Em que estaria a pensar Beethoven?

Fiquei a detestar o Für Elise. Em que estaria a pensar Beethoven quando escreveu aquela pirosa bagatela? Certamente em paisagens amorosas, arrebatamentos e exaltações, mas ocorrem-me apenas monótonas insistências.
Os meus finos dedos infantis não suportavam o peso das teclas e a minha mão era demasiado pequena para as amplitudes, mas o pior eram os acordes, conseguir manter um ritmo que permitisse à melodia ser inteligível. Lembrar aquilo tudo. Ainda hoje me faz confusão olhar para um piano e para uma pauta de música. Não conseguia descodificar aqueles símbolos suficientemente depressa e admira-me que haja pessoas que leiam pautas como quem devora romances.
A professora de piano chamava-se Odete e era uma de duas irmãs quase iguais, que pareciam tias-avós solteiras, bebedoras de chá, friorentas e caladas. Odete era simpática e paciente, tendo em conta a minha notória incapacidade. Explicava o solfejo com o dedo no ar a conduzir o ritmo ausente.

Nunca consegui tocar o Für Elise, mas gosto de trautear a musiquinha em estilo de jazz. Já tinha dificuldade nas leituras com letras latinas, mas procurei sempre queimar etapas. Ia pelos bonecos e tentava em vão esconder a dislexia. Ora, o método dos bonecos era improvável em questões musicais. O insucesso escolar prolongou-se durante anos, depois fracassei na carreira militar, fiquei aquém do potencial nos amores, mas tudo isso vem numas páginas mais à frente e não cabe nesta parte da autobiografia romanceada.


Naquele tempo, a vida era serena e decorria com felicidade alheada. Os problemas seriam numerosos, mas para uma criança esses eram universos distantes. Julgo que ainda não havia alterações climáticas, pois lembro-me sempre de fazer bom tempo. A luz era mais luminosa e o vento soprava como veludo. Os jornais e a televisão eram a preto e branco, as histórias simples vinham em fotonovelas e envolviam sempre amores contrariados, havia quem telefonasse para a rádio a pedir os êxitos do momento (sempre as mesmas canções românticas). E cresciam labirínticas cidades suburbanas para acolher as famílias da classe média, que nesse tempo ainda tinham criadas.
E as memória fluem em catadupa: lembro-me de uma criada que se chamava Hilda, que na nossa terra é um nome pouco vulgar, mas a rapariga também era pouco vulgar. Rapariga? Agora, que penso nisso, já deve ser avó.

publicado por Luís Naves às 12:13 | link do post