Segunda-feira, 23.07.12

Bica curta

Pediu uma bica curta e o empregado colocou sobre a mesa uma espécie de sopa negra, a chávena cheia até ao topo, o líquido excessivamente quente e sem a película de espuma queimada que era metade da graça numa bica curta. Ainda por cima, entregue com maus modos. O empregado deitou-lhe um olhar manhoso e na sua expressão ligeiramente torcida percebeu um vislumbre de ódio.
Em todo o café, as pessoas de carácter eram raras. Aliás, não viu nenhuma. Observou o triunfo dos gananciosos e dos videirinhos que se espalhavam em grupos pelas mesas, uns mais alegres, outros pensativos, uns a pedir galões, outros torradas a escorrer de manteiga. Pensou que o caminho estava facilitado para tolos e cínicos. Que os profetas da desgraça e os vendedores de sonhos, por muito que se enganassem, tinham sempre mais audiência do que os lúcidos. E não havia espaço para homens sem rótulo.
Reparou na ausência de discussões, notou que todos concordavam uns com os outros, fazendo salamaleques, num sorridente unanimismo. Naquele café, o carácter era tratado com desprezo e a independência de espírito criticada. Ele era o único que não pertencia a grupinhos, portanto, uma anomalia que o empregado detectara. Daí a pequena crueldade da bica cheia e a embirração do gesto, sobretudo a omissão com que fora tratado, como se fosse transparente. Por isso, ficou ali mais um minuto, a observar as falsas elites e a subserviência que mostravam.
Até se cansar. Então, tirou uma moeda do bolso, que deixou sobre a mesa, ao lado da bica intocada. Saiu, devagar, tentado ser altivo, mas esmagado pelo ardor de uma angústia que não sabia de onde vinha. O empregado nem sorriu ao pegar na moeda deixada, apesar dela incluir uma generosa gorjeta. As pessoas no café aumentaram o ruído das conversas, como se estalasse o alívio de o verem sair. Houve até algumas gargalhadas.
E, sem olhar para trás, sem saber que estava louco, o louco foi descendo a avenida.

publicado por Luís Naves às 11:18 | link do post | comentar
Domingo, 26.02.12

Alegria

Escreveu a última frase e teve uma breve sensação de alívio. Depois veio a dúvida que o atormentara desde o início: seria lido? Por isso, repetiu cada uma das palavras que escrevera, para ter a certeza do efeito. Sim, convenceu-se de que a leitura provocaria primeiro espanto, depois irritação e, no final, a impotência da vítima. Já estava a ver o inimigo a abrir o envelope, a ler a mensagem, a empalidecer, depois corando de fúria e medo, em busca de um autor. Teve pena de não estar presente, mas podia imaginar a cena. Talvez o outro fizesse uma loucura e seria o triunfo. A facada de vingança, embora não pudesse falar de vingança, pois o alvo não lhe fizera mal algum.
O seu coração encheu-se de uma excitação inflamada. Como ousara o outro julgar-se superior? Ao pensar isto, reconciliado com o mundo, concluiu o gesto sem que lhe restasse qualquer ódio na alma. A raiva ficara toda nas palavras. E foi assim, quase em paz, que largou a carta anónima na caixa do correio, sem duvidar de que o veneno chegaria ao destino.

publicado por Luís Naves às 23:27 | link do post | comentar
Quinta-feira, 26.01.12

Carrinho de bebé

A mulher entrou a empurrar um grande carrinho de bebé, a atrapalhar-se, mas ninguém tentou segurar a porta. Devem ter reparado naquilo que só vi algum tempo depois, que ela tinha o cabelo espetado e sujo, cor incerta e desvanecida, roupa desmazelada, olhares vorazes, próprios do animal anestesiado. Em resumo, era uma louca.
Ela foi empurrando o carrinho de bebé, que tinha cobertura de plástico para proteger da chuva. Fez manobras cuidadosas entre as mesas, como se tentasse não acordar a criança. Sentou-se, pediu um galão e uma torrada e ficou sozinha, a comer em silêncio, com o carrinho ao lado, a tapar a passagem no corredor da direita.
Esteve ali dez minutos, a olhar com severidade para os clientes. Depois, pagou com uma nota de vinte e agradeceu à empregada, como se tivesse tomado chá e bolinhos.
Saiu, de novo em manobras confusas, pedindo desculpa, apesar de ninguém lhe devolver o sorriso.
Pensei que seria talvez uma mãe solteira em desespero. Mulher dos seus trinta e tal. Fiquei incomodado, a meditar naquilo: deixavam uma desequilibrada passear o seu bebé?
Depois do almoço, encontrei a doida na rua. Estava a falar para dentro do carrinho e, não sei porquê, aproximei-me, talvez para lhe recomendar que procurasse ajuda (deu-me para esta hipocrisia). E, quando me aproximei, percebi. Debaixo da cobertura de plástico, havia um pequeno volume de roupa a simular uma forma cilíndrica. E ela mostrava-lhe o dedo espetado no ar, avisando gentilmente um bebé imaginário.

