Quarta-feira, 31.10.12

Rumo incerto

Naquele momento, observou através da janela a transformação das nuvens que deslizavam sobre o rio cor de cinza. Viu a sombra das pessoas que passavam, os rostos anónimos, as caras crispadas, os corpos prolongados no fim de tarde, sonâmbulos.
   A cidade cansada, de tantas vidas que ali se cruzavam, dos muitos sonhos e das existências dispersas. Cansada de tudo o que cada um desperdiçara das suas ambições. Cansada do conformismo e das ilusões que serviam de máscara. O cansaço de ver em demasia, à distância, através da vidraça suja pelo vento.
   O rio de gente não terminava. Havia destroços à deriva, poeira. A corrente era feita de fadiga apressada. As sombras, afugentadas pelo lusco-fusco tardio, espalhando-se em gestos dóceis. E, a certo ponto, irrompeu a luz na praça, a em vão se contrariava a noite, mas apenas com o efeito de aumentar os reflexos melancólicos no vidro.
   O senhor doutor quer outra dose?
   Aceitou em silêncio, com um único gesto da cabeça, olhando na direcção do empregado, como se o visse pela primeira vez. O empregado encheu de novo o copo que ele já esvaziara, foi generoso na porção, e colocou dentro ainda duas pedras de gelo, dizendo com falsa alegria que ele queria sempre duas pedras de gelo na bebida. Achou curioso que até os empregados de mesa se agarrassem a padrões inexistentes. Que estaria o empregado a ver? Um homem sentado a uma mesa a olhar para o tampo, ou a olhar para o copo ou para os transeuntes além da vidraça. E lá fora, no exterior, deambulavam sombras em busca de qualquer coisa indefinível, formando padrões que davam desordem ao mundo, circunstâncias banais, desejos, gestos, entoações, frases favoritas.
   Que veria aquele empregado, para além de um homem na sua solidão, embrulhado em problemas íntimos? O reflexo de alguém passado, as amargas desilusões secas na garganta. Seria apenas isso que ele via ou ainda menos? Como se cada homem fosse uma soma de incógnitas e de momentos falhados.
   E, agora, para onde iria? Ao pensar no vazio da sua casa teve um arrepio. A escuridão, o frio. Nenhum sorriso o esperava (os gatos não sorriem). Sim, o Gordo estaria à sua espera, feliz de o rever, mas era um gato meio maluco.
   O que pensam os animais irracionais?
   Quer mais alguma coisa, doutor?
   Não quero mais nada, João, apenas a conta…
   Que recebeu num pequeno prato. Pagou, com gorjeta generosa. Até compramos sorrisos!
   O empregado sorriu, desejou-lhe boa noite. Saiu do café triste e na rua juntou-se à multidão que deslizava. Decidiu não descer para o metropolitano e por isso caminhou até às ruas laterais, onde havia menos transeuntes. Estava uma noite fria e a cidade escondia-se nas suas torres de pedra, cada qual com o seu xadrez de luzes. E foi ao ficar mesmo sozinho que se sentiu pequeno e frágil, uma vida de rumo incerto.

