Vulgares de Lineu

A solidão da escrita tem um lado de liberdade, pois se ninguém ler isto, então para quê limitar o pensamento? Por vezes, escrever é como caminhar, colocar um passo atrás do outro, procurar o melhor caminho. Mas há uma distinção importante: quando se anda, o corpo funciona de forma automática; por outro lado, encontrar palavras é tarefa que, sem cansar os músculos, exige um sentido.
Uma personagem de Kundera achava as mulheres todas iguais, pelo menos em 999 porções de mil, e dizia que procurara, em todas as mil mulheres que tinha amado, o milésimo de diferente. Não sou tão pessimista, acho as pessoas todas diferentes em maior grau do que um milésimo, sobretudo as mulheres. Existe até uma taxionomia dos seres humanos, na visão de quem os observe a certa distância: há pequenas variações, que se somam umas às outras e formam grandes famílias, como acontece com as flores, divididas conforme a forma das pétalas, dos caules e das folhas, numa profusa variedade, embora não infinita. Aos humanos, tento observá-los à lupa, todos ambiciosos dentro da sua modéstia, esmagados no meio da sua independência, felizes entre as suas muitas tristezas, alguns com esperança outros resignados. Enfim, cada um a fazer o seu caminho, sem saber bem para onde ir, um pouco como fiz neste texto, colocando uma palavra à frente da outra, com muito esforço. 

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publicado por Luís Naves às 19:03 | link do post | comentar