publicado por Luís Naves às 19:52 | link do post | comentar
Domingo, 22.01.12

O rescaldo da incidência

Caminhava a bom ritmo, a descer a rua, a assobiar a melodia de uma canção antiga, J’Attendrai, mas a ritmo de jazz. Quando desemboquei no jardim, vi que muita gente estava a observar um homem em tronco nu, que parecia enervado, e que uma mulherzinha engraçada tentava acalmar. Ela tinha umas maminhas bem feitas e um rabinho assinalável, mas era bizarro estar ali, em pleno inverno, um rapaz em tronco nu, como já disse, observado por três bombeiros, uns trolhas da construção em frente, o senhor do restaurante, uma velhinha que passeava o gato.
Ao comprar o jornal, perguntei ao dono do quiosque o que acontecera e ele explicou-me que chegara tarde para assistir à “porrada”.
   “Agora, é o rescaldo da incidência”, disse ele.
Interroguei-o, para saber pormenores. Dera-se uma luta breve entre aquele matulão e outro que vinha a passar e (especulação) atirara um piropo à rapariga das maminhas bem feitas.
Com a crise, anda muita testosterona no ar, e voaram caixotes do lixo e houve empurrões, murros e gritos. Foi rigorosamente assim, mas mais depressa.
Informado, segui para o meu destino, imaginando que talvez o rapaz em tronco nu conseguisse conquistar a beldade que o tentava acalmar no momento em que abandonei o local, mais ou menos na altura em que destroçaram os bombeiros.
Mas não houve caso nem final feliz. Os escritores sabem estas coisas; umas semanas depois do incidente do jardim, a rapariga escolheu outro paladino, um que não teve nada a ver com este filme.

publicado por Luís Naves às 14:22 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sexta-feira, 20.01.12

O invejoso

Sentia inveja e era isso que o consumia. Produzia-lhe ardor no estômago, da acumulação de ódios  e fluidos. Mas disciplinava-se, embora a custo, pois a inveja não deve ser evidente: o feio fazer pouco do belo é insensato. Assim, usava sobretudo o método da frase implacável, mas lateral, e que se torna eficaz quanto mais injusta. Era raro, mas as pessoas espantavam-se com a sua crueldade e foi ficando com fama de frustrado, sempre adepto de medíocres comparações, teorizando com habilidade que fulano não tinha talento.
Há leis gerais no universo. A vida foi-se apagando. E, depois, morreu. Felizmente, fora cuidadoso nas disposições do testamento. A sua campa era notável no aspecto, esculturas de calcário, tampa em basalto, bem pesada e polida, com o seu nome em letras góticas, douradas. Era bem mais bonita e duradoura do que as restantes à volta, destacava-se com facilidade e via-se de todo o cemitério. As pessoas pensavam que ali estava um morto cuja vida certamente valera a pena.

publicado por Luís Naves às 21:26 | link do post | comentar
Sexta-feira, 23.12.11

Dia cruel

Procurava, patética, que alguém lhe desse atenção. A voz ligeiramente esganiçada, Peito alçado, a dar com o nariz empinado, e começava cada frase com a palavra Eu. Mas acumulara muitos anticorpos e sabem como funcionam estes ambientes de empresa. Não é bem crueldade, mas uma espécie de justiça popular que não se compadece da solidão alheia. E ela prosseguia nos monólogos, a beleza já um pouco envelhecida, o cabelo sem o brilho de antigamente, a pele a enrugar na cara e no pescoço, um certo peso dos anos a acentuar a vibração da voz, hesitação de incerteza, um toque de agudo. As pausas eram sempre um alívio. Sentia-se de tal forma bonita, que usava Eu em cada frase e não conseguia perceber a indiferença fria dos outros, na qual detectava um pedacinho de desprezo. Iam saindo de cena e despediam-se entre si, com abraços e beijos. Todos a ignoraram e ela ficou ali a tarde inteira a pedir que lhe dessem atenção e, depois, desistindo, foi passar o Natal sozinha.

publicado por Luís Naves às 19:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)

pesquisar neste blog

 

posts recentes

tags

links

arquivos

subscrever feeds