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Segunda-feira, 23.04.12

Tudo se mistura

Este não é apenas o rio que se arrasta nas suas contradições contra-a-corrente, mas também a força selvagem, de mistura com a suave brutalidade dos homens civilizados. Está inundado de medo e hesitação, desumanidade e desistência, algumas cobardias e traições. Este não é apenas o rio que escorre, invisível, nas noites de angústia, mas igualmente o espectáculo de gente inquieta, pois tudo o que nos rodeia é fogo-fátuo, luzes artificiais e espuma de vidas imperfeitas. Vejo uma mágoa da matéria deslassada, a atmosfera sufocada, os dias cheios de pena, despedaçados. Brancura de cinza, paredes esfoladas como pele, os farrapos de algodão sujo nas nuvens cansadas, tão cheias de chuva que nada cai do céu. Este é o rio que acredita que o mundo é todo seu, feito de subtis mudanças, quando abranda junto à foz e chega à planície. Parece impossível, mas é ali que morre, ao espraiar-se na distância, e fica ali pasmado, como que num impasse da vontade, como se a terra abrisse os braços e engolisse aquela força toda, num gesto de falsa ternura.
Observo o rio das misérias precoces, dos prédios semi-abandonados. Creio que ali ainda vivem alguns velhos, escondidos como baratas atrás das paredes podres. Estamos a envelhecer. Somos cada vez mais numerosos, os que se escondem nos prédios decadentes e nas ruas desocupadas. Ninguém fala disso, porque nunca falamos verdadeiramente dos nossos problemas, sempre com as mesmas justificações pouco convincentes, que não passam de meias-mentiras, o mesmo que meias-verdades. As casas vazias são semelhantes a nós, esperam o milagre que as possa encher outra vez de vida.
Lá fora, de súbito, guincha um gato assustado. Vou à janela. No pátio, entre o arvoredo, cinco andares abaixo da minha janela, passeiam três gatos e presumo que um deles se tenha assanhado com outros dois, por uma qualquer crueldade frívola típica dos gatos, o que pode ser inocente. Os horrores, esses, são relances da realidade. Está tudo cheio deles, mais além, só aqui houve um breve sinal, mas volúvel como um bicho, já passou, não foi nada. Os gatos parecem tranquilos, acalmaram-se, estão no seu ambiente e nem reparam que os observo, lá ao alto, ou talvez não se importem.
Ao fundo, numa fileira de prédios pobres, destaca-se um que está pintado de verde cor de vómito. Isto é o que podemos ver da dissolução do concreto. A realidade corpórea vai perdendo a sua consistência, o que se pode observar nos velhos que passam os dias escondidos nas suas casas moribundas e no gato que silvou assustado e logo fingiu a tranquilidade, pois aquilo que vemos nunca é o que vemos, e se a frase não parece fazer qualquer sentido ou se é contradição, estamos no vasto rio imóvel cheio de correntes antagónicas.
Vejo um homem que vai pela rua arrastando a sua bicicleta velha, uma arrastadeira preta, e surge-me a memória fugaz de pedalar uma bicicleta igual àquela, até nas latarias soltas e no cone da lanterna. E pedalava numa estrada antiga, numa vila da infância e sentia a força do vento no cabelo e havia uma curta descida onde a pesada bicicleta acelerou e foi nesse instante, que agora recordo com exactidão, que senti a máxima liberdade do meu corpo, algo que até esse dia nunca tinha sentido ou talvez a memória não tivesse fixado a alegria pura do momento. E essa memória regressa, quando vejo o homem levando pela mão a velha bicicleta arrastadeira da minha infância. Leva pela mão a bicicleta que, segundo sei, está semi-morta.
Tudo flui num rio, tudo se mistura.

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Terça-feira, 03.04.12

Mutações

Faltavam vinte números e já não sabia o que fazer. Tentei concentrar-me na leitura do artigo, mas o barulho das pessoas distraía-me. O texto era sobre um cientista que desenvolvera em laboratório mutações de um perigoso vírus da gripe. Até aí, este não se espalhava com velocidade, mas com as mutações tornou-se mortal, capaz de destruir uma percentagem elevada de todas as pessoas vivas. Artigo interessante, mas denso. A vida é como um jogo de casino e os cientistas subiram a parada: foi preciso fabricar um mutante que passasse de humano em humano com um simples aperto de mão, e era preciso fabricá-lo antes que a natureza o fizesse.


As pessoas passavam, olhavam os pequenos ecrãs, metade deles avariados, e levando nas mãos as pequenas senhas brancas, conferiam longamente os números, que lhes pareciam sempre longínquos. Ao meu lado, estava uma pretinha linda, entretida a pintar as unhas de cor-de-rosa, tonalidade que lhe ficava mal, num contraste agreste com a pele fortemente castanha. Conversava com a mãe, mas sempre a olhar para as mãos e meio distraída da conversa. Uma senhora gorda estacionara em frente, tirando-me parte da vista; dois paquistaneses palravam em urdu; sentada nas fileiras do outro lado, estava uma mulher triste, com ar aflito e a suspirar profundamente em cada cinco minutos; no átrio, como quem passeia entre vinhedos, fazia umas piscinas um homem com ar de camponês, ainda de boina na cabeça.

