Crónica do Toca-Toca

O riso de Amadou Baldé foi a primeira impressão que tive dele. Um riso de tal forma sincero que fazia da Guiné, na aparência, a terra mais feliz do mundo. O motorista era uma daquelas pessoas que riem com facilidade, por tudo e por nada, com alegria tão visível que podia servir para ilustrar um postal, dos que fixam a recordação de breves paraísos. Mas, naquele domingo de manhã, na paragem de Brá, o sorriso de Amadou desaparecera. No seu olhar surgira a velatura da preocupação.
A paragem é uma espécie de centro de transportes que fica num espaço vazio, entre a mesquita e a embaixada da Rússia, hoje semi-arruinada, junto ao Poilão de Brá, local simbólico para os habitantes de Bissau. Durante o levantamento de 98, esta zona ficava na Linha da Frente, área difusa, em forma de arco, que atravessava a parte mais elevada da cidade, sensivelmente a meio caminho entre a base aérea, onde estavam os rebeldes da Junta Militar, e o centro, onde resistiam os fiéis do Presidente Nino Vieira e os seus aliados de Conacri e  do Senegal. Ali ocorreram os combates mais violentos entre as duas forças.
Estas memórias dolorosas reapareciam no espírito das pessoas que, como Amadou, vieram até à paragem no dia 4 de Abril. Na véspera, o taxista tentara tirar de Bissau a sua filha de quatro anos e as restantes crianças da família próxima. A tentativa fracassou, não por falta de dinheiro, mas por falta de transporte. O objectivo era levar as crianças para a segurança da horta dos avós, em Bambadinca. Os preços tinham duplicado e um bilhete de saída custava agora 1250 francos CFA por cabeça, cerca de dois euros. Mas no centro de camionagem não havia carros. Quase sentia, ao meu lado, as dúvidas deste homem: ao volante do seu táxi azul, podia esquecer os dois jornalistas, embarcar as crianças e ir ele próprio levá-las para a segurança de Bambadinca; mas o aluguer do toca-toca (este é o nome popular dos táxis de Bissau) fora uma sorte imprevista; Amadou Baldé não teria dinheiro para mandar transportar as crianças se não andasse connosco há uma semana.

 

Preferi este toca-toca em particular por causa do sorriso do motorista, ou talvez esta seja uma explicação posterior, para não atribuir a escolha ao acaso. Amadou (os bons muçulmanos são geralmente honestos e trabalhadores), chegava sempre à hora combinada e tinha um preço conveniente, 30 mil CFA, o custo de transformar o seu transporte público em táxi convencional, alugado ao dia. Era divertido passear nas ruas de Bissau, a 20 à hora, no velho Mercedes decrépito (quantas ruas de Lisboa também teria atravessado este carro), enquanto os transeuntes faziam sinais de paragem. Parecia que nos saudavam. Amadou, muito aflito, respondia sempre com um outro sinal cabalístico, como se dissesse: «estou a fazer de táxi, não vos posso levar».
Durante alguns dias, pensei que 30 mil era muito dinheiro, até que Amadou explicou a sua economia doméstica. Nessa manhã, estávamos sentados, dentro do carro, à sombra de uma árvore, a ouvir a rádio e a conversar. Ele disse que metade da receita ia para o proprietário da viatura, um senegalês que tinha quatro táxis, sendo este o melhor da frota - apesar da bateria soluçante, a carroçaria entortada, os travões (talvez os tivesse), as teóricas molas dos assentos e o vidro da frente com um impacto de pedra que dava a sensação de estarmos num documentário sobre a Guerra do Líbano. Dos 15 mil que sobravam, Amadou tinha que comprar gasóleo (isto custava-lhe entre 8 e dez mil francos diários, conforme aquilo que andasse durante as dez ou onze horas de trabalho através das ruas crivadas de crateras lunares), mais os custos administrativos. O patrão, mecânico e empresário, ficava com as despesas de oficina. Ao motorista restavam dois ou três mil por dia, menos de cinco euros, apesar de tudo uma pequena fortuna. A única vantagem do negócio que Amadou Baldé fizera consistia em poupar no gasóleo. Se eu quisesse andar muito, estaria a reduzir o seu ganho quotidiano.


