Visitas importantes

A minha escola primária recebeu a visita do presidente. Ele chegou num carro escuro e era um senhor de fato  preto e cabeça branca, careca no topo; tinha uma careca muito polida que o sol abrasador foi avermelhando devagar. O presidente vinha rodeado de seguranças e bajuladores; era um homem atarracado e volumoso, que dava passos extremamente curtos. A viatura seria bentley ou rolls royce, não sei, havendo aqui um pequeno espaço de especulação. Estava de certo modo habituado a ver banheiras escuras formidáveis, de tecnologia mercedes, mas nunca antes vira uma com aquela elegância britânica. Os alunos da escola tinham sido colocados em duas filas e a viatura deslizou com suavidade entre a guarda de honra, como se levitasse à maneira dos veleiros.

Tinham-nos dado bandeirinhas nacionais e agitei a minha com patriotismo, mas o presidente saiu do carro sem me ver, aliás, com olhos só para as autoridades, que saudou com o seu ar enfastiado; ou talvez essa ideia seja posterior, como as memórias nos enganam, e ele até saltara da viatura disposto a cumprimentar com entusiasmo todas as almas que também o saudaram na ocasião; fica para a História a impressão errada, portanto, já que este parágrafo será o único relato que resta do evento; resta-me a sensação de que o presidente não era um homem popular e essa foi a minha primeira impressão política, ou também se trata de ideia posterior, uma partida que me pregou a passagem do tempo; permanece apesar de tudo a memória opinativa de ter vivido um momento histórico; o presidente visitava a minha escola, suburbana e pobre, e era a primeira vez que via ao vivo e a cores uma pessoa que antes conhecera na televisão a preto e branco.

 

Mas nisso de conhecer celebridades, o meu momento de glória foi a visita do guarda-redes Damas, do sporting, que veio à minha escola, enfim, pelo menos às redondezas, mais ou menos na altura do presidente, e ali permaneceu um bocado de tempo, para grande espanto da miudagem que observou o gigante, o qual ficou ali tão sereno como quando estava entre os postes. Ele era um homem a sério, pareceu-me, e ainda hoje penso que corresponde à minha imagem de homem a sério, ao contrário do presidente, que como já disse, e não tendo eu pretensões a possuir credenciais de precocidade política, me pareceu meio atarracado e sem talento para guardar um país, quanto mais uma baliza.

publicado por Luís Naves às 17:43 | link do post