Crianças e velhos, negros e brancos, uns mais raros de fato e gravata, toda a humanidade concentrada, todo o cheiro da humanidade também; e passou um velhote a tossir e tossiu para cima de mim e pensei naquele vírus que estava guardado a sete chaves no cofre de um laboratório de alta segurança e que os políticos queriam destruir e os cientistas com dúvidas, a insistirem que a natureza era melhor do que a ciência a produzir vírus perfeitamente mortais, tão mortais que poucos de nós escapariam para contar a história se o bichano andasse por ali a cumprimentar as pessoas.
Talvez escapasse a jovem que a meu lado disse de súbito para o namorado:
   - De que me serve saber o que a tua mãe faz? Em que é que isso contribui para a minha felicidade?
E riu-se. Ele lá balbuciou qualquer resposta e a lógica morreu no burburinho dos que subiam e desciam as escadas e dos que ficavam plasmados em frente ao ecrã, para conferirem bovinamente o número da senha. Era assim, aquele mundo.
Faltavam 15 números e o relógio avançara um ano-luz.
Havia tempo à nossa frente, mas melhor seria a namoradinha espreitar desde já as manias da futura sogra, aprender a fazer os mimos certos ao rapaz que, como todos os rapazes da sua idade, era carente. Dessa forma, ela poderia contribuir, e muito, para a sua felicidade futura. No fundo, tudo se resumia a misturar bem uns genes e rezar em relação às mutações que viessem na lotaria: que nada fosse pior do que unhas encravadas, pestanas a crescerem para dentro do olho, dentes encavalitados, caspa, acne.
 
E aqui está a humanidade resiliente à minha frente, uns mais brancos, os outros mais pretos; uns mais bonitos, outros mais feios; uns melhores, os outros piores; mas todos parecidos na sua humanidade. Todos eles com defeitos, volúveis, inconstantes; alguns, tão raros como os que usam gravata, talvez capazes de resistir ao vírus no cofre do cientista. O artigo é denso, já passei de meio. Eu ficarei talvez morto, também a beldade das unhas cor-de-rosa, e o bebé de colo; e a velhinha da bengala a quem ninguém dá o lugar; e o cinquentão armado em fanfarrão, risco de cabelo alinhado como a auto-estrada norte-sul; e o brasileiro e o paquistanês, os dois disciplinados, à espera de vez.
Faltam três números e eu aqui a perder as poucas horas que me restam, isto se o mutante sair do cofre ainda hoje ou se uma estrela das vizinhanças explodir em supernova, para não falar dos asteróides, terramotos e tsunamis que espreitam a sua oportunidade. Certo dia, li um jornal do tempo da pneumónica: tinha poucas páginas; durante semanas, morriam diariamente centenas de pessoas, incluindo os redactores. O banal nunca é notícia, mesmo que seja desgraça.
De súbito, assusto-me. Desce as escadas, elegante, uma mulher parecida com Maria Callas. Todos a olham, como se entrasse em palco, o nariz perfeitamente imperfeito, o penteado fora de moda, um corpo magro e frágil. Parece atarantada por não ter aplausos unânimes, bravos e pedidos de casamento. Eu próprio casaria com ela, mas chamam o meu número. Corro. Sento-me. Entrego a minha senha amarrotada. Todo eu sou mesuras para a funcionária:
   - Queria um cartão de cidadão, por favor.
   - Trouxe algum documento de identificação?
   - Para dizer a verdade, não trouxe.
   - Sem documento de identificação, não lhe posso passar o cartão de cidadão.
   - Mas o cartão de cidadão é um documento de identificação…
Ela, muitos anos a virar frangos, já ouviu a deixa mais de cem vezes:
   - É o sistema...
Sim, nada a fazer contra isso. O sistema ordena e regula, sem o sistema não há disciplina. O sistema é cruel: a senha seguinte é da rapariga das unhas cor-de-rosa. Toda ela mel com a funcionária. Afasto-me, em derrota, passo pela sósia de Maria Callas, que ainda espera os aplausos, meio irritada com aquele público ingrato. E lá longe, submerso num laboratório, um vírus mutante sonha com a liberdade.