Pelo meu lado, tinha diversas vantagens. Um colega sugeriu que fizesse uma reportagem sobre a clientela que nos acenava. Cabia mais gente, conversava-se um pouco, contavam-se umas histórias. Mas o principal benefício era poder ver tudo o que se passava. O país tinha eleições; as coisas correram mal em Bissau e houve tumultos; os partidos realizavam comícios e os líderes davam entrevistas; havia dificuldades na contagem dos votos, era preciso descobrir as razões de tudo, as feridas do passado, as complexidades étnicas e políticas. O táxi levava-nos a todo o lado: aos bairros afastados (as covas que aquelas suspensões passaram!), às tabancas pobres; ao cemitério e à mesquita; pela noite dentro, na escuridão; através do grande mercado na boca de Bissau; a sítios com nomes estranhos, como Míssara ou Cundum; à casa de fulano. Sempre com a nuvem de poeira à volta, a dança dos mosquitos; no calor de purgatório, o cheiro denso do lixo a apodrecer nas ruas; entre a barafunda do tráfego e o baile dos peões (grande arte tauromáquica!). Nestes passeios, tínhamos o embalo da voz de António Yaya, a vedeta da Bombalom, que debitava o fragor das notícias pelo auto-rádio (Amadou parecia um engenheiro electrotécnico ao sintonizar o frágil aparelho, que largava fios para todo o lado; uma vez, durante uma pausa, chegou a esgotar a bateria do carro). Quando não tínhamos de empurrar o toca-toca, íamos directos ao assunto.

Os comícios finais da campanha eleitoral tinham sido uma festa. Milhares de pessoas circularam entre as diferentes assembleias. O brilho solar dava às multidões um colorido de feira e, quando aquela superfície humana se transformava em onda, movia-se ao ritmo dos batuques eléctricos das instalações sonoras, numa chinfrineira alucinada que todos aplaudiam, em riso geral. No momento em que os líderes subiam aos palanques, brotava um forte grito e o delírio tornava-se tão contagioso que se espalhava mesmo às caravanas dos adversários. Nesse dia, todos dançaram em conjunto.

A democracia deveria cumprir-se no domingo, 28 de Março, mas instalou-se a confusão. Em toda a Guiné, a votação decorreu com normalidade. No entanto, em Bissau, muitas urnas não chegaram a abrir; faltaram cadernos eleitorais, tinta indelével, responsáveis das mesas; os eleitores permaneceram nas filas durante algumas horas, cansados do calor, com fome, numa espera interminável. Ao fim da tarde, ansiosas, as pessoas organizaram-se em motins e logo surgiu o temor do sonho acabar em violência. As autoridades decidiram prolongar a votação por um dia e a repetição foi na terça-feira.
Apesar da segunda votação ter corrido razoavelmente bem, a situação agravou-se nos dias seguintes. A Guiné-Bissau é um país frágil, onde convivem numerosas etnias e diferentes religiões. O Estado, no fundo, não passa de uma invenção colonial portuguesa e se a história tivesse sido diferente talvez esta fosse uma zona de fronteira entre várias nações africanas mais viáveis (provavelmente uma dominado pelos Mandingas, outra pelos Fulas, com um pequeno enclave de etnia Balanta). Estas eram algumas das minhas especulações teóricas ao atravessar o Bandim, o enorme mercado que se desenvolve na avenida principal, no topo da colina onde termina a cidade velha. Bissau é interétnica, mas nem todos os bairros o são. Há zonas onde predominam os muçulmanos; existem vizinhanças onde os balantas são maioritários; e há também complexas relações económicas e grupos minoritários que sempre dependeram dos mais fortes. Isto ajuda a explicar os conflitos que abalaram o país nos últimos seis anos e que de tal forma destruíram o Estado que, nesses dias, à excepção da Igreja Católica, não ficou instituição de autoridade ou de apoio social acima da família alargada.

Mas esta realidade é de todo invisível. Amadou, um Fula, saudava por vezes os amigos, mas do exterior os táxis pareciam todos iguais, embora os mercedes modernos e artilhados tenham um azul ultramarino um tudo de nada mais escuro do que o tom de azul da prússia da vasta maioria dos modelos antiquados. Num cemitério de toca-tocas, parque de peças e de oficinas, nos confins do Quelelé, (os carros jaziam por ali, esventrados) a pintura nas carcaças tinha tanta poeira por cima que havia nela um efeito de azul extremamente claro e quase celestial.

