A imensidão

O mais difícil é começar. Podia contar-vos como eram mágicas as florestas e serenas as margens dos rios sussurrantes; podia falar da crueza do deserto e do céu cheio de estrelas e e das ondas marinhas desenhadas na areia e que o Sol iluminava, fazendo brilhar uma estrada de ouro, em carícias ao longo das dunas. Mas talvez seja erro meu, lembrar o passado com cores intensas, como se fosse uma tela antiga e vagamente irreal. Provavelmente, observo os dias com menos exactidão, pois eles não têm consistência e, por isso, o que observamos já não parece ser do mundo verdadeiro.
O passado é um sonho; de aventuras, de corpos amados; de cidades maravilhosas, cujos telhados resplandeciam; de risos e falas estranhas, de línguas distantes, de mistérios e viagens na bruma, enigmas em desordem.
Por vezes, aborreço-me, sou tomado por uma nostalgia daquilo que vivi e vi viver; da praia vazia onde naufraguei, daquela rapariga que me sorriu num mercado oriental, tão devastadora como um exército invasor.
E, na casa, à noite, a madeira range e lembra o murmúrio delicado das velas que o vento arqueava  (os panos produziam leves ritmos doces, quando se soltavam o cordame e a água deslizava no fundo do barco, como faziam os delicados rios da minha infância). A lareira apagada estala da mesma forma, num turbilhão secreto, de brasas adormecidas debaixo da cinza.
A existência é fria, mas as minhas lembranças ainda ardem.
E havia aquele fundo laranja de um fim de tarde tropical, na mansidão dos reflexos, as vagas preguiçosas que se derramavam na areia quente, enquanto uma brisa agitava as nervosas folhas das palmeiras.
E quando observo os restos do que me rodeia, pareço-me com essas brasas que se recusam a dormir, sempre agitadas num desassossego.


Lembro as caravanas que saíam de Fort Laperrine e serpenteavam, vagarosas, na delirante paisagem das montanhas Hoggar, na alucinação da sede e na proximidade da morte.
As filas de camelos eram minuciosas, como carreiros de formigas, entre os imponentes maciços de pedra, que pareciam jardins de estátuas esculpidas por uma civilização perdida. Depois, as caravanas passavam através dos Wadis, produzindo ecos iguais a conversas de deuses. Os animais subiam e desciam ravinas que a luz do crepúsculo pintara da cor do ferro. A marcha fazia-se em silêncio, cada viajante mergulhado na solidão dos seus pensamentos. E, por vezes, surgiam tempestades súbitas (nuvens negras deslizavam do nada e caíam relâmpagos e os camelos espantavam-se, descontrolados); os barrancos tornavam-se armadilhas; rugiam enchentes, muros de água, e perdiam-se vidas.
O último posto militar antes do planalto chamava-se Arrem Tazerouk. Era uma aldeia semelhante às outras do Bordj, onde as casas mais parecem a continuação da terra morta. A povoação ficava num ponto elevado, de onde se tinha a perspectiva completa do vale. Era uma espécie de vereda estendida como um tapete até ao horizonte, a bigorna onde o sol partia lentamente a pedra branca.
A minha caravana era guiada por um nómada chamado Ibn Guezzam, que me pedira para manter sempre o disfarce de beduíno, por causa dos rebeldes. Montámos o acampamento nas imediações do forte francês e a guarnição de soldados observou a nossa azáfama com interesse disperso.
Podia ter ficado junto a Guezzam, mas ao ver a figura do oficial francês, que passeava sozinho na muralha, a silhueta recortada contra o céu desprotegido, olhando a distância como quem observa o mar, senti necessidade de falar com alguém e aproximei-me, revelando a minha identidade.
O capitão chamava-se Zinderneuf e pareceu contente de encontrar ali um europeu.
     “Finalmente, alguém que pode compreender”, disse ele.
     “Compreender o quê?”
     “Isto”, apontou, com um gesto que abarcava o mundo. “O vazio da existência”.
Contou-me como tinha procurado o posto militar mais afastado, o derradeiro, o mais próximo do nada. Implorara para que o enviassem para o forte mais frágil, o menos defensável do deserto.
     “Sinto que toda a minha vida se desenrolou para culminar num único instante, que está iminente”, afirmou.
Zinderneuf pediu-me para ouvir o assobio lúgubre do vento, que se elevava na noite. Ficara de repente demasiado escuro e víamos a poeira das estrelas:
      “Nunca antes tinha percebido a palavra destino”, prosseguiu Zinderneuf. “Cem mil pormenores aleatórios conjugaram-se para que eu estivesse aqui, exactamente hoje, quando um exército inimigo se prepara, naquelas montanhas, para dar sentido à minha vida. Um número impossível de acasos me trouxe a este lugar, numa sequência tão incontável como os grãos de areia do deserto ou do número de estrelas no firmamento. Veja bem, algo me arrastou, como se eu fosse uma simples molécula de água num rio infinito. E naquelas colinas escuras está um homem que ainda não sabe que o sentido da sua própria existência será tirar-me a vida a mim, o que é apenas possível por estarmos neste ponto exacto do espaço e do tempo”.
Conversámos durante mais algum tempo, mas apenas banalidades. Ele contou-me que não tinha família e que não lhe interessavam as memórias e o passado. Queria meditar, disse, e mandou-me sair, regressar ao deserto, para poder viver.
    "Você também é uma parte improvável deste acaso".
Depois, despediu-se com um forte aperto de mão:
     “Tudo de repente faz sentido. O universo inteiro”, afirmou Zinderneuf.

Na manhã seguinte, o capitão deu ordens aos seus homens para expulsarem a minha caravana das imediações do forte.
Partimos e, quando atravessávamos as montanhas, num sítio chamado Oued ta Zoulet, encontrámos o exército tuareg que ia atacar Arrem Tazerouk. Deixaram-nos passar, sem suspeitarem que eu era europeu.
Soube mais tarde que entre os franceses que defendiam o forte não houve sobreviventes.

 

O conto é antigo, inspirado em Beau Geste (de onde tirei a imagem), Morocco e Atlântida. Fiz uns cortes.

publicado por Luís Naves às 19:14 | link do post