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Sexta-feira, 16.03.12

O perdão é uma ideia difícil

Compreendo os hipócritas, que não perdoam a quem nunca os ofendeu. Conheci um, que se dizia cristão e frequentava missa. Nas horas livres, passava pela igreja e rezava. Fatinho justo, usava um gel no cabelo a denunciar a vaidade. Trazia na cara o pecado do orgulho, que é o mais complexo de todos, porque exige do pecador que se sinta acima dos homens e algures entre estes e Deus, que no seu pensamento está acima de tudo o resto. Pois em certo dia que entrara na igreja antiga para saborear a frescura do interior, passeou os olhos pelas decorações barrocas e sentou-se a contemplar o altar em talha dourada, pensando nos seus problemas, que eram mais ambições do que outra coisa. A existência tem alguma crueldade para com os ambiciosos, já que nunca são saciados, como acontece com aqueles que andam no deserto, sonhando com fontes frescas, regatos límpidos, sonhando com um rio lento, jardins e palácios, algo que fica sempre longe.
Pois antes de entrar na igreja este homem tinha o pensamento à solta. Sonhava com situações do passado, e então surgiu-lhe uma memória mal digerida, que até aí não soubera quanto o perturbava, e isso sucedeu ao passar por uma mulher feia, que tinha os dentes encavalitados e o corpo flácido; foi nesse momento casual que rebentou o caudal de recordações que conseguira suprimir durante vinte anos e sentiu-se esmagado por uma culpa que nunca antes sentira: aquela rapariga que o amara tanto e que ele desprezara como se despreza um cão, perdera-lhe o rasto, que teria feito na vida? E pensou, ainda com mais força: foi aí que falhei.
Ao sentar-se na igreja, a observar a altura do tecto, este homem cujo nome não interessa desabotoou o casaco do fato e desapertou o nó da gravata. De súbito, sentia uma angústia: não ouvira os conselhos do seu pai e sempre se pensara superior aos outros. As palavras agrestes que dirigira, a ingratidão e os amigos perdidos, um casamento de interesse e sem amor, os filhos que não gostavam dele, o trabalho onde se refugiava. E a nave da igreja abriu-se sob os seus pés, num abismo, num vazio. A vertigem assustou-o e pareceu flutuar numa espécie de morte em vida.
Na realidade, ficou sem fôlego por pouco tempo. Os sentidos reanimaram depressa e recompôs-se em segundos. Tinha explicação para tudo. Lembrou-se da sua preocupação humanista, ao romper aquele noivado que agora saía do nevoeiro. Sim, tivera todo o cuidado em dizer palavras, não se podia afirmar que fossem bondosas, mas foram suaves e tranquilas. Sim, era isso, transmitira à rapariga uma certa segurança, de que também ela teria um dia alguém que a amasse como ela certamente o amava a ele. Convenceu-se de que fora assim dito e que a jovem tivera em seguida boas oportunidades para a sua própria felicidade. A relação entre os dois teria sido impossível, e quanto às palavras agrestes e aos amigos que nunca tivera, isso devia-se às invejas. Era um homem muito invejado. E não havia um lugar na obra divina para os que tinham sucesso? Não era isto natural e até desejável, prova da existência do altíssimo? Hipnotizado pelo silêncio contemplativo que pairava, partiu dali para a construção de ideias mais elaboradas. Não lhe era possível perdoar os inferiores que lhe recordavam a todo o momento o acaso em que se baseava a sua influência; e nunca poderia perdoar aos que o oprimiam, as elites improdutivas que ocupavam o lugar que era dele por justiça. E como podia perdoar que não o amassem? Era impossível.


