O amor é cruel

Nesse tempo, morava a um quarteirão do Danúbio, numa das melhores zonas de Pest, na esquina da Pozsonyi com a Radnoti, num prédio antigo que foi dividido em apartamentos minúsculos. Se descermos a rua, direcção sul, estamos no boulevard de Szent Istvan e, se caminharmos para ocidente, a meio da ponte, na Ilha Margarida. A casa fora uma sorte, mas tudo o resto era enganador; um ano antes perdera o emprego na rádio. Felizmente, recebia uma bolsa literária de 50 mil forint e a casa tinha renda barata, camarária, julgo que não passava dos dez mil, o que era uma ridicularia. Enfim, o suficiente para uma vida de escrita, mas com os centavos todos contados. Sem os biscates, provavelmente tinha sido forçado a mudar de profissão. A minha mãe, que ainda era viva, dizia-me sempre que um canalizador fazia mais dinheiro, e era verdade, mas não me importava com estas censuras: não deixa de ser respeitável ver um tipo seguir o seu sonho.
O inverno desse ano acabou num murmúrio, que tinha a suavidade de um tempo a escoar-se ao ritmo de manhãs translúcidas. Durante semanas, quase não saí de casa, porque estava a acabar a tradução de um livro francês e a começar um conto que só viria a publicar anos depois, mas que me ocupou bastante tempo. Construí rotinas simples: levantava-me cedo e escrevia; parava ao fim da manhã, fazia umas compras básicas e comia qualquer coisa num bistro da rua; regressava e trabalhava até à noite na tradução (...).


O bistro era um estabelecimento acanhado, que fazia bolos e tinha no canto uma área para se comer de pé. Ao centro, havia uma fileira de tabuleiros com comida a preços acessíveis e porções pequenas, para os trabalhadores dos escritórios. O lugar tinha uma clientela fixa e ficava bastante confuso às horas das refeições, embora não houvesse barulho de conversas, pois os húngaros não falam enquanto comem. Eu ia ali porque o orçamento chegava e o lugar era acolhedor e quente, a comida simples; a certo ponto, esperava encontrar uma das empregadas, com quem tinha um começo de namoro. Primeiro, foram umas conversas, depois uns sorrisos e olhares mais continuados, até ao convite para ir ao cinema ao domingo, mas isso tinha sido ainda antes do inverno. Ela era uma rapariga banal e, a princípio, os nossos encontros foram inocentes. Agora, que já passaram anos desde esse período da minha vida, posso dizer que sinto uma dose de culpa, pois sabendo à partida que não iria apaixonar-me por Anna (assim se chamava), continuei a iludi-la, embora ela fosse para mim apenas objecto de estudo, uma personagem material do que imagino ser a vida autêntica, daquelas personagens que por vezes os escritores levam para dentro dos romances falsos que escrevem.
Anna era uma mulher baixa, suburbana, cabelo pintado de loiro (era morena). Falava de forma inculta e era este último elemento o que mais me interessava nela, quando me desligava dos sentimentos, julgando-me um distanciado cientista social. Depois, tentava arranjar uma desculpa esfarrapada para a minha frieza: talvez faça parte da nossa cultura, esta ansiedade por compreender a massa informe de povo que ainda há uma geração era camponesa e que permanece camponesa na alma.


O que me irritava em Anna era a maneira como pegava no cigarro, sem elegância; o baton barato que usava nos lábios, com demasiada cor; até o corte de cabelo, que lhe deixava madeixas espetadas. As conversas, a voz espessa e certos silêncios que pareciam ser de perplexidade, de quem não sabe o que dizer a seguir. Mas nunca reprimi estes obstáculos à intimidade, o que teria feito se ela verdadeiramente me interessasse; pelo contrário, quase os estimulava, para os observar melhor, como se Anna fosse uma actriz e eu o encenador do drama.
Às vezes, ela passava a noite no meu apartamento, mas nunca quis que isso se transformasse em hábito e certamente não foi o caso nas semanas da transição para a primavera, em que estava com os dois trabalhos, que serviam bem de desculpa para as minhas reticências. O amor é cruel, porque raramente tem a mesma intensidade ou fala a mesma linguagem nos dois sentidos e, por isso, faz sempre uma vítima, pelo menos uma, que no nosso caso era Anna. Ela não fazia cenas nem chorava, pelo contrário, parecia não se incomodar muito com a minha insensibilidade, aceitava a tirania suave, mas essa reacção era apenas parte da sua maneira estóica de encarar o mundo e as respectivas devastações. Um encolher de ombros que só chorava por dentro.
Quando terminei o conto (e levara-me cinco semanas) observei que havia um brilho de sol na janela; como já expliquei, as minhas duas janelas davam para nascente e, depois, tinha outra virada a norte, onde nunca batia a luz solar, mas apenas o seu pálido reflexo transmitido através da sombra. E achei fascinante rever aquela cor de prenúncio de primavera e, olhando melhor, via-se um azul do céu profundo, que parecia ter a espessura do universo inteiro, embora isso fosse enganador, era apenas a película delicada, da espessura de uma bola de sabão e para além da qual tudo era escuro e trevas. Saí nessa manhã mais cedo, em vez de escrever. Ainda estava a pensar num título e nesse primeiro passeio cheguei a uma boa conclusão. Fiquei junto ao Danúbio, ainda estava um pouco de frio e humidade, o sol iluminava o castelo e o casario de Buda, ao longo das colinas. A ponte, verde de bronze, parecia ferro em brasa. Decidi nessa manhã, julgo que era de início de Março, pôr um ponto final no meu caso com Anna e desenhava-se na minha mente uma conversa completa sobre o assunto, com palavras serenas, embora eu mal soubesse que ao sair da caverna onde hibernara me esperavam abundantes complicações, pois assim é o ritmo da vida, igual ao de um rio poderoso, com a sua corrente ao sabor do degelo nas montanhas, quase sempre sem novidades, a correr contido em margens, e em raras ocasiões, por dá cá aquela palha, a transbordar levando tudo à frente.     

publicado por Luís Naves às 20:11 | link do post