Quarta-feira, 08.02.12

Diário sem horas (3)

Em plena I Guerra Mundial, com mais exatidão no dia 26 de Janeiro de 1917 em Santa Maria la Longa, Giuseppe Ungaretti escreveu o seu poema Mattina: “M’illumino / D’immenso”. Comentá-lo seria escrever o óbvio. Difícil é vivê-lo, mas não impossível. Basta procurar esse momento de luminosidade que nos relembra o infinito apenas pressentido. Esses prolongados segundos que atravessam as frinchas do incomensurável. Mesmo cerceados pelo frio dos invernos ou feridos pelas batalhas que travamos, tantas vezes de olhos fechados. Sentir cada prova que nos é dada de existência. Cada manhã. Eis a condição primeira dessa imensa iluminação.

publicado por João Villalobos às 19:28 | link do post | comentar

Cais das colunas

Li a seguinte frase no livro de um grande escritor: “O Sol avançava para ocidente”. Tal e qual, como se pudesse ser de outra forma. Mas a frase não era banalidade, só vinha incompleta, pois havia todo um universo naquele movimento, a soma das tragédias humanas contidas num único dia. Esmagado pela tarefa de narrar algo de tão enorme, o autor limitara-se a colocar uma pequena etiqueta. Também sou assim e isto é o máximo que consigo dizer a toda a gente: “Vejam, o sol avança para Ocidente”.
Inclino-me no parapeito e olho o rio. O Tejo preguiça em frente a Lisboa, espalha-se em homenagem azul pela grande planície. A sua água está sempre suja, mas certas marés trazem plásticos e restos que se acumulam junto à parede, formando galáxias de detritos unidos por óleos escuros. Vejo um peixe morto a boiar. Que outra coisa pode um peixe morto fazer na água, senão boiar? A luz dilui-se na cinza e sopra um vento um pouco mais frio. O cais é antigo e está cheio de gente à hora do pôr-do-sol. Daqui podemos ver os apressados que vão apanhar o barco para o lado oposto. A esta hora, as gaivotas esvoaçam e falam umas com as outras, numa algazarra, mas as pessoas ficam pensativas. Invade-nos a melancolia.


Vejam este homem baixo e gordo, que tenta fechar o casaco demasiado estreito: pensa numa dívida que não pode pagar, faz contas e contas, recria cenários, mas não pode pagar e suspira; àquele outro ocorrem pensamentos confusos sobre o mal que fez a um vizinho; foi há mais de dois anos e o vizinho nunca soube, mas o assunto persiste como chuva miudinha e pegajosa. Tanta incerteza, sobre as vidas que tivemos, as promessas por cumprir, as palavras que desperdiçámos. Estão a ver aquele homem ali, o mulato? Pensa que foi cobarde por não enfrentar quem o atormentou; anda nesta amargura há três dias; aconteceu numa discussão no café do bairro, no domingo passado, por motivo trivial de clubes de futebol; e nem imagina que fez bem em não responder, pois quem o insultava, homem de maus fígados, tinha uma faca escondida, que teria usado contra aquela vítima, como certamente usará mais tarde cravando-a no corpo de outro inocente, talvez naquele mesmo café. O facínora irá para a prisão sem remorsos, mas dá para meditar: na vida, não há senão acasos, alguém que se salvou condenou outro.
Estes sussurros misturam-se como num sonho; aquele homem, que está ao lado do turista, pensa seriamente na anedota que lhe contaram nessa mesma manhã e que o fez rir às gargalhadas; ora, como era a sequência exacta? Havia um burro e um barco e tudo convergia numa frase que era de determinada forma que não recorda e que tenta desesperadamente reconstruir. De súbito, abre-se a ferida, e o homem sangra num único instante; o burro era ele, havia uma subtil alusão; no fundo, pensam que é estúpido, riem-se nas suas costas. E que dizer desta mulher que está a pensar no filho que a despreza? Vejam a sua tristeza, mas mesmo que chore, o que é mais uma lágrima? O de fato e gravata está mais ou menos feliz, mas não sabe bem se mais ou se menos; tomou uma decisão lá no escritório, mas só saberá daqui a um mês se foi a certa; entretanto acende um cigarro, vê-se que está inquieto; assim ficará durante um mês, com aquela nuvem a pesar na consciência. E os dois namoradinhos? Caso curioso, que parece paixão; ele imagina que encontrou a mulher ideal; ela pensa num outro rapaz, mas este que agora a abraça ainda não sabe, saberá mais tarde, o que o tornará menos ingénuo. Neste cais há rumores, pequenas ondulações, movimentos da água. O sol ocultou-se a ocidente. Ali está mais uma mulher triste, pois pensa na tia solteira e velha que deixou a apodrecer num lar barato para idosos; a recordação deixa-a cheia de vergonha. E há motivo para isso? Não tem culpa de ser a única sobrinha que se preocupou, mas a tia chora imenso, quando ela a vai visitar, de quinze em quinze dias. E ambas estão muito sozinhas. Não estamos todos?