Saiu contente daquela reza íntima e cruzou-se comigo à porta da igreja. Sorria e cumprimentou-me, julgando que eu era um paroquiano. Perguntei-lhe:
   - Pacifica os demónios da alma, não é assim?
   - Ficamos prontos para mais um dia – disse ele.
   - E perdoou a quem o ofendeu?
Ele hesitou com esta minha segunda pergunta. De súbito, ficou desconfiado. Não, eu não era um paroquiano, não era um sacerdote que abordava os cristãos, era sim um louco. Respondeu de forma agreste:
   - Que impertinência, meta-se na sua vida.
   - Os demónios continuam a ganhar - disse-lhe eu.
O homem ficou de repente muito vermelho, percebeu-se a sua fúria, fez um gesto na minha direcção, para me renegar, e seguiu caminho, em passo rápido. E pressenti o que ele pensava: sucesso é fogo-fátuo, o poder não passa de ilusão.
E, depois, a pergunta, tão obsessiva como aquelas melodias que não saem da cabeça: Onde é que falhei?

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Quarta-feira, 14.03.12

A Baixa

A Baixa é o coração onde todo o oxigénio se mistura, mas para muita gente funciona apenas como ponto de passagem. Os habitantes sazonais são diferentes uns dos outros: há burgueses e funcionários, homens de gravata, mulheres de salto alto; trabalhadores do comércio; manadas de turistas queimados pelo sol; imigrantes de vários povos; jovens ruidosos; velhinhos levando sacos, ajoujados; polícias desatentos; o banqueiro a sair do mercedes que parou em frente ao banco; um empregado que esvoaça na esplanada, equilibrando a bandeja. A Baixa parece um monumento. Mas ali também vivem pessoas, embora sejam poucas, como se vê depois do crepúsculo, quando a escuridão muda a paisagem; então, surgem umas luzinhas fracas nas mansardas e temos um vislumbre das pobres vidas do topo; procurem um ponto ainda mais alto e poderão observar a raridade das habitações funcionais desta parte do casario; há por ali velhos solitários, alguns dos quais surgem por vezes às janelas para alimentar pombos ou regar vasos, camisola de alças, ventres largos, desmazelo. A pobreza torna-se evidente quando olhamos com cuidado. Nas lojas, estes habitantes pagam com notas amarrotadas que tiram de um porta-moedas gasto; as suas roupas estão coçadas e os sapatos sofreram reparações múltiplas; as mulheres não vão ao cabeleireiro, o que não significa que não tenham a sua vaidade ocasional: pó-de-arroz excessivo para esconder a pele emaciada, olhos já sem brilho. Vejam estes telhados de padrões vermelhos, como se repetem, parecendo mais belos à distância, como aliás acontece com as pessoas, como são elegantes numa visão míope e tão feias vistas de perto. Ou talvez essa seja outra ilusão cruel: os detalhes do mundo são intricados e parecem até algo desagradáveis na sua complexidade e por isso imaginamos que uma visão de águia deva conter a máxima beleza e o ponto de vista de quem rasteja será o mais desalmado. Mas é o nosso preconceito de invejarmos a liberdade de quem voa e desprezarmos quem não sai do solo. Vejam as cores desta cidade quando o sol brilha. Ocre, verde em vários tons, o vermelho dos telhados, alguns reflexos do azul (no rio, no céu), uma espécie de cor de terra rica em argila e ainda tons diferentes de cinza granítica e brancos fulgurantes. Depois, vejam a multidão sem a qual nada disto faria sentido e seria apenas pedra sobre pedra. O rosado da pele humana, a cor mais difícil de descrever (precisa de uns toques de verde quase amarelado, rosa, carmim e um toquezinho de azul, depois muito branco, e não ficará perfeito, pois há todas as cores de pele, umas ainda mais brancas, outras acastanhadas, até ao muito escuro. Depois, as muitas línguas que falam, a ciciar, a chicotear, a gargarejar, do murmúrio até ao grito. Ah, o que estes corpos viram da vida, como foram jovens também e repletos de sonhos! Uns sonharam em partir e ficaram, outros em amar e choraram. Todos tiveram desejos, pois viver é desejar. Na recta final, quando se olha para trás, é o acerto de contas feito com o destino: no porta-moedas antigo, só restam algumas notas amarrotadas. E lá vamos, ajoujados, carregando as memórias num saco que cada vez mais nos custa a levar.

