O café da estação

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A senhora Matuska olhou-me com o gesto dos míopes, num esforço da vista, medindo o meu aspecto como se dissesse, baixinho, que as minhas intenções eram suspeitas. Mostrei-lhe o meu cartão de visita, que tem umas decorações sugestivas, e depois um recorte de jornal onde constava uma grande fotografia de Joszef Varga. Ela perguntou-me se eu era jornalista e respondi-lhe que não: embora escrevesse em jornais, era na realidade escritor. Foi ainda pior do que confessar a um membro da máfia albanesa que era membro honorário da polícia judiciária.
   “Então, não estou a ver qual possa ser o seu interesse no caso”, disse ela.
   Tive de recorrer à mentira acrobática:
   “Conhecia pessoalmente o senhor Varga”, (e isso era verdade) “e vou escrever um livro sobre ele (mentira) e queria saber todos os pormenores daquele dia, com quem falou e o que disse na ocasião, (verdade) por causa do rigor que pretendo imprimir ao livro” (imprecisão, evasiva, mentira).
   Fui apenas meio credível. Sabendo do gosto de Varga por café pela manhã, era possível, até provável, que ele pudesse ter parado ali e conversado um pouco, antes de seguir no seu passeio de pensionista. Para mim, era fácil imaginar aquele idoso alto e curvado, de sobretudo e chapéu, a entrar no pequeno estabelecimento da senhora Matuska, uma mulher que já tivera sem dúvida os seus tempos de glória. Dizer uma graça ou simplesmente esperar que ela fizesse a despesa da conversa.
   A mulher observou atentamente a página do jornal. Recordava-se do caso.


  

“Sabia que ele esteve aqui naquele dia?”, perguntou-me, numa promessa de confidências, e eu quase não acreditava na minha sorte de ter um palpite e acertar à primeira. Perguntei-lhe se o velho dissera alguma coisa de especial:
   “Quando li nos jornais, nem queria acreditar que era o mesmo senhor que estivera aqui, na minha loja”.
   “E nesse dia, ele pareceu-lhe preocupado?”
   “Are-epiante”, explicou ela, pronunciando mal a palavra. A princípio, nem percebi o que dissera; perguntei-lhe se era da Transilvânia e ela devolveu-me o olhar de quem não compreendera, o que me obrigou a explicar e a desviar as questões do essencial; disse que ficara com a ideia de que era da província, por causa da pronúncia. Pior a emenda que o soneto. Ela sorriu, desagradada, depois inclinando-se no balcão, como se quisesse sublinhar um ponto importante, mostrando o decote (quantos homens ela aconchegara ao deslumbrante peito, no seu auge, por altura dos anos 70?); através da blusa fina, viam-se-lhe as carnes fartas do corpo que ainda supunham pertencer a uma sensual, irresistível, beldade.
   “Está a chamar-me saloia?”
   “Esqueça a Transilvânia, distrai-nos do essencial. O que quis a senhora dizer com isso da voz dele?”
   “A voz ar-epiava”, precisou ela, repetindo muito devagar o erro. Mas estragara-se a empatia entre nós.
   Ela ainda falou do que se lembrava da conversa:
   “Esse senhor era muito educado”, apontou para a fotografia no jornal. “Entrou, cumprimentou-me tirando o chapéu e pediu um café e foi um cavalheiro, mas fiquei com muito medo”.
   Era absurdo, claro. A senhora Matuska lera sofregamente todas as notícias e agora imaginava uma ameaça vaga ou uma coincidência do destino que não podia ter pressentido antes.
   “Aquela voz fazia-me lembrar…” não concluiu a reminiscência, mas revirou os olhos para o alto, para sublinhar que lhe ocorria uma parecença sublime, como se Varga fosse uma visita importante.
   Era um revirar de olhos azuis, repleto de significado. A beleza que se agarrava em desespero à borda do abismo. A proprietária do café fora sem dúvida uma bomba de mulher e inclinava-se no balcão, para acentuar o decote. Reparei que pintara o cabelo, outrora louro.
   “Como era nobre, aquele senhor, um autêntico aristocrata, não que eu aprecie aristocratas, mas enfim, alguém distinto, com estudos”. E, nesta altura, a senhora Matuska pareceu olhar-me pela primeira vez. Esgotara-se o palavreado.
   “Disse que era escritor, mas de quê…?” e consultou o cartão que eu lhe dera: “Lajos Kormanyos? Nunca ouvi falar”.
   “Não sou conhecido. Escrevo livros de...”, hesitei porque nem eu próprio sabia classificar os meus livros. “Escrevo biografias e livros de ficção científica. Baixa tiragem, são pouco lidos”, expliquei, mentindo sempre.
   “Eu prefiro os policiais”, sentenciou a senhora Matuska. “E em relação ao que disse esse tal Varga, ou lá o que era, não me recordo. Já expliquei isso aos seus amigos, aos polícias que andaram por aí a farejar”.
   “Não tenho amigos polícias. O meu interesse no caso é puramente literário. Ele não disse mais nada? Não explicou onde costumava passar o dia?”
   “No meu ramo, senhor… Kalamanios, o cliente deixa de existir fora destas portas”.
   A frase pareceu-me estranha, com significados ocultos. Ocorreu-me, como numa vaga ideia subitamente lógica, que aquela mulher tinha um passado feito de segredos; nos anos 70, o regime tinha tolerado casas de vício, muito discretas e dizem que dispendiosas, para deixar sair o vapor da sociedade demasiado fechada e comprimida dessa época. Talvez… O mundo nunca é o que parece à primeira vista.
   Interpretei o remate dela como uma despedida e, sendo assim, era o mesmo que falar com uma parede. Paguei o bolinho rançoso, o café de borra e agradeci, tentando a minha voz ar-epiante e cheia de sensualidade:
   “Então, adeus, senhora Matuska, e agradeço a sua ajuda preciosa”.
   “Quando sair o livro, avise-me”.
   “Prometido”.
Se Joszef Varga, no último dia de vida, dissera alguma coisa naquele café minúsculo, as suas palavras já não estavam ao alcance da minha curiosidade.

 

Excerto de uma novela de Lajos Kormanyos

publicado por Luís Naves às 18:18 | link do post