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publicado por Luís Naves às 11:44 | link do post | comentar
Terça-feira, 07.02.12

Diário sem horas (2)

A delicadeza é um valor escasso, neste tempo em que quase tudo nos abalroa e irrompe olhos e ouvidos adentro, com a violência digna de um exército de hunos. Sabe bem descobri-la, subtil, num silêncio utilizado em lugar de palavras encarquilhadas, num gesto que se estende sem pressas ou na frase inicial de um livro escrito por alguém despreocupado com a “retenção da atenção do leitor”, esse cliché da escrita dita criativa ensinada por aí. Um alguém que nessas primeiras páginas escreva como quem gentilmente abre a porta de casa e aguarda, sem pressas, que o Outro entre, confiante na sua hospitalidade. E sabendo, como o Ulrich de Musil, que é o passo seguinte o mais importante.     

publicado por João Villalobos às 15:45 | link do post | comentar
Segunda-feira, 06.02.12

Diário sem horas (1)

Impõe-se darmos atenção a quem nos rodeia nestes dias difíceis. Que dediquemos verdadeiramente tempo a quem naufraga e àqueles que sobrevivem, apenas à tona ou caminhando milagrosamente sobre as águas. A quem nos estende a mão como aos que se afastam, nem pegadas na areia deixando para que possamos segui-los. Que com autenticidade as vejamos e olhemos à luz do meio-dia, nesses minutos sem sombra, a essas pessoas. Umas e outras. Porque cada uma delas é espelho em que nos revemos e voltaremos a rever, num qualquer momento previsto ou inesperado. Simétricas de nós e às tantas iguais.

publicado por João Villalobos às 11:58 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Sexta-feira, 03.02.12

Jeremias explica o que pretende

Desejo falar por aqueles cuja existência foi uma acumulação de pequenas crueldades sofridas, dos que sentem a grande circulação das traições e dos acontecimentos insignificantes que preenchem a nossa curta passagem pela vida. Falo para guardar a tralha desnecessária do que recordo. Guardar o que puder, mesmo que pareça armazenar inutilidades que vão acumulando poeira lunar. No fundo, interessa-me que as lembranças sejam uma espécie de lixo. E chegam criaturas imaginárias do pensamento à procura, nos caixotes, de alguma coisa que se possa aproveitar. E o estranho é quando encontram uso para o que alguém atirou fora. Estes fantasmas têm o seu próprio lixo, de que não precisam mais e que podem largar, como lastro num balão. E assim sucessivamente, alguém procura a utilidade do lixo do lixo, em sequência que separa e degrada, que transforma e reduz. Até que da memória límpida não reste senão uma centelha.
O que busca o pintor na natureza morta? Talvez a forma, a fuga da luz, uma cor bizarra, ou algo de universal que não pode estar ali, pois que é a disposição aleatória de objectos inanimados. Eu procuro a natureza morta das almas, o que é fugaz e sincero, uniforme e brusco, tudo o que é enigmático e transitório nos seres humanos.


Embora julguem que sou doido, digo que cada um é único. Que não há diferença entre o valor grande e o valor pequeno, pois que o infinito torna toda a glória insignificante, e respondem que isso é absurdo, que o importante é triunfar e ganhar dinheiro e persegui-lo até que seja ele a ditar o que fazemos, que é ganhar ainda mais dinheiro e deixar que ele dite ainda mais a nossa existência. Areias movediças: cada movimento prende-nos mais ao solo, aperta-nos o corpo e empurra-nos para baixo. E assim é o mundo. Todos os que te devoram serão devorados. Os poderosos e os hipócritas, os ricos e os vaidosos, os roídos pela inveja e os que ambicionam tudo o que não possuem, desprezando tudo o que têm. No espelho a imagem do outro, todos os seus defeitos no outro.
Procuro os homens infelizes, desnecessários, o lixo do lixo. A fila dos desempregados, os que procuram sexo pago, os jogadores da bolsa, a venda de braços, o cansaço à boca do metro, um frio que entra pelos casacos, a buzina do carro apressado, os semáforos avariados e todos avançam, os que saem do cinema ainda a esfregar os olhos incrédulos da fantasia barata, a mulher bonita que passa sem olhar, o vendedor que espera a clientela, um cauteleiro desdentado, o pombo morto junto ao passeio, a luz que se acende na suite do hotel, o conhecido banqueiro com motorista a bordo do jaguar, a mulher gorda que olha para trás, para me ver a mim, com ar de repugnância. O vento assobia, fim de tarde, começa o frio, existe uma fadiga à solta a esta hora do dia.


