Tudo se mistura

Este não é apenas o rio que se arrasta nas suas contradições contra-a-corrente, mas também a força selvagem, de mistura com a suave brutalidade dos homens civilizados. Está inundado de medo e hesitação, desumanidade e desistência, algumas cobardias e traições. Este não é apenas o rio que escorre, invisível, nas noites de angústia, mas igualmente o espectáculo de gente inquieta, pois tudo o que nos rodeia é fogo-fátuo, luzes artificiais e espuma de vidas imperfeitas. Vejo uma mágoa da matéria deslassada, a atmosfera sufocada, os dias cheios de pena, despedaçados. Brancura de cinza, paredes esfoladas como pele, os farrapos de algodão sujo nas nuvens cansadas, tão cheias de chuva que nada cai do céu. Este é o rio que acredita que o mundo é todo seu, feito de subtis mudanças, quando abranda junto à foz e chega à planície. Parece impossível, mas é ali que morre, ao espraiar-se na distância, e fica ali pasmado, como que num impasse da vontade, como se a terra abrisse os braços e engolisse aquela força toda, num gesto de falsa ternura.
Observo o rio das misérias precoces, dos prédios semi-abandonados. Creio que ali ainda vivem alguns velhos, escondidos como baratas atrás das paredes podres. Estamos a envelhecer. Somos cada vez mais numerosos, os que se escondem nos prédios decadentes e nas ruas desocupadas. Ninguém fala disso, porque nunca falamos verdadeiramente dos nossos problemas, sempre com as mesmas justificações pouco convincentes, que não passam de meias-mentiras, o mesmo que meias-verdades. As casas vazias são semelhantes a nós, esperam o milagre que as possa encher outra vez de vida.
Lá fora, de súbito, guincha um gato assustado. Vou à janela. No pátio, entre o arvoredo, cinco andares abaixo da minha janela, passeiam três gatos e presumo que um deles se tenha assanhado com outros dois, por uma qualquer crueldade frívola típica dos gatos, o que pode ser inocente. Os horrores, esses, são relances da realidade. Está tudo cheio deles, mais além, só aqui houve um breve sinal, mas volúvel como um bicho, já passou, não foi nada. Os gatos parecem tranquilos, acalmaram-se, estão no seu ambiente e nem reparam que os observo, lá ao alto, ou talvez não se importem.
Ao fundo, numa fileira de prédios pobres, destaca-se um que está pintado de verde cor de vómito. Isto é o que podemos ver da dissolução do concreto. A realidade corpórea vai perdendo a sua consistência, o que se pode observar nos velhos que passam os dias escondidos nas suas casas moribundas e no gato que silvou assustado e logo fingiu a tranquilidade, pois aquilo que vemos nunca é o que vemos, e se a frase não parece fazer qualquer sentido ou se é contradição, estamos no vasto rio imóvel cheio de correntes antagónicas.
Vejo um homem que vai pela rua arrastando a sua bicicleta velha, uma arrastadeira preta, e surge-me a memória fugaz de pedalar uma bicicleta igual àquela, até nas latarias soltas e no cone da lanterna. E pedalava numa estrada antiga, numa vila da infância e sentia a força do vento no cabelo e havia uma curta descida onde a pesada bicicleta acelerou e foi nesse instante, que agora recordo com exactidão, que senti a máxima liberdade do meu corpo, algo que até esse dia nunca tinha sentido ou talvez a memória não tivesse fixado a alegria pura do momento. E essa memória regressa, quando vejo o homem levando pela mão a velha bicicleta arrastadeira da minha infância. Leva pela mão a bicicleta que, segundo sei, está semi-morta.
Tudo flui num rio, tudo se mistura.

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publicado por Luís Naves às 19:34 | link do post