Um dia na vida, 1 (História do Futuro, vol. VI, 2080-2120)

I

 

O velho pediu para sair do carro. A estrada continuava, com o asfalto já em muito mau estado, mas ele disse que ficava ali.
   − Ainda é um esticão para voltar.
Saiu. Disse que só os tinha acompanhado para ter a certeza de que seguiam na estrada certa. O amigo Afonso tinha péssima orientação. Por isso, apontou em frente. Pediu-lhe que não parasse até chegar ao destino, 200 quilómetros mais a norte. Despediram-se, comovidos:
   − Adeus engenheiro, cuida de ti.
   − Adeus, tenham cuidado.
   − Devias vir connosco.
   − Era peso a mais.
E o carro eléctrico arrancou pelo caminho, desapareceu na curva, silenciosamente. Iam três a bordo (Afonso, a mulher e o filho, que já tinha 12 anos); muito peso, dificilmente fariam todo o percurso, pensou o velho.
Tinham levado cinco semanas a reparar o carro e a encher as baterias gastas e regastas, mas os seus amigos tinham boas hipóteses: se conseguissem pelo menos 150 quilómetros, o resto do caminho para a aldeia seria relativamente fácil, mesmo a pé. Talvez ainda ali estivesse a casa antiga de que tinham falado durante meses e meses. Em mau estado, era certo, mas porventura habitável. Havia terras para agricultura e levavam sementes. Podiam improvisar, levavam livros de agricultura. A grande incógnita era saber quem se teria instalado na aldeia? Muitos, sem dúvida. Que género de gente? Não sabiam. O certo é que alimentar três pessoas numa cidade já não parecia possível.
A família Afonso era a última que restara do prédio. A velhinha do segundo andar morrera nas cheias de inverno, por uma estupidez, arrastada pela inundação quando tentara chegar à feira no dia errado. Era preciso não cometer esse tipo de imbecilidade, juntar tudo o que era necessário e só sair quando não havia perigo. Agora, sem a ajuda dos vizinhos, teria dificuldade em estender os oleados para recolher água da chuva no telhado. A manobra precisava de força de braços, mas se conseguisse colocar os plásticos na posição certa, também teria mais água. Se chovesse, claro, o que não se atrevia a prever.

 