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Quinta-feira, 09.02.12

Ângela da guarda observa pessoas a comer

Desceu às catacumbas e havia um átrio longo com mesas a todo o comprimento. As mesas eram brancas e o tecto baixo amplificava o barulho. O local era um vasto refeitório interior, igual aos das grandes fábricas, mas este na cave de um edifício de escritórios e acesso democrático. O mapa de evacuação dos bombeiros dizia “zona de restauração”. Dos lados da parede, fileiras de cubículos, cada um ricamente decorado com letras coloridas; todos diferentes, bem iluminados: eram as vendas da comida, como se fossem tabernas em torno de uma praça com a feira ao centro. Roma seria assim, só que as multidões comiam na rua. Sentou-se numa mesa, a um dos cantos, para poder ver como se estivesse no anfiteatro. Mas não trouxera comida consigo. A mesa branca estava vazia e isso era contra as regras, pois quem passava olhava para ela, alguns com severidade; os que se sentavam traziam um tabuleiro e sustentavam um prato. Queria explicar-lhes: procuro a minha identidade e não consegui escolher a comida e, de qualquer forma, não trouxe dinheiro. Estou aqui para aprender.
Com cérebro de velho e corpo de rapariga formulou a seguinte frase no interior do seu pensamento: “se o dinheiro parasse, estariam perdidos”.


Estava calor, não tirara o casaco, descontraiu-se e sentou-se com conforto na cadeira de plástico, atingida por uma tenra sonolência. O seu traseiro, aliás, deslizava um pouco e descaía (ainda não se habituara ao corpo), e teve de sentar-se mais direita, o que a acordou para o exterior. Observou as mandíbulas que esmagavam comidas suaves e cheias de molhos gordos que as pessoas pareciam achar deliciosos, pois algumas sujavam os dedos e lambiam-se o mais discretamente possível para absorver toda aquela delícia. E a princípio comiam sem abrir muito a boca, mas logo um prazer as saciava e ficavam faladoras e falavam com a boca cheia e via-se em cada boca a massa mais uniforme da comida que as suas mandíbulas esmagavam e trituravam e misturavam. Os lábios, à volta, luziam da gordura.
Todos se observavam uns aos outros, pois nas mesas corridas sentavam-se lado a lado desconhecidos. As mulheres comiam saladas e sopas, os homens tinham paladares robustos e a pouco e pouco instalou-se uma barafunda de conversas e grupos animados; mas os grupos grandes eram raros. A maioria dos habitantes da zona de restauração viajava sozinha ou com mais um parceiro ou mais dois. Sucediam-se as vagas de comensais mais apressados, burocratas, consultores, advogados, financeiros, seguradores, e espantou-se de quantas pessoas podiam viver só de darem conselhos uns aos outros. Formou-se na sua cabeça outra fase clara: “É magnífico este mundo” e esse pensamento tão simples encheu-a primeiro de felicidade, pois sentiu que já não sonhava, que vivia de novo; depois, surgiu a inquietude, pois a frase em si, o conteúdo, já não lhe parecia tão apropriado, pelo contrário, sem que o soubesse formular, havia problemas de construção de até de raiz, e ficou ali em pensamentos circulares, num impasse.


Quando se acalmou, decidiu absorver toda a informação sem formular conclusões apressadas. E porque não existe gesto mais autêntico do que mastigar, ficou ali sentada umas horas em busca da verdade. Exige esforço fingir que não se gosta de uma comida; e, distraído com o seu prato, o humano tem a maior dificuldade em mentir. Tirou do casaco o bloco de notas que lhe dera Jeremias e, com esforço intenso, decidiu anotar o que de mais importante observava. A letra ainda lhe tremia. Quando tentava escrever a palavra palavra, deu-se um pequeno incidente ambíguo. A seu lado, tinham-se sentado três rapazes jovens, que enquanto comiam e conversavam, a tinham observado todo o tempo. A certo ponto, estavam a falar de raparigas, mas em voz demasiado alta, e um deles (terá sido de propósito?) disse de repente “mas essa é maluca” e olhou na sua direcção. Aliás, os três rapazes olharam todos na sua direcção em simultâneo e uníssono, talvez com curiosidade, só para testarem o que iria fazer.
Formou-se então, no frágil gelo do seu pensamento, uma nova ideia nítida e escreveu-a imediatamente no bloco: “Isto é parcialmente a realidade e a outra parte o delírio de quem não acorda”.


