fazer um exercício da imaginação, para compreender o estado a que tinham chegado as sociedades. Nas zonas urbanas, onde viviam 70% das populações, as infra-estruturas estavam parcialmente arruinadas e, no fundo, a vida quotidiana transformou-se numa luta diária pela simples sobrevivência. Por todo o lado, deixara de haver empregos e uma situação de desemprego em massa é simplesmente insustentável. O sistema fiscal ruíra. Os serviços básicos, de água, energia, saúde, policiamento ou transportes, eram lentamente reconstruídos nas cidades que tivessem recursos, mas essa reconstrução nunca era suficiente para abarcar toda a gente e o padrão geral foi de abandono; nuns locais de forma rápida; noutros, saída gradual, com resistência dos núcleos duros das comunidades. Três exemplos: o Cairo chegara a ter 22 milhões de habitantes, mas em 2080 tinha só 4 milhões e, dez anos mais tarde, apenas 250 mil pessoas; a cidade de Atlanta, com 2,5 milhões de habitantes em 2070, tinha 7% desse valor em 2100; e Munique, em 2082, estava reduzida a 10% da população contabilizada 8 anos antes.

 

Tanto nos países que tinham mantido economias desenvolvidas como nos mais pobres, milhões fugiram para o campo, mas sobretudo para cidades de pequena e média dimensão, onde era possível encontrar uma casa vazia ou um terreno de subúrbio que permitisse construir uma habitação improvisada e manter uma horta de subsistência. O facto é que numa grande cidade se tornara cada vez mais difícil encontrar alimentos ou a simples segurança física. O processo de abandono foi acompanhado pela desindustrialização acelerada. A produção de bens caiu em todo o mundo, também fruto do colapso do sistema de comércio internacional.

Há outro elemento associado ao fenómeno de abandono das cidades: refiro-me ao declínio cultural. Isto foi mais forte na primeira década do período analisado e o desaparecimento dos restos da cultura da civilização ocidental estava consumado por volta de 2100. Para um historiador contemporâneo é difícil explicar a experiência de, por exemplo, assistir a uma ópera, género de entretenimento muito popular nos séculos XIX e XX. A bibliografia consultada não me permite avaliar ao certo a natureza destes espectáculos de teatro musical, mas exigiam meios sofisticados e artistas especializados, que obviamente um mundo em colapso não podia sustentar. A ópera é apenas um exemplo. O espectáculo mais popular da época consistia num jogo de bola, chamado futebol, que exigia equipas de onze jogadores. Pagos a peso de ouro, estes atletas não podiam ser sustentados pelas instituições urbanas e a competição desapareceu de forma abrupta. O jogo em si sobreviveu e acabou por evoluir para uma forma contemporânea, com 15 jogadores, que se pode também jogar com a mão.


Muitas experiências culturais foram perdidas para sempre. Obras de arte, milhões de livros e filmes, a tradição da música, descobertas científicas, tecnologias. Alguns desses conhecimentos mantinham-se por algum tempo ainda a funcionar (o telescópio, uma estação de televisão ou rádio, uma biblioteca) mas progressivamente desapareciam os recursos de improvisação para manter os equipamentos. Faltava uma peça crucial, morriam os que ainda sabiam mexer nas máquinas.
Até ali, as pessoas não tinham a noção de como tudo estava interligado e como era frágil a civilização hiper-industrial. Com a escassez de dinheiro, não era possível adquirir componentes vitais e as maquinarias simplesmente deixavam de funcionar. A isto juntava-se o problema do combustível. As indústrias pararam, por vezes substituídas por tecnologias pouco sofisticadas. O recuo alimentava-se a cada novo contratempo.

A civilização ocidental baseara-se na educação de massas, mas este sistema foi abolido. Surgiu a estratificação social, regressou o analfabetismo, caiu a esperança de vida e aumentaram brutalmente as taxas de natalidade e de mortalidade infantil. Eis as características mais nítidas da época. A mortalidade geral atingiu valores elevadíssimos. Não há muitas estatísticas, mas mesmo comunidades estáveis tinham um número exorbitante de assassínios.
As grandes migrações tinham parado e as comunidades isolaram-se ainda mais. O movimento de populações passou a ser limitado na distância (não mais de cem quilómetros) e, depois, nem isso acontecia, pois passou a ser pela força. O mundo estava inundado de armas, produto do engenho humano com notável longevidade. Um homem que tratasse bem da sua arma pessoal e poupasse no stock de munições poderia passar sem dificuldade este seu tesouro para a geração seguinte.

 

Politicamente, o mundo fragmentara-se. Calculo que tenham existido mais de 3000 entidades políticas autónomas entre 2100 e 2150. Mas admito que o valor esteja subestimado, pois há zonas do mundo onde todos os relatos escritos se perderam ou foram escritos em línguas entretanto desaparecidas ou difíceis de decifrar. Mesmo com os meios avançados de que dispomos, é difícil estudar a massa de elementos contraditórios. Um facto parece indesmentível. O número de entidades políticas subiu ao longo do período.
Muitas das unidades tinham pequenos territórios e populações. Quase sempre correspondiam a províncias de países antigos. Zonas que um país tinha abandonado, ganhavam agora vitalidade nova e recebiam populações de cidades próximas. Esse foi o padrão na Europa e nos antigos Estados Unidos. Por todo o lado, surgiam comunidades: Alentejo, País Basco, Transilvânia, Ligúria, Genebra, Valónia, Normandia, Saxónia, Kansas, Sicília, Grandes Lagos, Luisiana, Oaxaca, Rio Grande, Patagónia, Quebec. As sociedades estilhaçavam-se, os países emergiam de regiões, defendiam ferozmente as suas fronteiras. Assim ocorreu a implosão.


Outro aspecto relevante é o da extraordinária diversidade de experiências políticas tentadas nesta fase. As democracias liberais estavam em declínio, substituídas por soberanistas e ditaduras suaves, mas o processo de divergência acentuou-se. A meio do período estudado, parte significativa dos países (calculo que pelo menos metade) tinha regimes ditatoriais, alguns mesmo regimes totalitários; as utopias neo-comunistas eram cerca de 10%; as oligarquias tinham 5% dos regimes, com algumas raras monarquias; as teocracias, também cerca de 5%. As restantes unidades eram democracias capitalistas, com pequena proporção de libertários e de repúblicas socialistas de economia planificada. O sistema republicano era de longe o mais utilizado, mas havia democracias directas onde todas as decisões eram tomadas através de sondagens instantâneas. Num capítulo seguinte, estudaremos algumas curiosidades...

publicado por Luís Naves às 18:10 | link do post | comentar