Ângela da guarda observa pessoas a comer

Desceu às catacumbas e havia um átrio longo com mesas a todo o comprimento. As mesas eram brancas e o tecto baixo amplificava o barulho. O local era um vasto refeitório interior, igual aos das grandes fábricas, mas este na cave de um edifício de escritórios e acesso democrático. O mapa de evacuação dos bombeiros dizia “zona de restauração”. Dos lados da parede, fileiras de cubículos, cada um ricamente decorado com letras coloridas; todos diferentes, bem iluminados: eram as vendas da comida, como se fossem tabernas em torno de uma praça com a feira ao centro. Roma seria assim, só que as multidões comiam na rua. Sentou-se numa mesa, a um dos cantos, para poder ver como se estivesse no anfiteatro. Mas não trouxera comida consigo. A mesa branca estava vazia e isso era contra as regras, pois quem passava olhava para ela, alguns com severidade; os que se sentavam traziam um tabuleiro e sustentavam um prato. Queria explicar-lhes: procuro a minha identidade e não consegui escolher a comida e, de qualquer forma, não trouxe dinheiro. Estou aqui para aprender.
Com cérebro de velho e corpo de rapariga formulou a seguinte frase no interior do seu pensamento: “se o dinheiro parasse, estariam perdidos”.


Estava calor, não tirara o casaco, descontraiu-se e sentou-se com conforto na cadeira de plástico, atingida por uma tenra sonolência. O seu traseiro, aliás, deslizava um pouco e descaía (ainda não se habituara ao corpo), e teve de sentar-se mais direita, o que a acordou para o exterior. Observou as mandíbulas que esmagavam comidas suaves e cheias de molhos gordos que as pessoas pareciam achar deliciosos, pois algumas sujavam os dedos e lambiam-se o mais discretamente possível para absorver toda aquela delícia. E a princípio comiam sem abrir muito a boca, mas logo um prazer as saciava e ficavam faladoras e falavam com a boca cheia e via-se em cada boca a massa mais uniforme da comida que as suas mandíbulas esmagavam e trituravam e misturavam. Os lábios, à volta, luziam da gordura.
Todos se observavam uns aos outros, pois nas mesas corridas sentavam-se lado a lado desconhecidos. As mulheres comiam saladas e sopas, os homens tinham paladares robustos e a pouco e pouco instalou-se uma barafunda de conversas e grupos animados; mas os grupos grandes eram raros. A maioria dos habitantes da zona de restauração viajava sozinha ou com mais um parceiro ou mais dois. Sucediam-se as vagas de comensais mais apressados, burocratas, consultores, advogados, financeiros, seguradores, e espantou-se de quantas pessoas podiam viver só de darem conselhos uns aos outros. Formou-se na sua cabeça outra fase clara: “É magnífico este mundo” e esse pensamento tão simples encheu-a primeiro de felicidade, pois sentiu que já não sonhava, que vivia de novo; depois, surgiu a inquietude, pois a frase em si, o conteúdo, já não lhe parecia tão apropriado, pelo contrário, sem que o soubesse formular, havia problemas de construção de até de raiz, e ficou ali em pensamentos circulares, num impasse.


Quando se acalmou, decidiu absorver toda a informação sem formular conclusões apressadas. E porque não existe gesto mais autêntico do que mastigar, ficou ali sentada umas horas em busca da verdade. Exige esforço fingir que não se gosta de uma comida; e, distraído com o seu prato, o humano tem a maior dificuldade em mentir. Tirou do casaco o bloco de notas que lhe dera Jeremias e, com esforço intenso, decidiu anotar o que de mais importante observava. A letra ainda lhe tremia. Quando tentava escrever a palavra palavra, deu-se um pequeno incidente ambíguo. A seu lado, tinham-se sentado três rapazes jovens, que enquanto comiam e conversavam, a tinham observado todo o tempo. A certo ponto, estavam a falar de raparigas, mas em voz demasiado alta, e um deles (terá sido de propósito?) disse de repente “mas essa é maluca” e olhou na sua direcção. Aliás, os três rapazes olharam todos na sua direcção em simultâneo e uníssono, talvez com curiosidade, só para testarem o que iria fazer.
Formou-se então, no frágil gelo do seu pensamento, uma nova ideia nítida e escreveu-a imediatamente no bloco: “Isto é parcialmente a realidade e a outra parte o delírio de quem não acorda”.


 

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publicado por Luís Naves às 19:55 | link do post