 

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Quarta-feira, 08.02.12

Cais das colunas

Li a seguinte frase no livro de um grande escritor: “O Sol avançava para ocidente”. Tal e qual, como se pudesse ser de outra forma. Mas a frase não era banalidade, só vinha incompleta, pois havia todo um universo naquele movimento, a soma das tragédias humanas contidas num único dia. Esmagado pela tarefa de narrar algo de tão enorme, o autor limitara-se a colocar uma pequena etiqueta. Também sou assim e isto é o máximo que consigo dizer a toda a gente: “Vejam, o sol avança para Ocidente”.
Inclino-me no parapeito e olho o rio. O Tejo preguiça em frente a Lisboa, espalha-se em homenagem azul pela grande planície. A sua água está sempre suja, mas certas marés trazem plásticos e restos que se acumulam junto à parede, formando galáxias de detritos unidos por óleos escuros. Vejo um peixe morto a boiar. Que outra coisa pode um peixe morto fazer na água, senão boiar? A luz dilui-se na cinza e sopra um vento um pouco mais frio. O cais é antigo e está cheio de gente à hora do pôr-do-sol. Daqui podemos ver os apressados que vão apanhar o barco para o lado oposto. A esta hora, as gaivotas esvoaçam e falam umas com as outras, numa algazarra, mas as pessoas ficam pensativas. Invade-nos a melancolia.


Vejam este homem baixo e gordo, que tenta fechar o casaco demasiado estreito: pensa numa dívida que não pode pagar, faz contas e contas, recria cenários, mas não pode pagar e suspira; àquele outro ocorrem pensamentos confusos sobre o mal que fez a um vizinho; foi há mais de dois anos e o vizinho nunca soube, mas o assunto persiste como chuva miudinha e pegajosa. Tanta incerteza, sobre as vidas que tivemos, as promessas por cumprir, as palavras que desperdiçámos. Estão a ver aquele homem ali, o mulato? Pensa que foi cobarde por não enfrentar quem o atormentou; anda nesta amargura há três dias; aconteceu numa discussão no café do bairro, no domingo passado, por motivo trivial de clubes de futebol; e nem imagina que fez bem em não responder, pois quem o insultava, homem de maus fígados, tinha uma faca escondida, que teria usado contra aquela vítima, como certamente usará mais tarde cravando-a no corpo de outro inocente, talvez naquele mesmo café. O facínora irá para a prisão sem remorsos, mas dá para meditar: na vida, não há senão acasos, alguém que se salvou condenou outro.
Estes sussurros misturam-se como num sonho; aquele homem, que está ao lado do turista, pensa seriamente na anedota que lhe contaram nessa mesma manhã e que o fez rir às gargalhadas; ora, como era a sequência exacta? Havia um burro e um barco e tudo convergia numa frase que era de determinada forma que não recorda e que tenta desesperadamente reconstruir. De súbito, abre-se a ferida, e o homem sangra num único instante; o burro era ele, havia uma subtil alusão; no fundo, pensam que é estúpido, riem-se nas suas costas. E que dizer desta mulher que está a pensar no filho que a despreza? Vejam a sua tristeza, mas mesmo que chore, o que é mais uma lágrima? O de fato e gravata está mais ou menos feliz, mas não sabe bem se mais ou se menos; tomou uma decisão lá no escritório, mas só saberá daqui a um mês se foi a certa; entretanto acende um cigarro, vê-se que está inquieto; assim ficará durante um mês, com aquela nuvem a pesar na consciência. E os dois namoradinhos? Caso curioso, que parece paixão; ele imagina que encontrou a mulher ideal; ela pensa num outro rapaz, mas este que agora a abraça ainda não sabe, saberá mais tarde, o que o tornará menos ingénuo. Neste cais há rumores, pequenas ondulações, movimentos da água. O sol ocultou-se a ocidente. Ali está mais uma mulher triste, pois pensa na tia solteira e velha que deixou a apodrecer num lar barato para idosos; a recordação deixa-a cheia de vergonha. E há motivo para isso? Não tem culpa de ser a única sobrinha que se preocupou, mas a tia chora imenso, quando ela a vai visitar, de quinze em quinze dias. E ambas estão muito sozinhas. Não estamos todos?