Encolheu os ombros e voltou para a cidade. Ainda era manhã cedo, o relógio de corda dizia nove horas. Tinha tempo. Pensou no passado, isso acontecia-lhe muitas vezes ultimamente, lembrar-se das épocas felizes.
Quando chegou ao cruzamento, mais em baixo, viu um carro que se aproximava e, sabendo que era inútil, acenou a pedir boleia. O carro passou por ele sem parar. Ninguém parava. Ele também não teria parado. Uma pessoa na estrada era uma ameaça. Quantos carros restavam em Lisboa? Algumas centenas, talvez, que canibalizavam milhares de veículos parados. Era quase impossível substituir as baterias e podia levar uma semana apenas a carregar uma delas, e a carga era sempre imprevisível. Ninguém se aventurava para longe e os carros só se usavam em situações complicadas. Extrema necessidade, essa era a regra. Se ao menos, as máquinas fossem menos complexas, seria possível mantê-las por 50 anos, sem que fabricassem as peças, mas com o grau de complexidade que se instalara no início do século, só um engenhocas como ele conseguia prolongar a vida aos objectos.
O velho vinha distraído a pensar nestas coisas e não reparou imediatamente num homem que aparecera do nada e caminhava na mesma direcção, talvez 300 metros mais atrás. A certo ponto, ouviu os passos do outro e sentiu o coração a acelerar. O perseguidor era ainda uma mancha indistinta, mas caminhava a boa velocidade, pelo menos a ritmo constante. Olhou para trás, voltou a andar, olhou de novo: o vulto crescia. Sentiu súbita ansiedade e calculou as suas hipóteses: se seguisse pela estrada, um quilómetro mais à frente, havia a feira, estaria ali gente. Era a melhor opção: caminhar em frente (talvez o intruso também fosse para a feira); mas se abandonasse o caminho teria de se esconder, despistar o bandido, o que era pôr-se na boca do lobo. Não teria ajuda e desconhecia a força do adversário (teria cúmplices? Estava armado? E o que pretendia?). Caminhar, era isso, acelerar o passo, manter a distância, chegar o mais perto possível de gente. Com o medo na boca, nem reparou que começara a rezar, para marcar melhor o ritmo da marcha, pai nosso que estais no céu…
Tentou imprimir aos seus passos um ritmo que pudesse suportar. Era preciso poupar energia, como se poupava uma bateria ou um garrafão de água. A sua especialidade era planear e aquela situação não era diferente. Tirou do bolso um pequeno espelho e colocou-o de forma a controlar o que se passava nas suas costas. O perseguidor avançava. Ganhara-lhe talvez uns 50 metros, mas duvidou do próprio cálculo: era preciso observar com mais atenção, os humanos são maus a calcular a velocidade de um objecto grande e o homem parecia-lhe um gigante, crescia a pouco e pouco, mais feroz e imprevisível. Pai nosso… O perseguidor estava vestido com um blusão banal, parecia ter roupa demasiado quente, o que lhe pareceu significar que não tinha poiso fixo; era um vagabundo, a fauna mais perigosa. Enfim, não tão perigosa como a dos habitantes da noite, os ratoneiros, de quem se dizia que viviam nos túneis do metropolitano e que eram canibais. Histórias, claro; já vira ratoneiros de dia; sujos e horríveis; toda a gente tinham medo deles, mas comiam o que apanhavam (os ratos talvez fossem nutritivos, porque não?) e falava-se noutras tribos esquálidas, uma seita que se instalara no vale de Alcântara, tipo idade da pedra. E repetia a ladainha: Pai nosso que estais no céu…
A sua mente corria. Acelerou, andara mais duzentos metros e ainda estava bem longe. Via-se ao fundo da avenida o objectivo, tendas e algumas pessoas a circularem. Formiguinhas. A feira. Passou para o asfalto, pois havia uma parte lisa, e o homem atrás dele também passou para o asfalto. Estava a imitar os seus gestos e aproximara-se. Sim, tinha a certeza, aproximara-se cem metros. Bastaria que o outro tentasse uma corrida rápida e estaria perdido. O homem tinha um saco, um longo pau de caminheiro e que batia no chão como se fosse uma estaca a cravar-se no solo. A arma podia arrancar-lhe a cabeça num único golpe.
E pensou: como é que isto acontecera ao mundo? Ainda se lembrava dos tempos bons, fartura de comida, polícia na rua, água nos canos, festivais de luz. Mas o problema nem era a electricidade: tinha o painel solar e duas ventoinhas no telhado (ele próprio as instalara), mas já quase não havia lâmpadas; umas lojas faziam reciclagem dos metais, mas a escassez aumentava e os preços eram exorbitantes. Anos antes, guardara mais de cem, para trocar por comida. Ainda tinha 30 lâmpadas para comércio.
Olhou de novo pelo espelho e assustou-se. O homem aproximara-se; tinha barba espessa, avançava a bom ritmo. Já se ouviam as botas dele, um pouco atrás. Por isso, acelerou ainda mais, mas as pernas começaram a doer-lhe, os músculos em esforço máximo; suava, parecia que o coração ia rebentar. Amaldiçoou-se por ter poupado nos sapatos, que lhe faziam perder tempo. Não concluíra ainda sequer dois terços do caminho e o perseguidor estava a menos de cem metros, aumentara a velocidade. A esse ritmo seria caçado. Ia morrer na praia e tentou um último esforço, mesmo que lhe doesse a perna direita. Acelerou de novo e ganhou alguns metros. De repente, percebeu que o perseguidor fraquejara. Sentiu o esforço do outro homem, a sua respiração pesada, o cajado a bater no solo quase como uma bengala de cego. Viu pelo espelho o desconhecido a esbracejar, num desespero assassino. Quase se viam as suas feições, era magríssimo. Por isso, teve ainda mais medo e conseguiu ignorar a dor na perna direita e o músculo que ameaçava travar-lhe o passo. Era preciso andar, não parar, andar, sem hesitação, prosseguir a marcha sem piedade, e foi o que fez, vendo as tendas cada vez maiores e, quando o desconhecido começou a correr, também correu. A nenhum dos dois restavam forças, tentavam dar uns saltos patéticos e se alguém os visse diria que pareciam loucos. E o velho engenhocas correu como se viesse o diabo atrás dele. E se era mesmo o diabo, teve sorte, porque o perseguidor talvez tenha tropeçado ou vinha já no limite. Caiu no asfalto, com estrondo, num grito sufocado, e tentou levantar-se, mas só os braços tinham ainda algum alento. O velho ganhou uns metros, nem sequer abrandou, tinha a meta à vista e conseguiu chegar primeiro. Ainda olhou: o perseguidor desistira, voltava para trás, avenida acima, o cajado a bater no chão, e o passo dorido, a coxear caminho adiante. Falhara por 30 metros.
publicado por Luís Naves às 20:16 | link do post | comentar