Secção de xadrez

A derrota faz parte da minha vida, mesmo da romanceada. Passo a explicar: não sendo desportista capaz de enfrentar sofrimentos físicos, mas desejando imenso fazer parte de qualquer coisa, inscrevi-me na equipa de xadrez do Estrela, que era um clube operário entretanto falido (como acontece ocasionalmente aos clubes operários). O núcleo de xadrez era competitivo e juntei-me a um grupo de ambiciosos atletas de palmo e meio. Seria breve, essa minha carreira.
O meu problema foi sempre a memória, sobretudo conseguir decorar mnemónicas; ainda hoje tenho problemas na tabuada dos nove, mas sobretudo na dos sete. No que respeita ao xadrez, há sequências de jogadas que os mestres já testaram sob todos os pontos de vista e que fazem avançar o jogo. Não vale a pena estar a inventar; a um determinado movimento do adversário, segue-se uma jogada previsível e assim sucessivamente até chegarmos ao âmago do conflito, onde ocorrem as divergências. Essa parte fácil tem de sair com fluidez, para não se perder tempo, mas no meu caso tornou-se um horror.


Dou outro exemplo. A minha avó, a certa altura (isto passou-se na aldeia) achou que eu daria um excelente menino de coro e entregou-me às aulas de catequese do padre Aníbal, da Graça, que ela própria definia como padre animal, para sublinhar o aspecto grunho e pouco polido do sacerdote. E lá tive uma derrota assinalável, levando com uma cana no topo do crânio por pecado de distracção infantil (fui castigado, portanto deve ser pecado). Como não me conseguia lembrar das ladainhas, a ponto de ainda hoje sentir dificuldade extrema em recitar o padre nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome e a partir daqui só sei a música, que é mmmmmm-mmmm-mmm, o facto é que chumbei na catequese, o que deve ser um caso bastante raro; e garanto que não foi negligência da minha parte, houve até certa aplicação de estudo, mas não me entravam aqueles mistérios, nem pareciam ter grande sentido lógico, pelo que optei pela estratégia de decorar as rezas, à maneira das madrassas, fracassando famosamente neste meu plano.
E assim foi no xadrez. Como não conseguia decorar as sequências de jogadas, e apesar da minha habilidade estratégica em perseguir o rei adversário, era sempre penalizado por um erro de palmatória, daqueles muito simples, de expor um bispo à gula de uma rainha, e já sabemos como elas são gulosas, tema que reservo para um capítulo posterior. Assim ficou muito ligada à minha infância a ideia da derrota e do total fracasso e da falta de talento e mesmo ausência absoluta de vocação. Falhei no xadrez e na catequese, viria também a falhar no piano, nunca fui atleta, mas ainda hoje sinto admiração quando vejo dois mestres em duelo mental e fascina-me aquele gesto abrupto de carregar no botão do relógio, para congelar o tempo. Isso sim, é desporto.

publicado por Luís Naves às 19:09 | link do post