A maioria ignora-me, nem repara. Para os que olham sou um alucinado, que agita os braços, que fala de forma insensata, que faz avisos tolos. E perguntam: que é isto?
A fachada das nossas almas é triste, quando nos passeamos nestas ruas frias de Fevereiro. Este é o rio lento da minha cidade, um rio que não chega ao mar.

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publicado por Luís Naves às 20:40 | link do post | comentar
Quinta-feira, 02.02.12

Navegações

Menina Limão faz cinco anos, parabéns à autora.

Através de Ouriquense (um clássico) descobri este excelente blogue, Tenho estado a ler Whitman.

Rui Bebiano lembra aqui a poeta polaca Wislawa Szymborska, que morreu ontem em Cracóvia.

José Mário Silva também recorda Szymborska, aqui. E podemos ler um poema lindíssimo.

Mais serviço público no excelente Antologia do Esquecimento.

E em Delito de Opinião vi esta foto muito engraçada.

 

Deslizamos no vento, serenidade, boas ondas...

publicado por Luís Naves às 19:11 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 01.02.12

A porta fechada

Por todo o lado, a mesma sensação de decadência. A ruína não apenas nas fachadas dos prédios, mas no interior apodrecido. A caminhar para casa, vejo uma porta fechada e sinto um arrepio que me trespassa, que me faz lembrar a gélida precariedade do destino. Dá-me a sensação de que vivemos no fio, nas nossas lentas manhas, sempre infrutíferas, a pequena sonolência, o tropeço sempre tão rápido.
O que recordo estava além desta porta sombria. A mercearia do Gonçalo era um buraco, descíamos por uma escada e entrávamos numa cave escura, mal iluminada. O Gonçalo era possante, parecia indestrutível, mas só o conheci quando alugou a cave do prédio ao lado do meu. Lembro-me com exactidão: ele estava no exterior, a observar a rua; eu ia a passar, e foi ele a meter conversa; pareceu-me um tipo meio alucinado e fui percebendo um pouco dos seus problemas, aliás quase me contou a sua vida toda. Imaginem: um homem alto e grande, dos seus quarenta e tal, precocemente envelhecido. Tratou-me por doutor e explicou que tivera tudo e tudo perdera. Força de expressão, por certo, pois ninguém é assim tão rico. Mas pessoa que agora nada tenha, mais parece que o que tinha era um tesouro. Desempregado em cinco minutos, tratado como se trata um cão, foi a expressão que ele usou, e a mulher deixou-o nessa mesma semana. Apesar de tudo, ainda a defendia: disse que era boa rapariga, desculpou-se, que o casamento já não ia bem, que não fora culpa dela. Desaparecera da sua vida, era tudo. As mulheres têm ambições, explicou, sem amargura.
   - E aqui me encontro sozinho, doutor, na minha última oportunidade.
Juntara as poupanças para alugar a cave e comprar os produtos necessários para uma mercearia de bairro. Pensei que não seria bom negócio, com a concorrência das grandes lojas (e que problemas já têm os grandes, quanto mais os minúsculos), mas fiquei calado. Qual era o sentido de perturbar o sonho de um iludido ou de um visionário?


Nos meses seguintes, comprava no estabelecimento, parava sempre para falar um pouco com Gonçalo (juro que não me lembro do apelido dele), porque era uma pessoa simpática. Pareceu-me cada vez mais pálido, também mais curvado. Emagrecera. Notei essa degradação e não havia clientela, tal como eu previra, de forma que não sei como podia ele flutuar na economia de mercado.
Um dia, notei-lhe a tosse, a tristeza, e fiquei ali um bocadinho a animá-lo. Contou-me que não podia continuar, as dívidas tinham acumulado, fechava a porta nessa mesma semana. No sábado, desamparou a loja, com a ajuda de uns primos. Eu descia a rua, em passeio matinal, ofereci-me para carregar caixotes, mas ele recusou. Sorriu com a minha oferta. Não o voltei a ver.
Por vezes, penso nas tragédias comuns da humanidade, que são muitas em tempos difíceis, cada uma devastadora para quem a sofre. Certas pessoas parecem atrair o infortúnio e aquele Gonçalo era um desses desgraçados, cuja miséria se confunde com a própria pele. Por muito que tentem, só encontram desaires. Nós, os outros, sentimos pena, mas também um vago alívio por não sofrermos desse fado invisível. A catástrofe não nos pode atingir a todos e já tem as suas vítimas bem escolhidas. É isso que significa esta porta fechada.

publicado por Luís Naves às 19:56 | link do post | comentar

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