A falésia

Houve outra expedição importante e que exige um preâmbulo, para descrever a Amadora desse tempo.
Como todos os subúrbios, aquele tinha no seu centro a estação ferroviária. O comboio já ali passava nos tempos da monarquia e julgo que a paragem principal era em Queluz, por causa do palácio. A Amadora devia o seu crescimento antigo à estrada de Sintra, ao restaurante da Porcalhota, que atraía o turismo burguês, e ao campo de aviação, que mais tarde se transformou na academia militar e no regimento de comandos. A certo ponto (e quem sabe o que criou o fenómeno?) começaram a construir novos prédios na vasta planície junto à estação, a rasgar ruas e ruelas, avenidas e estradas, acessos e pátios, pequenos jardins e escolas.
Quando casaram, nos anos 50, os meus pais pertenciam à nascente classe média sem dinheiro para alugar casa em Lisboa mas que também não queria emigrar para África. Julgo que o meu pai chegou a ponderar a hipótese de ir para Angola, mas não era homem para aventuras e, certamente, a minha mãe não era mulher para aventuras. Optaram por ficar: o meu pai era bancário, tinha emprego seguro; a minha mãe, professora primária, com tempo para tratar das suas próprias crianças. Foram criando três filhos (mais tarde viria um quarto), com salários modestos, mas que chegavam para a situação ir melhorando.
Voltando à história que queria contar: a Amadora crescera exactamente na sua parte plana, até à academia militar. Do lado de Queluz, parava nas ravinas e, do outro lado da estação, ainda não subira as colinas sobranceiras ao vale; depois, do lado de Lisboa, acompanhava a estrada de Sintra, que começou a ser conhecida por estrada de Benfica, pois o ponto de vista de quem vai, o que baptiza, mudara de um lado para o outro. Eu teria cinco anos (ou teria quatro?). A minha mãe pediu-me para ir comprar fósforos (lembro-me assim, mas talvez não fossem fósforos) à mercearia em frente à casa. Ainda me arrepia a ideia; naquele tempo, as mães mandavam as crianças à mercearia em frente.
Enfim, sei que me mandaram à mercearia e fui por ali fora, esquecido da missão, a explorar o vasto mundo. Subi a rua toda e (agora, tenho presente o mapa do percurso), atravessei duas ruas e entrei na última. Sei que fui até à falésia e ali vi toda a cidade que nascia pelo vale. A minha memória é precisa sobre isto: como era enorme a nova cidade! Conhecia o caminho, porque uma das últimas casas dessa rua sem saída era da modista da mamã. Já lá tinha ido. Foi aliás a modista que me viu passar e me apanhou na falésia, a contemplar o mundo. Levou-me para casa e entregou-me à minha mãe, que nunca mais me mandou comprar fósforos.

publicado por Luís Naves às 10:26 | link do post | comentar