Um raro original

De Ray Bradbury gosto sobretudo dos contos de ficção científica, género que forma apenas parte das suas coleções de contos. Segundo anunciou hoje a família, o escritor americano faleceu aos 91 anos. Ao longo da vida, escreveu numerosas histórias de fantasia, explorou outros territórios, a sua obra é vasta e diversificada. Farenheit 451 marcou-me e também gosto muito do filme de François Truffaut do mesmo título (na imagem), mas prefiro O Homem Ilustrado, embora o meu coração balance com As Crónicas Marcianas.
A imaginação delirante, o estilo poético, a concisão da prosa, estes são alguns dos aspectos mais poderosos de Ray Bradbury, mas é interessante notar que existe em pano de fundo uma crítica em relação ao mundo tecnológico em que vivemos. O autor não acreditava nos benefícios automáticos das inovações e, acima de tudo, não acreditava na desumanização que acompanha muito do progresso a que assistimos. Disse isso em várias entrevistas, que nos devíamos libertar da tirania das máquinas à nossa volta, o que não deixa de ser curioso num especialista em ficção científica.
Algumas histórias são sobre a alienação humana, tão visível no nosso moderno défice de atenção. Em Farenheit 451, os livros são destruídos devido ao perigo das ideias complicadas que contêm. A perda da memória não é lamentada nessa civilização distópica, pelo contrário, trata-se de uma consequência vantajosa, pois a complexidade implica conflito e deve ser combatida.
Bradbury não antecipou a realidade e hoje não há bombeiros em busca de livros subversivos, mas a cultura tornou-se num corpo estranho, pois o mundo em que vivemos anda baseado no efémero e no superficial. A complexidade dá indesejáveis dores de cabeça, por isso protegemos as nossas crianças de pensarem demasiado. É uma forma de mundo novo em que não se queimam livros, mas onde estes se tornaram vagamente obsoletos.
Num dos contos de O Homem Ilustrado, há uma máquina que fabrica um mundo virtual que acaba por se transformar em realidade. Antecipação dos jogos de computador onde tantos adolescentes passam horas a fio, as famílias transformadas em incómodo, na confusão entre os dois planos. A tecnologia infiltrou-se em toda a nossa vida, impedindo ou dificultando o pensamento profundo que determina a verdadeira originalidade. Num mundo caracterizado pela obsessão daquilo que é novo, Bradbury era um raro original.

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publicado por Luís Naves às 19:23 | link do post