A Baixa

A Baixa é o coração onde todo o oxigénio se mistura, mas para muita gente funciona apenas como ponto de passagem. Os habitantes sazonais são diferentes uns dos outros: há burgueses e funcionários, homens de gravata, mulheres de salto alto; trabalhadores do comércio; manadas de turistas queimados pelo sol; imigrantes de vários povos; jovens ruidosos; velhinhos levando sacos, ajoujados; polícias desatentos; o banqueiro a sair do mercedes que parou em frente ao banco; um empregado que esvoaça na esplanada, equilibrando a bandeja. A Baixa parece um monumento. Mas ali também vivem pessoas, embora sejam poucas, como se vê depois do crepúsculo, quando a escuridão muda a paisagem; então, surgem umas luzinhas fracas nas mansardas e temos um vislumbre das pobres vidas do topo; procurem um ponto ainda mais alto e poderão observar a raridade das habitações funcionais desta parte do casario; há por ali velhos solitários, alguns dos quais surgem por vezes às janelas para alimentar pombos ou regar vasos, camisola de alças, ventres largos, desmazelo. A pobreza torna-se evidente quando olhamos com cuidado. Nas lojas, estes habitantes pagam com notas amarrotadas que tiram de um porta-moedas gasto; as suas roupas estão coçadas e os sapatos sofreram reparações múltiplas; as mulheres não vão ao cabeleireiro, o que não significa que não tenham a sua vaidade ocasional: pó-de-arroz excessivo para esconder a pele emaciada, olhos já sem brilho. Vejam estes telhados de padrões vermelhos, como se repetem, parecendo mais belos à distância, como aliás acontece com as pessoas, como são elegantes numa visão míope e tão feias vistas de perto. Ou talvez essa seja outra ilusão cruel: os detalhes do mundo são intricados e parecem até algo desagradáveis na sua complexidade e por isso imaginamos que uma visão de águia deva conter a máxima beleza e o ponto de vista de quem rasteja será o mais desalmado. Mas é o nosso preconceito de invejarmos a liberdade de quem voa e desprezarmos quem não sai do solo. Vejam as cores desta cidade quando o sol brilha. Ocre, verde em vários tons, o vermelho dos telhados, alguns reflexos do azul (no rio, no céu), uma espécie de cor de terra rica em argila e ainda tons diferentes de cinza granítica e brancos fulgurantes. Depois, vejam a multidão sem a qual nada disto faria sentido e seria apenas pedra sobre pedra. O rosado da pele humana, a cor mais difícil de descrever (precisa de uns toques de verde quase amarelado, rosa, carmim e um toquezinho de azul, depois muito branco, e não ficará perfeito, pois há todas as cores de pele, umas ainda mais brancas, outras acastanhadas, até ao muito escuro. Depois, as muitas línguas que falam, a ciciar, a chicotear, a gargarejar, do murmúrio até ao grito. Ah, o que estes corpos viram da vida, como foram jovens também e repletos de sonhos! Uns sonharam em partir e ficaram, outros em amar e choraram. Todos tiveram desejos, pois viver é desejar. Na recta final, quando se olha para trás, é o acerto de contas feito com o destino: no porta-moedas antigo, só restam algumas notas amarrotadas. E lá vamos, ajoujados, carregando as memórias num saco que cada vez mais nos custa a levar.

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publicado por Luís Naves às 19:10 | link do post