Os partidos começaram a ficar nervosos quando, por causa da instabilidade política, foi decidido adiar a publicação dos resultados eleitorais. Cada dia que passava era um novo passo na direcção da violência. As pessoas estavam inquietas. Sabia-se que alguns dirigentes de um dos partidos perdedores, que não queriam perder as benesses ganhas em três anos de governo, ameaçavam desencadear um conflito semelhante aos que tinham abalado a Guiné durante o levantamento militar de 98 e, nos anos seguintes, de paralisação e declínio. Nesse tempo, sucederam-se rápidos episódios de liquidação política. Em cada novo golpe, enquanto os militares se matavam uns aos outros, a população civil pegava em pequenas trouxas e seguia aos magotes pela estrada, na direcção do interior.
O motorista também fugiu em 98, primeiro para Nhacra, pequena localidade dos arredores de Bissau onde se juntou imensa massa humana. Faltava comida e água. Foi das visões mais terríveis da minha vida: numa noite de tempestade, acumulara-se uma multidão que eu sabia estar ali, porque a ouvia, embora não a visse. Os refugiados não tinham luz de qualquer tipo, nem sequer havia velas de cera. A noite era um muro que emparedara aquela gente nas profundezas de uma catacumba. De repente, brilhou um relâmpago e vi, entre a sombra e a luz, a planície cheia de gente. A imagem durou menos de um segundo. Talvez Amadou estivesse ali, minúsculo ponto nos contornos mal definidos de um povo à deriva.
Esse passado não podia sair da memória. Na noite de quinta-feira, quando decorriam negociações entre os partidos e os militares para quebrar o impasse, a aflição do taxista tinha novo motivo: um perigo imediato. A mãe de Amadou adoecera e ele pediu uma hora para a levar ao hospital. Estava muito preocupado e, ao voltar, mostrou as receitas. A sua mãe tinha febre tifóide. Ele explicou que os remédios custavam mais de 15 mil francos CFA. Perguntei se queria dinheiro para os remédios. Hesitou e respondeu que não. Insisti, e ele disse que não.

Os dias seguintes passaram-se numa angústia crescente. A mãe de Amadou melhorou e até já se levantava. Mas a situação política estava cada vez mais perigosa. No domingo, perante os rumores desta ameaça, milhares de pessoas estavam na paragem a tentar apanhar transporte. Eram sobretudo mulheres e crianças, alguns idosos, todos com ar de grande urgência. A fuga seria a salvação daquelas almas, se estalasse uma nova guerra. Mas não havia carros. O único veículo disponível era uma carrinha modificada, com caixa traseira de bancos corridos, dispostos ao comprido. Encheu-se de sacos e mochilas e colchões e de gente, no meio de terrível gritaria, semelhante ao clamor de um incêndio. Apesar dos preços terem duplicado e até triplicado, cada carro que partia levava o dobro da lotação, o choro dos bebés misturado com o sufoco dos motores. Para trás, ficaram grupos desolados de gente. Amadou viu partir o derradeiro transporte com enorme tristeza no olhar, mas ficou calado.
Tinham passado cinco dias desde a repetição das eleições em Bissau. Nos bastidores do poder, as negociações prolongaram-se todo o fim-de-semana, sem aparente solução ou sequer um acordo temporário entre os partidos. A situação parecia desesperada no domingo de manhã, com aqueles primeiros sinais de êxodo e pânico. Mas quem estivesse na paragem de Brá, a essa hora, não poderia saber que os políticos já tinham encontrado uma saída para a crise. Os resultados eleitorais, finalmente aceites por todos, foram publicados nessa mesma tarde. A Guiné-Bissau podia entrar num novo ciclo.
O toca-toca parecia correr com mais alegria, rumo ao local onde iam anunciar a boa notícia. Rangia menos e negociava com maior habilidade os desfiladeiros no meio da estrada. Foi no momento em que ouvi de novo o riso de Amadou Baldé, muito feliz ao volante do seu táxi, que soube ser total o regresso à normalidade e, com alívio, percebi que tudo tinha terminado.

 

 

publicado por Luís Naves às 20:17 | link do post