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Sexta-feira, 03.02.12

Jeremias explica o que pretende

Desejo falar por aqueles cuja existência foi uma acumulação de pequenas crueldades sofridas, dos que sentem a grande circulação das traições e dos acontecimentos insignificantes que preenchem a nossa curta passagem pela vida. Falo para guardar a tralha desnecessária do que recordo. Guardar o que puder, mesmo que pareça armazenar inutilidades que vão acumulando poeira lunar. No fundo, interessa-me que as lembranças sejam uma espécie de lixo. E chegam criaturas imaginárias do pensamento à procura, nos caixotes, de alguma coisa que se possa aproveitar. E o estranho é quando encontram uso para o que alguém atirou fora. Estes fantasmas têm o seu próprio lixo, de que não precisam mais e que podem largar, como lastro num balão. E assim sucessivamente, alguém procura a utilidade do lixo do lixo, em sequência que separa e degrada, que transforma e reduz. Até que da memória límpida não reste senão uma centelha.
O que busca o pintor na natureza morta? Talvez a forma, a fuga da luz, uma cor bizarra, ou algo de universal que não pode estar ali, pois que é a disposição aleatória de objectos inanimados. Eu procuro a natureza morta das almas, o que é fugaz e sincero, uniforme e brusco, tudo o que é enigmático e transitório nos seres humanos.


Embora julguem que sou doido, digo que cada um é único. Que não há diferença entre o valor grande e o valor pequeno, pois que o infinito torna toda a glória insignificante, e respondem que isso é absurdo, que o importante é triunfar e ganhar dinheiro e persegui-lo até que seja ele a ditar o que fazemos, que é ganhar ainda mais dinheiro e deixar que ele dite ainda mais a nossa existência. Areias movediças: cada movimento prende-nos mais ao solo, aperta-nos o corpo e empurra-nos para baixo. E assim é o mundo. Todos os que te devoram serão devorados. Os poderosos e os hipócritas, os ricos e os vaidosos, os roídos pela inveja e os que ambicionam tudo o que não possuem, desprezando tudo o que têm. No espelho a imagem do outro, todos os seus defeitos no outro.
Procuro os homens infelizes, desnecessários, o lixo do lixo. A fila dos desempregados, os que procuram sexo pago, os jogadores da bolsa, a venda de braços, o cansaço à boca do metro, um frio que entra pelos casacos, a buzina do carro apressado, os semáforos avariados e todos avançam, os que saem do cinema ainda a esfregar os olhos incrédulos da fantasia barata, a mulher bonita que passa sem olhar, o vendedor que espera a clientela, um cauteleiro desdentado, o pombo morto junto ao passeio, a luz que se acende na suite do hotel, o conhecido banqueiro com motorista a bordo do jaguar, a mulher gorda que olha para trás, para me ver a mim, com ar de repugnância. O vento assobia, fim de tarde, começa o frio, existe uma fadiga à solta a esta hora do dia.


A maioria ignora-me, nem repara. Para os que olham sou um alucinado, que agita os braços, que fala de forma insensata, que faz avisos tolos. E perguntam: que é isto?
A fachada das nossas almas é triste, quando nos passeamos nestas ruas frias de Fevereiro. Este é o rio lento da minha cidade, um rio que não chega ao mar.

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publicado por Luís Naves às 20:40 | link do post | comentar

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